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sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Essencialmente Otimistas

A arte de esperar o melhor sem negar o pior.

 

Quando a vida nos dá uma piscadinha

Às vezes, o dia começa torto: dia destes derrubei o café, perdi o ônibus, o celular decidiu atualizar bem na hora da reunião. Mas, curiosamente, há quem olhe para tudo isso e pense: “ok, mas o que de bom pode nascer daqui?”

Essas pessoas (inclusive eu) não são ingênuas, nem vivem num universo paralelo. São o que eu chamaria de essencialmente otimistas — indivíduos que parecem carregar uma espécie de bússola interna apontada não para um final feliz garantido, mas para uma possibilidade. Um pequeno brilho que a realidade oferece em algum canto, mesmo quando ela está mal-humorada.

O interessante é que esse tipo de otimismo não é aquele sorriso amarelo que tenta esconder a dor, mas sim uma atitude filosófica com raízes profundas.

 

O otimismo como disposição ontológica

Ser essencialmente otimista não é acreditar que “tudo vai dar certo”. Isso seria quase uma superstição. O essencialmente otimista acredita em outra coisa: que existe sempre uma resposta possível — e que ele pode participar da construção dela.

O filósofo Ernst Bloch, em O Princípio Esperança, dizia que o ser humano é o único animal que vive projetado no “ainda-não”. Somos seres que antecipam, imaginam, constroem imagens do que pode vir. O essencialmente otimista habita esse “ainda-não” com naturalidade. Ele não nega que o presente é difícil, mas tampouco permite que ele seja definitivo.

William James, ao falar sobre as atitudes morais diante da vida, distinguia entre o “temperamento saudável” e a “alma doente”. O primeiro não é o que ignora o sofrimento, mas o que o atravessa sem permitir que ele apague a chama do significado. O essencialmente otimista está nesse campo — ele toma a realidade inteira, mas encontra dentro dela uma brecha para agir, para reinterpretar, para caminhar.

Em termos mais simples: trata-se menos de previsão e mais de postura.

 

Vamos pensar sobre momentos do cotidiano

Onde o otimismo essencial se esconde

 

A fila do banco que vira aula de paciência

A pessoa essencialmente otimista não se irrita com a demora por ingenuidade. Ela pensa: “estou aqui mesmo; posso responder mensagens, observar as pessoas, talvez até aprender algo sobre como lidam com o tempo.”

Ela transforma uma perda de tempo em um uso diferente do tempo.

 

O fracasso profissional como trampolim e não miragem

Alguém é demitido. A primeira reação é emocional, forte. Mas o essencialmente otimista, depois do impacto, se pergunta:

“O que essa mudança me força a ver que eu não enxergava?”

Não há mágica. Há um redesenhar do mapa da própria vida.

 

O relacionamento que não deu certo

A pessoa essencialmente otimista não diz: “foi tudo inútil”. Ela pensa:
“Isso me ensinou algo sobre mim. Sobre cuidado, limites, ritmos. Agora sei melhor o que ofereço e o que busco.”

Ela não apaga a história — aprende com ela.

 

Pequenas frustrações que não se tornam catástrofes

O ônibus atrasou?

O essencialmente otimista aproveita para ouvir música, observar o céu, ou simplesmente respirar. Ele não transforma a contrariedade em identidade.

 

Um ponto-chave: otimismo essencial não é fuga

Pelo contrário: quem é essencialmente otimista olha a realidade no olho. Ele não diz “não dói”; ele diz “dói, mas não me define”. E aqui entra uma sutileza filosófica: essa forma de otimismo nasce da percepção de que somos processo, não produto final.

O essencialmente otimista é aquele que lembra, sempre, que está se tornando.

Ele vê o mundo como matéria-prima, não como sentença.

 

O brilho que insiste

Ser essencialmente otimista é uma forma de resistência silenciosa. É afirmar que, apesar das provas contrárias, ainda existe um fio de sentido no real. Esse otimismo não ignora o sofrimento, apenas se recusa a conceder a ele a última palavra.

Talvez, no fundo, seja isso:

o essencialmente otimista acredita que a vida está sempre, de algum modo, por vir.

E que dentro de cada tropeço cotidiano existe um convite sutil para começar de novo — um convite que só os essencialmente otimistas conseguem ouvir com nitidez.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Memória Essencial



Às vezes, enquanto tomamos um café ou esperamos o ônibus, uma lembrança vem do nada: uma tarde de infância, uma risada perdida, o cheiro de um bolo que alguém fazia. E, curiosamente, não lembramos de tudo — apenas de fragmentos. A memória, como uma artista seletiva, guarda o que importa e apaga o que apenas passou. Lembro porque a emoção gravou em algum lugar de minha mente o que naquele momento vivido foi marcante e diferente, sempre que sinto sua falta revisito o palácio da memória e encontro a lembrança em alguma sala me aguardando, isto é fantástico.

No fundo, ela é menos um arquivo e mais um filtro. Do que vivemos, ficam as emoções mais intensas, as experiências que nos tocaram de verdade. O resto se dissolve no esquecimento, talvez para abrir espaço para o novo. É como se o tempo só permitisse permanecer o que teve alma.

No cotidiano, isso se mostra de forma simples: esquecemos nomes, mas não esquecemos o tom de voz; deixamos de lembrar rostos, mas recordamos a sensação de estar perto de alguém. A memória essencial é afetiva — o que se grava não é o fato, mas o sentimento.

Há quem veja nisso uma falha da mente. Eu vejo um gesto de sabedoria. A memória seleciona o que nos constrói, como quem organiza uma casa. Deixa ir o que pesa e guarda o que nos mantém de pé. Por isso, lembrar é, de certo modo, também escolher.

