Aristóteles: aquilo que sobra quando o ruído cala
As
ideias surgem no cotidiano, palco da vida. Outro dia, no meio de uma conversa
trivial, alguém me perguntou: “Mas afinal, você se conhece mesmo?”
A
pergunta ficou ecoando como aquelas músicas que não pedimos para tocar, mas
insistem em repetir na cabeça.
Autoconhecimento
virou palavra da moda. Está em livros, em palestras, em vídeos curtos com
frases impactantes. Mas o que seria a quintessência do autoconhecimento?
O que resta quando tiramos os exageros, os modismos, as técnicas milagrosas?
Talvez
precisemos começar pela própria palavra.
O
que é quintessência?
Na
filosofia antiga, especialmente em Aristóteles, o mundo era composto por
quatro elementos: terra, água, ar e fogo. Mais tarde, pensadores medievais
falaram de um quinto elemento — a quintessência — o éter, aquilo que
seria a substância mais pura, o que sustenta os céus.
Quintessência
é, portanto, a parte mais refinada, o núcleo essencial, aquilo que
permanece quando o excesso é retirado.
Então
pergunto:
Se
retirarmos as máscaras sociais, as opiniões herdadas, os medos não examinados —
o que sobra de nós?
O
cotidiano como espelho
Autoconhecimento
não começa em um retiro espiritual. Começa na fila do supermercado.
- Como você reage quando alguém fura a
fila?
- O que você sente quando não é
reconhecido no trabalho?
- Por que certas críticas doem mais do
que deveriam?
Esses
pequenos incômodos são reveladores.
Eles
mostram onde nossa identidade está frágil, onde buscamos validação, onde ainda
somos movidos por impulsos não compreendidos.
Às
vezes nos julgamos calmos — até alguém discordar de nós.
Nos
julgamos desapegados — até perdermos algo.
Nos
julgamos generosos — até sermos contrariados.
O
cotidiano é laboratório filosófico.
A
ilusão da autoimagem
Muitas
vezes confundimos autoconhecimento com ter uma narrativa bonita sobre nós
mesmos.
“Eu
sou assim porque...”
“Minha
essência é...”
“Eu
sempre fui desse jeito...”
Mas
será que somos mesmo isso tudo que contamos?
O
filósofo grego Sócrates recomendava o famoso “conhece-te a ti mesmo”,
mas conhecer não é inventar uma versão confortável. É suportar a própria
ambiguidade.
Somos
capazes de bondade e egoísmo.
De
coragem e covardia.
De
clareza e autoengano.
A
quintessência não é a parte “bonita” de nós.
É
a parte verdadeira.
Uma
proposta inovadora: autoconhecimento como depuração
Talvez
o autoconhecimento seja menos uma descoberta e mais uma depuração.
Como
quando limpamos um vidro embaçado. A paisagem já estava lá — nós é que não
víamos com nitidez.
Depurar
é observar:
- Por que eu preciso ter razão?
- Por que essa pessoa me incomoda
tanto?
- Por que repito sempre os mesmos erros
afetivos?
Cada
resposta sincera remove um pouco de ilusão.
E
aqui está algo importante: a quintessência não é construída; ela é revelada.
O
silêncio como caminho
Vivemos
hiperestimulados. Opiniões o tempo todo. Notificações. Comparações.
Performance.
Como
ouvir a própria voz nesse ruído?
A
quintessência do autoconhecimento talvez surja no silêncio — não
necessariamente físico, mas interior.
Quando
não precisamos provar nada.
Quando
não estamos nos defendendo.
Quando
simplesmente observamos.
Sabe
aquele instante em que você percebe que está repetindo um padrão antigo — e
decide agir diferente? Ali há autoconhecimento em ato.
O
risco de se conhecer
Conhecer-se
exige coragem.
Porque
talvez descubramos que:
- Não somos tão maduros quanto
imaginávamos.
- Buscamos amor onde deveríamos buscar
autonomia.
- Nos sabotamos por medo de crescer.
Mas
também podemos descobrir:
- Forças ignoradas.
- Desejos autênticos.
- Talentos adormecidos.
A
quintessência não é julgamento. É lucidez.
O
que sobra quando tudo cai
Se
retirarmos:
- O que esperam de nós,
- O que tememos perder,
- O que fingimos ser,
Talvez
reste algo simples.
Um
núcleo silencioso.
Uma
consciência que observa.
Uma
disposição de aprender consigo mesmo.
Autoconhecimento
não é tornar-se extraordinário.
É
tornar-se verdadeiro.
E
talvez a quintessência disso tudo seja esta pergunta que volta, sempre:
Quem
sou eu quando ninguém está olhando?
É
aí que começa a parte mais sutil — e mais real — de nós.
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