O “segundo melhor” que virou eterno
Às
vezes, a gente se cobra demais por não ser o melhor em tudo. Queremos ser
destaque no trabalho, no estudo, nas relações, e esquecemos que viver não é
olimpíada. Eratóstenes, o sábio da Antiguidade, já sabia disso. Chamavam-no de
“Beta” — nunca o número um em nada, apenas o segundo. Mas, curiosamente, foi
esse “segundo lugar” que o transformou em eterno.
Eratóstenes
de Cirene (276 a.C. – 194 a.C.) foi um dos grandes sábios da
Grécia Antiga, matemático, geógrafo, astrônomo, poeta e até mesmo
bibliotecário-chefe da famosa Biblioteca de Alexandria. Ele tinha uma
característica curiosa: não era visto como o “melhor” em nenhuma área, mas era
excelente em muitas, a ponto de receber o apelido de “pentatleta da
sabedoria”.
No
cotidiano, isso aparece quando uma pessoa não é a melhor cozinheira da família,
mas é aquela que inventa receitas novas; não é o craque do time, mas é quem
organiza a pelada; não é o chefe da empresa, mas é quem guarda as ideias que
depois viram solução. Eratóstenes era assim: nunca o campeão em uma disciplina,
mas a cola que ligava matemática, astronomia, geografia e poesia.
O
gesto que mais o imortalizou foi olhar para uma sombra e ver o mundo inteiro.
Enquanto muitos viam só o sol batendo no chão, ele percebeu um cálculo
escondido ali: mediu a circunferência da Terra com um erro mínimo, e tudo isso
sem satélites, sem computadores, apenas com atenção e raciocínio. É como quando
alguém, no meio de uma conversa banal, saca uma verdade sobre a vida que
ninguém tinha notado.
Alguns
feitos marcantes dele:
- Medição da circunferência da Terra:
Usando
apenas um gnômon (espécie de estaca para medir sombra), observações do sol em
Siena (atual Assuã, Egito) e em Alexandria, e cálculos geométricos simples, ele
conseguiu estimar o perímetro da Terra com um erro de apenas 1 a 2% em relação
ao valor real. Um feito impressionante para mais de dois mil anos atrás.
- Criação do “Crivo de Eratóstenes”:
- Um método engenhoso para encontrar
números primos, que ainda hoje é ensinado em matemática básica. A ideia é
riscar sucessivamente os múltiplos de cada número natural, sobrando apenas
os primos.
- Geografia:
Foi
ele quem cunhou o termo “geografia” e organizou o conhecimento cartográfico
da época, desenhando mapas mais sistematizados do mundo conhecido.
- Biblioteca de Alexandria:
Como
bibliotecário-chefe, coordenou um trabalho monumental de coleta e organização
do saber escrito disponível.
A
filósofa brasileira Marilena Chauí diz que “a filosofia nasce do espanto
diante do mundo”. Eratóstenes encarnou isso: espantou-se com um detalhe simples
— a diferença de sombra entre duas cidades — e, dali, extraiu uma visão global.
Talvez
o que sua vida nos sugira é que não precisamos ser os melhores em nada para
sermos fundamentais. O mundo precisa de quem costura saberes, quem liga pontos
distantes, quem não se contenta com o óbvio. Se Eratóstenes tivesse buscado ser
apenas o número um em matemática ou em poesia, talvez tivesse sido esquecido
como tantos outros. Mas por ser “Beta”, por ser múltiplo, por ser curioso, ele
se tornou infinito.