Henri Bergson dizia que a lembrança é “a sobrevivência do passado no presente”. E talvez seja isso mesmo: o que realmente vivemos continua vivo, não como repetição, mas como presença sutil. O que o tempo não levou, o coração quis manter.

domingo, 10 de agosto de 2025

Urbanidade

Entre o gesto civilizado e o caos cotidiano

Todo mundo já se irritou no trânsito, esperou demais numa fila ou se viu em um elevador apertado tentando não fazer contato visual. Nessas horas, a convivência parece um teste de paciência. Mas é aí que entra a tal da urbanidade — essa arte delicada de viver com o outro, mesmo quando tudo em nós gostaria de estar sozinho. Urbanidade não é só dizer "bom dia" ou segurar a porta do elevador. Ela vai muito além da boa educação. É um pacto silencioso que torna possível a vida em comum, especialmente nas cidades onde o anonimato e o conflito são regra.

A cidade como laboratório do convívio

O termo "urbanidade" deriva de urbs, cidade em latim. Desde o início, está ligada ao espaço urbano, onde a vida se torna coletiva por necessidade. Nas palavras de Georg Simmel, um dos primeiros a pensar a cidade como fenômeno social, o sujeito urbano desenvolve uma atitude blasé — uma indiferença protetora diante do excesso de estímulos, pessoas e demandas. Para Simmel, isso não é falta de empatia, mas um mecanismo de sobrevivência psíquica.

Contudo, esse mesmo distanciamento pode minar a urbanidade, pois facilita a indiferença total ao outro. Quando todos estão ocupados demais consigo mesmos, o cuidado mútuo se dissolve. E aí o espaço comum vira um campo de disputa.

Urbanidade como delicadeza política

Norbert Elias, em sua obra O Processo Civilizador, mostra como a sociabilidade se tornou mais refinada ao longo dos séculos: regras de etiqueta, modos à mesa, contenção dos impulsos — tudo isso como parte de um processo de regulação social. A urbanidade surge nesse contexto como um tipo de autocontrole aprendido, uma sensibilidade ao outro que permite a previsibilidade e a confiança nos laços sociais.

Mas não se trata apenas de polidez decorativa. O filósofo francês Jacques Rancière nos ajuda a lembrar que o espaço público é, acima de tudo, político. Ser urbano não é apenas respeitar a fila, mas reconhecer o outro como igual, com direito à fala, ao espaço e à existência. A urbanidade, nesse sentido, é uma prática democrática: cada pequeno gesto de consideração ajuda a construir um ambiente onde todos possam estar.

O desafio ético do convívio

Há quem diga que a urbanidade está em crise. A pressa, o individualismo e a competição tornam difícil o exercício da gentileza. Em nome da eficiência, perdemos tempo com o desrespeito. Emmanuel Lévinas, filósofo da alteridade, diria que a verdadeira ética nasce do encontro com o rosto do outro — aquele momento em que somos interpelados por alguém que nos obriga a sair de nós mesmos. Nesse sentido, a urbanidade não é uma formalidade, mas uma resposta ética à presença do outro.

O cotidiano como campo filosófico

Ser urbano, afinal, não é apenas viver na cidade. É se responsabilizar por ela. É transformar o cotidiano em espaço de escuta, respeito e pequenas concessões. Um aceno de cabeça, ceder o assento, baixar o som — são gestos simples, mas carregados de civilização.

A urbanidade talvez seja uma das maiores virtudes públicas: discreta, silenciosa, mas absolutamente essencial. Sem ela, o convívio vira sobrevivência. Com ela, a cidade pode, quem sabe, ser um lugar onde ainda é possível respirar.

domingo, 3 de agosto de 2025

Acomismo

O mundo que se desfez de seu centro

Na correria do dia a dia, às vezes parece que tudo está acontecendo ao mesmo tempo e em nenhum lugar. A mesa do café virou escritório, o celular virou praça pública, e o que antes era sagrado, como o silêncio, virou luxo raro. A vida moderna parece viver um esvaziamento sutil, como se algo central tivesse sido removido. É aí que entra o conceito de acomismo — um estado em que o mundo já não é mais compreendido como cosmos, ou seja, como um todo ordenado, com centro, direção ou sentido.

O termo "acomismo" pode ser entendido como a ausência de cosmos, ou a perda da ideia de um mundo organizado por princípios compartilhados. O cosmos, para os gregos, era beleza, ordem e harmonia. Era o mundo visto como uma jóia que reluz com sentido. Acomismo, por contraste, é o mundo sem narrativa comum, fragmentado, onde cada um vive em sua bolha algorítmica, onde até os afetos são customizados.

O filósofo francês Michel Foucault nos ajuda a pensar essa condição quando afirma que o homem moderno é um ser "descentrado". Em suas palavras, no prefácio de As Palavras e as Coisas, ele diz que talvez o homem moderno esteja próximo de seu fim — “como uma figura desenhada na areia à beira-mar”. Para Foucault, as estruturas que sustentavam o saber e o sujeito foram implodidas. O acomismo seria, então, a vida no pós-terremoto, quando o chão já não dá mais garantias.

Na prática, vivemos o acomismo quando percebemos que não há mais autoridade comum que organize a convivência — a verdade virou questão de gosto, a política virou torcida, a ética virou marca pessoal. Em vez de compartilharmos um mundo, nos conectamos por afinidades imediatas, mas nos desencontramos no essencial. Acomismo é essa sensação de viver numa realidade que perdeu o contorno do real.

