Existe uma antiga figueira no pátio
de uma pequena casa amarela, cujas raízes se entrelaçam com os segredos mais
profundos da terra, é uma figueira centenária, ela foi testemunha da dor e
sofrimento de muitos seres humanos escravizados e maltratados, também foi
testemunha da alegria de famílias que viveram e ainda vivem sob sua sombra e
proteção, o tempo passou e as marcas do tempo que flui ficaram, ainda majestosa
a bela senhora permanece até hoje serena e firme. Seus galhos se estendem em
todas as direções, criando uma imponente e acolhedora sombra. As folhas da
figueira são como pequenas mensageiras do divino, contando histórias de uma
conexão mais profunda entre os mundos, histórias que afagam nosso coração e
outras que nos lembram da tristeza de tempos que gostaríamos que não tivesse
existido.
Durante as noites escuras e
silenciosas, quando o brilho da lua iluminava timidamente o horizonte, os
escravos se reuniam sob a figueira. Ali, compartilhavam histórias de suas
jornadas difíceis, de seus sonhos de liberdade e de um futuro onde todos
poderiam viver em igualdade. A figueira tornou-se o símbolo de sua resistência
e a força que os unia na luta pela liberdade.
Cada folha, cada ramo e cada
raiz da figueira pareciam carregar a história daqueles que buscavam a
libertação. A árvore era como uma testemunha silenciosa de suas lutas, uma
presença eterna que ecoava sua determinação e coragem. As folhas eram os
sussurros daqueles que ousaram sonhar com um mundo melhor, um mundo onde todos
fossem livres e felizes.
Com o passar do tempo as pessoas
daquela comunidade viam a figueira como uma velha senhora testemunha de muitas
histórias de vida, veneravam a figueira como sagrada. Diziam que suas folhas
eram portadoras de ensinamentos antigos, transmitindo a sabedoria dos tempos
primordiais. Em noites calmas, sob o brilho da lua, quando podiam e era
permitido os negros sábios do local se reuniam ao redor da figueira para ouvir
os sussurros do vento que agitavam suas folhas, entoavam seus cânticos e
procuravam lembrar das figueiras de sua terra.
Muitas décadas após momentos tão
difíceis vividos por nossos irmãos, certa noite, uma jovem senhora chamada Ória
sentiu uma atração irresistível pela figueira. Com o coração cheio de
curiosidade e desejo de sabedoria, ela se aproximou da árvore majestosa.
Sentou-se sob sua sombra e, com olhos fechados, deixou-se levar pela suave
melodia da brisa que fazia as folhas da figueira dançarem.
As folhas começaram a sussurrar
histórias de vida e renovação. Contaram sobre os ciclos da natureza, das folhas
que nascem, florescem, envelhecem e, por fim, se soltam da árvore para se
fundirem novamente com a terra. Era uma lição de aceitação e fluidez, lembrando Ória que a vida é uma constante transformação.
Em seguida, as folhas murmuraram
sobre a interconexão de todas as coisas. Elas explicaram que, assim como cada
folha contribui para a vitalidade da árvore, cada indivíduo contribui para o
equilíbrio e harmonia do universo. Nesse momento, Ória sentiu uma profunda paz
interior, compreendendo sua ligação com tudo o que a rodeava.
As folhas também compartilharam
ensinamentos sobre gratidão. Elas expressaram a gratidão por receber a luz do
sol, as gotas de chuva e os nutrientes da terra. Essa gratidão, explicaram,
mantinha a árvore saudável e florescente. Ória refletiu sobre como a gratidão
poderia ser uma força transformadora em sua própria vida.
Ao amanhecer, Ória se levantou
revigorada, com o coração cheio de inspiração e sabedoria. Ela compreendeu que
as folhas da figueira eram mensageiras de uma verdade universal, um lembrete de
que, assim como as folhas, estamos todos interligados, em constante mudança e
devemos praticar a gratidão em nossas jornadas.
A partir desse dia, Ória passou
a viver sua vida com uma nova perspectiva, honrando a sabedoria das folhas da
figueira e compartilhando sua luz e conhecimento com todos que cruzavam seu
caminho. A figueira, com suas folhas espirituais, tinha guiado mais uma alma em
sua jornada em direção à iluminação e à compreensão do universo.
Ória não foi a única a sentir a
inexplicável atração pela figueira. Um após o outro, moradores da vila eram
irresistivelmente atraídos pelo poder magnético da árvore. Cada um tinha sua
própria jornada interior, suas questões e anseios. Mas todos buscavam
respostas, conforto e iluminação.
Eu e minha família fomos viver na
década de 70 na casinha amarela sob a bênção da figueira. A figueira para nós não
era apenas uma árvore, era uma presença espiritual que nos guiava em nossas jornadas
individuais, recordo que todos éramos parte de um todo maior, uma teia de vida
intrincada que se estendia além do que os olhos podiam ver. E assim, a figueira
continua a tocar almas e a transformar vidas, oferecendo suas lições de amor e
sabedoria a todos que a buscavam, em minha lembrança penso em minha mãe que se
chamava Ória, era uma médium formidável nos falava sobre as energias antigas
que existiam naquele ambiente da figueira onde estava a casinha amarela, nos
ensinou a respeitar a história do lugar e nos contou algumas histórias de quem
tinha vivido ali.
A casa amarela não existe mais, mas a figueira permanece firme, com sua idade e
sabedoria, continua a oferecer sombra e inspiração a todos, lembrando de que,
sob sua copa, haviam e haverão de encontrar não apenas abrigo físico, mas também a força
para enfrentar desafios e lutar por um futuro mais igualitário e justo. Era e é um
testemunho vivo de que a liberdade e a esperança sempre podem crescer, mesmo
nas situações mais sombrias que todos nós vivemos.