Sobre as Obrigações Sociais
Tem
dia que a gente só queria poder dizer “não”. Não ir ao almoço de domingo. Não
responder a mensagem do grupo da família. Não sorrir no elevador. Mas alguma
força invisível nos empurra, como um roteiro já escrito. E quando perguntamos
"por que estou fazendo isso?", a resposta, quase sempre, é: “porque é
o certo”. Certo para quem?
As
obrigações sociais são como trilhos que nos guiam antes mesmo de decidirmos o
destino. Somos ensinados, desde pequenos, a agradecer presentes ruins, a
visitar quem não queremos ver, a manter a aparência de harmonia mesmo em meio
ao caos. A isso chamamos civilidade. Mas será que ela não é, muitas
vezes, o verniz da submissão?
Norbert
Elias, em O Processo Civilizador, mostra como a
sociedade criou formas de controle que moldam os corpos e os gestos, mas também
os sentimentos. O autocontrole, que parece virtude pessoal, é, na verdade, uma
exigência social incorporada. Controlamos nossos impulsos não apenas por moral,
mas porque há uma rede de vigilância social – olhares, convenções, punições
simbólicas – que nos obriga a isso.
Já
Émile Durkheim via as obrigações sociais como fatos sociais: estruturas
que existem fora do indivíduo e exercem uma coerção sobre ele. Mesmo que não
queiramos participar de certos rituais, como aniversários ou velórios, o peso
da expectativa coletiva nos empurra. E, ao obedecer, reforçamos o próprio
sistema que nos prende.
Mas
há também quem enxergue nas obrigações sociais um espaço de transformação.
Simone de Beauvoir argumenta que é pela relação com o outro que construímos
nossa liberdade. Escolher, conscientemente, estar com os outros, pode ser um
ato ético e não só conformista. A obrigação, quando voluntária, se torna
responsabilidade.
A
novidade talvez esteja em repensar o verbo obedecer. Nem sempre
precisamos romper com tudo, mas podemos ao menos interrogar cada gesto: por que
estou cumprindo esta expectativa? A quem ela serve? Quem sou eu por trás do
papel que desempenho?
No
fim, talvez seja possível redesenhar nossas obrigações, tornando-as mais
verdadeiras. Porque há dias em que dizer “não” também é um ato de amor — amor
próprio e, por consequência, amor ao outro, livre de máscaras.
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