Mas há uma possibilidade nesse esvaziamento: ao percebermos o acomismo, podemos desejar reconstituir algum tipo de centro — não o antigo, hierárquico e imposto, mas um centro construído a partir do encontro, da escuta e da responsabilidade comum. Pode ser um reencantamento silencioso, uma busca modesta, talvez, por uma nova forma de cosmos — menos cósmica, mais cotidiana.

No fundo, talvez o acomismo não seja apenas a ruína, mas o intervalo em que decidimos se vamos continuar como poeira flutuando… ou se vamos, juntos, desenhar novamente a figura do mundo.


quinta-feira, 12 de junho de 2025

O Banquete

O amor não pede licença!

Este ensaio tem como base a obra O Banquete de Platão, escrita no século IV a.C., na qual diversos personagens — entre eles Sócrates, Aristófanes e Agatão — se reúnem para discursar sobre a natureza do amor (Eros). O texto, estruturado como um diálogo filosófico e literário, explora diferentes concepções de amor, desde o desejo físico até a contemplação do Belo absoluto, sendo uma das mais influentes reflexões da tradição ocidental sobre o tema.

Tem gente que acha que falar de amor é coisa de poeta meloso ou de livro de autoajuda de aeroporto. Mas basta um encontro casual no metrô, uma mensagem não respondida, ou aquele silêncio constrangedor no jantar para percebermos: o amor é uma força estranha que atravessa tudo — inclusive quem não quer papo com ele. E é justamente por essa força indomável que O Banquete, de Platão, continua a ser um texto desconcertante. Lá estão Sócrates, Aristófanes, Fedro, Agatão e companhia, cada um tentando definir o tal Eros como quem tenta agarrar vento com as mãos.

Mas talvez o maior erro de leitura seja encarar O Banquete como um tratado sobre o amor apenas entre corpos ou entre almas. O texto é também sobre outra coisa: o impulso que nos arranca do lugar em que estamos e nos faz querer o que não temos. Não importa o objeto — beleza, sabedoria, eternidade ou poder —, amar é sempre uma falta. Um furo no tecido do real. Um buraco que nem mesmo os deuses escapam de sentir.

Aristófanes, com seu mito dos andróginos partidos, aposta numa visão engraçada e melancólica: éramos inteiros, fomos divididos, e agora vagamos incompletos atrás de nossa outra metade. Uma visão romântica que ainda alimenta aplicativos de namoro, filmes da Sessão da Tarde e promessas de “alma gêmea”. Mas há algo de trágico nisso: quem garante que vamos mesmo encontrar esse pedaço perdido? E se formos condenados a desejar para sempre?

Aí entra Sócrates, com sua cara de quem sabe algo que não diz. Ele fala de uma outra forma de amor, passada para ele por Diotima: o Eros que começa no corpo, mas não para nele; que escala degrau por degrau até o amor das ideias puras, da Beleza em si. Uma pirâmide de desejo que, no topo, esquece o cheiro da pele, o calor do toque, o suor do abraço. Um amor que deixa o humano para se dissolver no divino. Bonito? Sim. Satisfatório? Nem tanto.

Aqui um em tempo para falar de Diotima: Diotima de Mantineia foi uma sacerdotisa e filósofa grega antiga, conhecida por sua influência no pensamento de Sócrates, especialmente em relação ao amor. Ela é apresentada no diálogo "Banquete" de Platão, onde Sócrates a descreve como sua mentora e ensinadora sobre o amor (Eros). 

Prosseguindo. E se O Banquete for, no fundo, uma confissão de que amar é impossível de resolver? De que não há saída justa entre o corpo e o espírito, entre o desejo que quer possuir e o ideal que quer contemplar? Talvez por isso o texto termine como termina: com Alcibíades bêbado invadindo a festa e bagunçando o jogo filosófico com sua paixão descontrolada por Sócrates. Um lembrete incômodo: a carne não deixa ninguém subir a escada de Diotima sem antes puxar pelos calcanhares.

O amor, no fundo, é uma contradição ambulante. É impulso vital e desordem. É aspiração à imortalidade e consciência dolorida da nossa finitude. Quer eternizar, mas não dura. Quer possuir, mas foge. É por isso que O Banquete segue vivo: porque não entrega uma resposta, e sim um campo de tensão onde cada leitor — como cada amante — precisa se virar.

Talvez o verdadeiro banquete do amor seja isso: um prato que nunca se esvazia, mas também nunca se saboreia por inteiro. E quem tenta dar conta dele, como Platão, Sócrates ou a gente aqui, acaba sempre saindo da mesa com fome.

O amor em tempos de scroll: Platão no século XXI

Se Platão ressuscitasse hoje e pegasse um celular na mão, talvez levasse um susto. Nunca houve tanta gente tentando amar ao mesmo tempo: Tinder, Hinge, Bumble, Instagram. E mesmo assim, nunca se falou tanto de solidão. O paradoxo platônico continua: o desejo aproxima, mas nunca sacia. Seguimos os mesmos andróginos partidos de Aristófanes, só que agora deslizando perfis com o polegar em vez de vagar pelas praças de Atenas.

O amor no trabalho? Também ali mora um Eros disfarçado. O desejo por reconhecimento, promoção, sentido. Não é à toa que tanta gente se diz "apaixonada pelo que faz" ou "casada com a carreira". Mas essa paixão também carrega o risco platônico: quanto mais desejamos esse ideal — sucesso, realização —, mais percebemos o abismo entre o real e o imaginado. A escada de Diotima existe aqui também: começamos com o salário, depois o cargo, depois o status... até que vem a dúvida: para onde tudo isso leva? Qual o Belo por trás dessa luta diária?

