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domingo, 21 de setembro de 2025

Amarras Invisíveis

Sobre as Obrigações Sociais

Tem dia que a gente só queria poder dizer “não”. Não ir ao almoço de domingo. Não responder a mensagem do grupo da família. Não sorrir no elevador. Mas alguma força invisível nos empurra, como um roteiro já escrito. E quando perguntamos "por que estou fazendo isso?", a resposta, quase sempre, é: “porque é o certo”. Certo para quem?

As obrigações sociais são como trilhos que nos guiam antes mesmo de decidirmos o destino. Somos ensinados, desde pequenos, a agradecer presentes ruins, a visitar quem não queremos ver, a manter a aparência de harmonia mesmo em meio ao caos. A isso chamamos civilidade. Mas será que ela não é, muitas vezes, o verniz da submissão?

Norbert Elias, em O Processo Civilizador, mostra como a sociedade criou formas de controle que moldam os corpos e os gestos, mas também os sentimentos. O autocontrole, que parece virtude pessoal, é, na verdade, uma exigência social incorporada. Controlamos nossos impulsos não apenas por moral, mas porque há uma rede de vigilância social – olhares, convenções, punições simbólicas – que nos obriga a isso.

Émile Durkheim via as obrigações sociais como fatos sociais: estruturas que existem fora do indivíduo e exercem uma coerção sobre ele. Mesmo que não queiramos participar de certos rituais, como aniversários ou velórios, o peso da expectativa coletiva nos empurra. E, ao obedecer, reforçamos o próprio sistema que nos prende.

Mas há também quem enxergue nas obrigações sociais um espaço de transformação. Simone de Beauvoir argumenta que é pela relação com o outro que construímos nossa liberdade. Escolher, conscientemente, estar com os outros, pode ser um ato ético e não só conformista. A obrigação, quando voluntária, se torna responsabilidade.

A novidade talvez esteja em repensar o verbo obedecer. Nem sempre precisamos romper com tudo, mas podemos ao menos interrogar cada gesto: por que estou cumprindo esta expectativa? A quem ela serve? Quem sou eu por trás do papel que desempenho?

No fim, talvez seja possível redesenhar nossas obrigações, tornando-as mais verdadeiras. Porque há dias em que dizer “não” também é um ato de amor — amor próprio e, por consequência, amor ao outro, livre de máscaras.