E a amizade? No Banquete, Fedro sugere que o amor inspira coragem nos guerreiros — talvez hoje ele diria: nas amizades reais, longe do like fácil. Porque amigo de verdade não é quem só confirma o que você posta; é quem te lembra de quem você é quando você mesmo esquece. Amar um amigo é um Eros lateral, discreto, mas essencial. Como um fio que segura a alma em dias de tempestade.

Mas o ponto mais inquietante é este: Platão talvez suspeitasse que, no fundo, o amor é um jogo que nos engana para nos manter vivos. Diotima diz: Eros não é deus, é demônio — intermediário entre o mortal e o imortal. Ou seja: o amor é ponte, não destino. Nunca paramos nele, sempre passamos por ele querendo outra coisa. Isso serve para o romance, para a arte, para o trabalho, para a política. Tudo é desejo de algo que nunca se alcança por completo.

Talvez seja essa a lição escondida no Banquete: aceitar o amor como falta, como impulso criativo que nos obriga a inventar sentido onde ele não existe pronto. Um convite à imaginação, não à satisfação.

Por isso, quem ama demais uma resposta (seja um par perfeito, um cargo ideal ou uma amizade sem falhas) corre o risco de perder o melhor da festa: o próprio banquete da procura.

E assim Platão — sem saber — já falava de nós: esses seres inquietos de 2025, com o coração cheio de abas abertas, sonhando com completude entre uma notificação e outra.

Último gole: Platão encontra Byung-Chul Han

O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han diria que vivemos hoje não a era do amor platônico, mas a do desempenho: um tempo em que até amar virou tarefa de alta performance. Vender-se bem nos aplicativos, performar felicidade no Instagram, ser desejável, interessante, produtivo — até no campo afetivo. Eros virou um coach cansativo.

Mas o amor verdadeiro, lembra Han em A Agonia do Eros, é encontro com o Outro real, não com o espelho do mesmo. Algo que rasga a bolha da autoimagem e nos põe em risco. Como Alcibíades invadindo a festa de Sócrates: bagunçando o roteiro perfeito, derrubando a taça, fazendo a filosofia tropeçar.

Talvez seja este o aviso escondido em O Banquete, atravessando os séculos: amar é perder o controle. E, quem sabe, é aí — nesse tropeço, nessa falta, nesse inacabamento — que a vida se faz de verdade.


quinta-feira, 22 de maio de 2025

O Intrínseco Temporário

Entre Natureza e Metafísica da Pessoa

Existe algo em nós que sentimos como essencial, como parte do que somos. Ainda assim, há experiências, estados e modos de ser que, embora pareçam brotar do mais íntimo de nossa identidade, desaparecem com o tempo. Chamá-los de “temporários” parece simples; o problema filosófico começa quando esses estados parecem não apenas vir de dentro, mas definir quem somos naquele momento. Como, então, reconciliar a permanência do ser com a fugacidade do vivido?

Neste ensaio, vamos pensar o “intrínseco temporário” a partir de dois pensadores distintos, mas surpreendentemente complementares: C. S. Lewis, com sua defesa de uma natureza humana objetiva e uma ordem moral transcendente; e E. J. Lowe, com sua ontologia de quatro categorias e distinção entre essência e identidade pessoal.

Lewis: a essência que clama por permanência

Em A Abolição do Homem, Lewis denuncia o colapso da objetividade moral em nome de um relativismo subjetivista. Ele defende que há algo no humano que deve ser cultivado porque pertence à nossa natureza — o que ele chama de "Tao", a lei moral universal. Para Lewis, o ser humano é uma criatura com um núcleo objetivo, que reconhece a beleza, o bem e a verdade, não por construção cultural, mas por sintonização com a ordem real do universo.

Mas e quando uma experiência passageira — um amor, uma angústia, uma crise — parece tomar o lugar desse núcleo? Lewis não negaria a profundidade das emoções, mas as colocaria sob julgamento da alma racional. O que sentimos pode parecer intrínseco, mas o que é verdadeiramente nosso é aquilo que se alinha com o eterno.

E é aí que entra o problema: se nos sentimos profundamente autênticos em algo passageiro, foi aquilo parte da nossa essência — ou uma ilusão convincente?

Lowe: identidade, essência e persistência no tempo

E. J. Lowe, por sua vez, nos oferece ferramentas mais analíticas. Em sua ontologia, ele propõe quatro categorias: substâncias, atributos, modos e universais. Uma pessoa é uma substância, dotada de atributos (como inteligência), modos (como ser introvertido num certo momento da vida), e relação com universais (como a justiça ou a coragem).

Para Lowe, a identidade pessoal não se confunde com a essência, e tampouco com os atributos passageiros. Um sujeito pode ser, num período da vida, corajoso, mas não ter a coragem como parte de sua essência. Ainda assim, naquele intervalo, a coragem se manifesta como se fosse uma verdade absoluta.

É aqui que encontramos o espaço para o “intrínseco temporário”: aquilo que, por um tempo, participa da essência, sem fazer parte dela. Uma espécie de modo existencial intenso que parece definidor, mas é apenas um episódio profundamente enraizado — como uma tatuagem que desaparece.

Intrínseco, mas não essencial

Ao unir Lewis e Lowe, podemos afirmar: o “intrínseco temporário” é um modo de ser que se aloja profundamente na identidade, mas não a define para sempre. É um estado que vem de dentro, mas não é o centro. Ele revela, mas não fixa. Como se certas experiências tivessem a capacidade de ficar essenciais por um tempo, antes de se dissolverem na continuidade do ser.

Não é que elas não tenham importância — pelo contrário, talvez sejam as que mais nos transformam. Elas atuam como pontes entre o efêmero e o eterno, entre o modo e a substância, entre o sentimento e a vocação. E podem nos preparar para compreender aquilo que, no fundo, deveria ser intrínseco e eterno.

A alma em transição

O conceito de “intrínseco temporário” pode parecer contraditório à primeira vista. Mas talvez ele seja o melhor retrato da condição humana: somos seres em formação, com breves moradas do eterno dentro do transitório.

Lewis nos lembra da necessidade de ancorar nosso ser num bem permanente. Lowe nos ajuda a ver que a identidade é complexa, feita de camadas que se revelam e se esvaem. Entre os dois, emerge a figura da alma em transição — moldada por paixões, marcada por dores, aberta ao que é maior que ela.

Ser, afinal, talvez seja isso: viver estados que parecem essenciais, apenas para descobrir, mais tarde, que nos preparavam para o que realmente é.

terça-feira, 25 de março de 2025

Concisão e Profundidade

Outro dia, numa conversa com um amigo, ele soltou uma frase curta, mas que me fez pensar o resto da noite. Nada de discursos longos, explicações detalhadas ou floreios desnecessários—apenas uma sentença precisa, carregada de significado. Fiquei ali, olhando para o copo, mastigando aquelas palavras como se fossem um enigma. E percebi que algumas pessoas têm esse dom raro: falam pouco, mas dizem muito.

Ser conciso e profundo ao mesmo tempo é uma arte que poucos dominam. Enquanto muitos enchem o ar com palavras que evaporam sem deixar rastro, outros conseguem condensar um mundo inteiro em uma única frase. Mas como isso acontece? O que torna certas palavras tão impactantes?

Concisão e Profundidade: O Peso das Palavras Bem Escolhidas

Há quem fale muito sem dizer nada e quem diga tudo em poucas palavras. Os primeiros preenchem o silêncio com ruídos, os segundos fazem do silêncio um palco para o essencial. Ser conciso e profundo é uma arte difícil: exige saber o que cortar sem mutilar o sentido, o que deixar implícito sem ser obscuro, o que revelar sem ser óbvio.

A concisão não é apenas economia verbal, mas um refinamento do pensamento. Quem domina essa habilidade não apenas reduz o excesso, mas condensa a substância. Como uma escultura que nasce do mármore bruto, a ideia lapidada se impõe pela precisão. Porém, a profundidade dá peso a essa economia. Dizer pouco sem tocar fundo é ser raso. A profundidade exige que as palavras, mesmo escassas, abram camadas de significado, como ecos que se expandem no tempo.

Nietzsche, mestre em frases lapidares, dizia que um bom pensamento deve ser como um raio: ilumina de repente e queima ao mesmo tempo. Assim, o impacto da concisão e profundidade se dá porque provoca, inquieta, obriga o interlocutor a continuar o pensamento por conta própria. Talvez por isso, sentenças curtas, quando bem formuladas, ficam na memória por uma vida inteira.

No fundo, ser conciso e profundo é respeitar o tempo do outro, oferecendo o máximo no mínimo, sem pressa e sem desperdício. É o gesto de quem não fala para preencher o vazio, mas para abrir um espaço de reflexão.


terça-feira, 28 de janeiro de 2025

Inerentemente Inencontrável

A vida tem uma forma curiosa de nos apresentar perguntas que não queremos ou sabemos como responder. É como procurar um par de meias no escuro – você sente que está perto, mas, ao esticar a mão, descobre que é apenas um par de luvas. Recentemente, me peguei pensando no que, afinal, é "inerentemente inencontrável." Algo que, por sua própria natureza, não pode ser encontrado. Será que falamos de um objeto, um estado de espírito, ou até mesmo de nós mesmos?

A busca pelo inalcançável

Na filosofia, a ideia de algo que não pode ser encontrado é um tema recorrente. Para Platão, o "Bem" – aquela perfeição ideal – é algo inalcançável pelos sentidos. Mesmo que nos esforcemos, só podemos captá-lo de maneira parcial. Já no existencialismo, figuras como Sartre destacam que, na nossa busca por sentido, criamos um "eu" idealizado, mas que nunca seremos de fato. Somos eternamente projetados para algo além de nós, mas nunca o alcançamos.

Essa sensação de estar sempre buscando algo que não pode ser encontrado é palpável no cotidiano. Pense no conceito de felicidade. Ela não é uma coisa que se pega e guarda no bolso. É mais como um horizonte: conforme nos aproximamos, ele se move, e lá vamos nós outra vez.

O paradoxo do encontro

O inerentemente inencontrável carrega um paradoxo interessante: ele só é valioso porque não pode ser encontrado. Imagine se houvesse um mapa definitivo para a "felicidade" ou a "plenitude". Seguiríamos as instruções, alcançaríamos o destino e, de repente, perderíamos o que dava sabor à busca. Como dizia o filósofo Checo-brasileiro Vilém Flusser, a vida é feita de interrogações, e não de respostas prontas. O sentido da existência está no movimento, não no ponto final.

No entanto, o que torna algo inencontrável não é necessariamente sua complexidade, mas o fato de que talvez estejamos procurando no lugar errado. Assim como o mito da caverna de Platão sugere que vivemos em um mundo de sombras, podemos estar buscando a verdade ou nós mesmos em reflexos distorcidos da realidade.

Quando a busca é o próprio encontro

A ideia do "inerentemente inencontrável" também pode ser vista de uma forma mais poética. N. Sri Ram, um pensador da tradição teosófica, afirma que a essência da vida não é algo que podemos captar plenamente com a mente, mas algo que sentimos em momentos de profundo silêncio interior. Ele argumenta que a busca em si transforma o buscador; o que parece inencontrável não é algo para ser "achado," mas algo que nos acha, quando estamos prontos.

No dia a dia, isso aparece em situações simples: aquela resposta que surge do nada enquanto lavamos a louça ou um entendimento profundo que floresce após anos de confusão. O que antes parecia inalcançável se revela quando paramos de procurar desesperadamente e apenas vivemos.

O inerentemente inencontrável não é um erro do universo, mas uma parte essencial de sua estrutura. Ele nos lembra que a vida não é sobre respostas, mas sobre as perguntas que nos movem. É a busca que nos dá significado, não o destino. Então, talvez o que devemos fazer não é buscar desesperadamente encontrar algo, mas nos abrir para sermos encontrados – pela verdade, pelo momento ou por nós mesmos. Afinal, o que é a vida senão um jogo de esconde-esconde com o infinito?


quinta-feira, 23 de janeiro de 2025

Eu, aparente

Outro dia, passando em frente a uma vitrine, vi meu reflexo e parei por um instante. Não para admirar ou criticar, mas porque a imagem parecia ser de outra pessoa. Algo no jeito que eu estava vestido, na expressão que fazia, não parecia ser exatamente "eu". Já aconteceu com você? Esse pequeno momento de estranhamento me levou a pensar: quanto de quem somos é apenas aparência, uma performance para o mundo, e quanto é a essência que carregamos?

Vivemos em uma era onde o "aparente" se sobrepõe ao "ser". Redes sociais nos convidam a moldar a identidade de acordo com o que é mais atraente, mais "curtível", mais aceito. O perfil online, cuidadosamente editado, é o que muitos enxergam antes mesmo de nos conhecerem. Mas será que somos apenas máscaras? Ou há algo no fundo que, mesmo que tente se esconder, sempre escapa para a superfície?

A máscara que usamos

O filósofo francês Jean-Paul Sartre argumentava que o ser humano está condenado a ser livre, ou seja, a escolher quem é, mesmo quando isso significa se esconder atrás de uma aparência. Para ele, a existência precede a essência; primeiro somos, depois escolhemos quem queremos ser. Mas, nesse processo de escolha, criamos máscaras, muitas vezes por medo do julgamento ou para atender às expectativas do outro.

Imagine o ambiente de trabalho. Lá, somos profissionais impecáveis, confiantes, usando termos técnicos e sorrisos de conveniência. Em casa, talvez sejamos descontraídos, risonhos ou até vulneráveis. Já na rua, entre desconhecidos, o rosto é neutro, quase indiferente. Três "eus", três aparências diferentes. Mas qual deles é o real?

O que transborda do aparente

No entanto, nem sempre conseguimos controlar a narrativa que construímos. Há momentos em que algo mais profundo escapa. É aquele olhar de cansaço no meio de uma festa, a pausa longa demais numa conversa, ou mesmo o silêncio em situações onde se esperava uma palavra. Isso que transborda do aparente é o que revela a nossa essência, ainda que de forma fragmentada.

O filósofo alemão Martin Heidegger falava sobre a autenticidade como uma forma de enfrentar o mundo sem máscaras, encarando a nossa existência de frente, sem tentar fugir dela. Para ele, viver de forma autêntica é abandonar a necessidade de parecer algo para os outros e abraçar o fato de que somos seres em constante construção.

Aparência e essência no cotidiano

Voltemos ao reflexo na vitrine. Quantas vezes já nos olhamos no espelho e não reconhecemos quem somos? Talvez seja porque, no fundo, estamos em constante mudança. A roupa que escolhemos hoje, a forma como penteamos o cabelo, tudo comunica algo, mas é apenas uma camada. É como um teatro onde somos atores e diretores ao mesmo tempo, ajustando o figurino conforme a cena.

No entanto, a essência não desaparece. Ela se manifesta em pequenos gestos: na maneira como tratamos quem não pode nos oferecer nada em troca, na paciência que mostramos em dias difíceis, no sorriso que damos mesmo quando ninguém está olhando.

Entre o ser e o parecer

No fim das contas, talvez não haja como separar completamente o aparente do essencial. Somos, ao mesmo tempo, aquilo que mostramos e aquilo que escondemos. Como disse Clarice Lispector: “Não se preocupe em entender. Viver ultrapassa qualquer entendimento.”

Talvez a chave seja reconhecer que, mesmo na aparência, há vestígios de quem realmente somos. E, às vezes, esses vestígios podem dizer mais do que qualquer essência escondida. Afinal, não somos apenas um reflexo na vitrine; somos a história por trás dele.


segunda-feira, 23 de setembro de 2024

Essencial da História

Enquanto olhava distraidamente pela janela, me peguei pensando no que seria contar a história do Brasil de forma bem simples, quase como se fosse uma conversa casual sobre o que já rolou por aqui. Então peguei um livro de História do Brasil e comecei a olhar o índice e tentar montar um roteiro na cabeça, não é fácil, afinal são quinhentos anos. É engraçado como, às vezes, a gente olha para trás e tudo parece tão distante, mas também tão presente. E foi assim que me veio à mente essa sequência de acontecimentos que moldaram o país em que vivemos hoje.

Vamos pensar que tudo começa em 1500(?), quando Pedro Álvares Cabral e sua tripulação chegaram por acaso(?) nas praias do que eles nem imaginavam ser o Brasil. Eles estavam em busca de rotas comerciais, mas acabaram encontrando terras habitadas por povos indígenas, que já viviam aqui há séculos, com uma cultura própria, cheia de rituais, modos de vida, e um respeito pela natureza que os europeus não entendiam muito bem. Mas, claro, o interesse dos portugueses não era aprender com os indígenas, e sim explorar as riquezas do lugar. O pau-brasil, com sua madeira valiosa, foi só o começo de uma longa história de extração e exploração.

A colonização portuguesa, que durou mais de 300 anos, foi marcada pela exploração de tudo que se podia tirar dessas terras: primeiro, o pau-brasil, depois a cana-de-açúcar e, por fim, o ouro e os diamantes. E, para garantir essa produção toda, os portugueses se apoiaram na escravidão. Primeiro, tentaram escravizar os indígenas, mas quando isso não deu certo, trouxeram milhões de africanos para cá. O trabalho escravo sustentou a economia da colônia por séculos, e as consequências disso são sentidas até hoje, com uma sociedade profundamente desigual.

Em 1822, o Brasil finalmente se tornou independente. Dom Pedro I, filho do rei de Portugal, decidiu que seria mais conveniente para ele mandar por aqui do que voltar para a Europa. A famosa frase "Independência ou morte" marca o começo de um Brasil oficialmente separado de Portugal, mas as estruturas de poder e riqueza continuaram as mesmas. A elite branca, dona de terras, ainda mandava no país, e a escravidão só seria abolida 66 anos depois, em 1888, com a assinatura da Lei Áurea pela princesa Isabel. Mas a abolição, infelizmente, não trouxe as mudanças que os ex-escravizados precisavam – eles foram deixados sem terras, sem educação, e sem o apoio necessário para construir uma nova vida.

O século XX trouxe uma nova onda de transformações. Logo no início, o Brasil ainda era um país agrário, baseado no café, mas começava a se industrializar. As oligarquias do café dominaram a política até a Revolução de 1930, que colocou Getúlio Vargas no poder e mudou bastante coisa. Getúlio trouxe algumas ideias de modernização, criou leis trabalhistas e deu um empurrão para a industrialização, mas também era autoritário. Depois de sua era, o Brasil entrou num período de instabilidade, que culminou no golpe militar de 1964.

Durante a ditadura militar, o Brasil viveu sob repressão por 21 anos. A censura, a tortura, e a supressão das liberdades marcaram essa época, mas também foi nesse período que o país se modernizou ainda mais economicamente, com grandes obras de infraestrutura. O custo social e político, no entanto, foi imenso. Em 1985, a ditadura finalmente chegou ao fim, e o Brasil voltou a respirar ares democráticos com a promulgação de uma nova Constituição em 1988.

Desde então, o Brasil tem vivido entre altos e baixos. Passamos por momentos de crescimento econômico e por crises políticas graves, como o impeachment de presidentes e escândalos de corrupção que sacudiram as bases da nossa jovem democracia. Mas, ao mesmo tempo, o Brasil floresceu como um país culturalmente rico, cheio de diversidade, música, culinária, e modos de ser que encantam o mundo. Hoje, o desafio é lidar com os velhos problemas de desigualdade, injustiça social e corrupção, mas com os olhos no futuro, tentando construir um país mais justo e inclusivo.

E é assim que de maneira muito resumida, olhando para trás, parece que cada pedaço dessa história, por mais doloroso ou difícil que tenha sido, ajudou a formar o Brasil do jeito que ele é: cheio de contradições, mas também de uma vitalidade imensa. A história continua, e a cada dia a gente vai escrevendo o próximo capítulo – quem sabe com um pouco mais de consciência do que ficou para trás. 

quarta-feira, 28 de agosto de 2024

Reminiscências do Essencial

Já reparou como, ao relembrar de um momento importante da sua vida, certos detalhes se destacam enquanto outros se dissipam na neblina da memória? Imagine uma tarde de verão, com amigos, no parque. Pode ser que você não lembre do que vestia ou do que comeu, mas a risada que ecoou naquelas horas fica gravada. Isso não é por acaso. Nossa memória essencial funciona como um destilador, retirando o extrato daquilo que realmente importa numa experiência.

No dia a dia, essa seleção natural da memória nos guia. Pense na rotina do trabalho. Entre uma reunião e outra, uma frase dita por um colega ou uma ideia que surgiu em meio ao caos podem se tornar as verdadeiras estrelas do dia. É como se, de tudo o que vivemos, nosso cérebro criasse um resumo, destacando aquilo que tem mais valor emocional ou intelectual. O resto? Fica de lado, pois o espaço mental é precioso.

Henri Bergson, um filósofo que se debruçou sobre a natureza do tempo e da memória, nos oferece uma reflexão interessante. Para ele, a memória não é uma simples reprodução do passado, mas sim uma recriação, onde o essencial ganha protagonismo. Bergson sugere que aquilo que retemos na memória é aquilo que, de alguma forma, ainda vive em nós, moldando nosso presente.

Esse processo seletivo é crucial para a forma como interpretamos nossas vidas. Por exemplo, um encontro ruim com um amigo pode ser lembrado não pelo desconforto do momento, mas pela lição aprendida. Dessa forma, a memória essencial nos ajuda a criar uma narrativa coerente sobre quem somos e sobre o que realmente importa para nós.

Nas pequenas coisas, como o aroma do café pela manhã ou a brisa fresca ao final do dia, nossa memória também atua, destacando os momentos que, mesmo simples, trazem um sentido de conexão e bem-estar. Esse filtro não só nos permite carregar o que é significativo, mas também nos protege do peso de lembranças desnecessárias.

Lembre-se daquela música que você não ouvia há anos, mas que, ao tocar, te transporta imediatamente para uma época específica da sua vida. Isso não é apenas memória; é reminiscência. A reminiscência é aquele ato de reviver momentos que, de alguma forma, deixaram marcas profundas na nossa essência.

No dia a dia, vivemos uma série de experiências, mas nem todas se tornam lembranças vívidas. Algumas ficam guardadas em camadas mais profundas da nossa mente, esperando para serem evocadas por um som, um cheiro, ou até uma sensação. Quando isso acontece, não estamos apenas recordando um fato; estamos revivendo uma emoção, um pedaço de quem éramos naquele momento. Essa diferença é sutil, mas poderosa. Enquanto a memória essencial destila o que importa, a reminiscência nos conecta de volta a essas essências, trazendo à tona sentimentos que pensávamos ter esquecido.

Henri Bergson, que falava da memória como uma recriação do passado, também nos ajuda a entender a reminiscência. Para ele, o ato de lembrar é uma forma de viver novamente, mas com a consciência do presente. Quando uma reminiscência surge, ela não é apenas um eco distante; é como se ela trouxesse consigo o próprio tempo, fazendo-nos sentir o peso daquele momento na nossa vida atual.

Pense em situações cotidianas: ao reencontrar um amigo de infância, você pode não apenas lembrar das brincadeiras, mas sentir a mesma alegria infantil que vivia naquela época. Ou, ao revisitar um lugar especial, você não apenas o reconhece, mas é invadido por uma sensação familiar, como se parte de você nunca tivesse deixado aquele lugar.

A reminiscência, então, é uma ponte entre a nossa memória essencial e o nosso presente. Ela não só reforça o que é importante, mas reativa essas experiências em nós, permitindo que vivamos um pouco do passado novamente, mas sob a luz do que somos hoje. É como se, ao recordar, estivéssemos não apenas acessando uma lembrança, mas dando nova vida a ela.

No fim, a essência da experiência não está apenas em recordar, mas em como essas recordações nos transformam, moldam nossas emoções e enriquecem nosso presente. E a reminiscência é a ferramenta que nos permite mergulhar nesse oceano de memórias, retirando de lá o que é mais valioso para nos guiar no agora.

A essência da experiência não está na quantidade de momentos vividos, mas na qualidade do que guardamos. E, nesse jogo de lembranças e esquecimentos, somos artesãos de nossas próprias histórias, sempre em busca do que realmente importa. Como Bergson nos lembraria, o que escolhemos lembrar é o que, no fundo, nos define. 

sábado, 17 de agosto de 2024

Memória Social Coletiva

Sabe aquelas histórias que a gente ouve repetidas vezes na mesa do almoço em família, ou as tradições que fazem parte da rotina da cidade onde moramos? Muitas vezes, elas parecem tão naturais que a gente nem para para pensar no valor que têm. Foi refletindo sobre isso que me veio a ideia de escrever sobre a importância social da memória coletiva, um tema que Maurice Halbwachs explorou com profundidade. Afinal, essas memórias que compartilhamos e revivemos no dia a dia ajudam a construir quem somos e o modo como nos conectamos com os outros. Vamos explorar juntos por que essas lembranças coletivas são tão fundamentais para nossa identidade e para o tecido social que nos une?

A memória coletiva, segundo Maurice Halbwachs, não é apenas uma soma de memórias individuais; é uma construção social que nos conecta a um passado comum e molda nossas identidades. Halbwachs argumenta que nossas lembranças são influenciadas pelo grupo ao qual pertencemos, seja a família, amigos, ou a sociedade em geral. Em outras palavras, o que lembramos e como lembramos é muitas vezes determinado pelo ambiente social em que vivemos.

Pense em uma reunião de família, onde todos se reúnem em volta da mesa para um almoço de domingo. Durante a conversa, é comum que alguém relembre histórias antigas, como as férias passadas na casa dos avós ou aquela vez em que todos se juntaram para ajudar em uma grande mudança. Essas memórias, compartilhadas e recontadas diversas vezes, tornam-se parte da identidade da família, um fio que une as gerações. Mesmo quem não vivenciou diretamente aqueles momentos, como os netos que não conheceram os avós, passam a sentir que fazem parte daquela história. É a memória coletiva em ação, preservando e transmitindo valores, tradições e uma noção de pertencimento.

No ambiente de trabalho, a memória coletiva também desempenha um papel crucial. Imagine um escritório onde a cultura organizacional é passada de geração em geração de funcionários. As histórias de sucesso, os desafios superados, e até mesmo os erros cometidos e lições aprendidas, formam uma base para o comportamento e as expectativas dentro daquele espaço. Quando um novo funcionário chega, ele não apenas aprende as tarefas do seu cargo, mas também é integrado nessa memória coletiva, absorvendo a maneira como a equipe trabalha e se relaciona. Isso cria uma coesão e um entendimento compartilhado que vai além das regras escritas.

Até na vida cotidiana, em nossas interações diárias, a memória coletiva tem sua importância. Considere as tradições de uma cidade pequena, onde festas anuais, como o carnaval ou a festa junina, são eventos aguardados por todos. Esses eventos não são apenas celebrações; eles são momentos em que a comunidade se reconecta com sua história e suas raízes. A maneira como as festas são organizadas, as músicas tocadas, as comidas preparadas, tudo faz parte de uma memória coletiva que fortalece os laços entre os moradores e reafirma sua identidade cultural.

Maurice Halbwachs nos lembra que a memória coletiva não é estática; ela é continuamente recriada e reinterpretada à luz do presente. Quando uma sociedade enfrenta uma crise, por exemplo, ela pode revisitar e reavaliar suas memórias coletivas, buscando nelas forças para enfrentar o novo desafio. Assim, a memória coletiva não é apenas um olhar para o passado, mas também uma ferramenta para construir o futuro.

Valorizar e preservar a memória coletiva é essencial, não apenas para manter viva a nossa história, mas também para garantir a continuidade de nossa identidade social. É por meio dela que nos conectamos uns aos outros, compreendemos nosso lugar no mundo e nos inspiramos a seguir em frente, sabendo que somos parte de algo maior.