Pesquisar este blog

quinta-feira, 28 de agosto de 2025

Eratóstenes

O “segundo melhor” que virou eterno

Às vezes, a gente se cobra demais por não ser o melhor em tudo. Queremos ser destaque no trabalho, no estudo, nas relações, e esquecemos que viver não é olimpíada. Eratóstenes, o sábio da Antiguidade, já sabia disso. Chamavam-no de “Beta” — nunca o número um em nada, apenas o segundo. Mas, curiosamente, foi esse “segundo lugar” que o transformou em eterno.

Eratóstenes de Cirene (276 a.C. – 194 a.C.) foi um dos grandes sábios da Grécia Antiga, matemático, geógrafo, astrônomo, poeta e até mesmo bibliotecário-chefe da famosa Biblioteca de Alexandria. Ele tinha uma característica curiosa: não era visto como o “melhor” em nenhuma área, mas era excelente em muitas, a ponto de receber o apelido de “pentatleta da sabedoria”.

No cotidiano, isso aparece quando uma pessoa não é a melhor cozinheira da família, mas é aquela que inventa receitas novas; não é o craque do time, mas é quem organiza a pelada; não é o chefe da empresa, mas é quem guarda as ideias que depois viram solução. Eratóstenes era assim: nunca o campeão em uma disciplina, mas a cola que ligava matemática, astronomia, geografia e poesia.

O gesto que mais o imortalizou foi olhar para uma sombra e ver o mundo inteiro. Enquanto muitos viam só o sol batendo no chão, ele percebeu um cálculo escondido ali: mediu a circunferência da Terra com um erro mínimo, e tudo isso sem satélites, sem computadores, apenas com atenção e raciocínio. É como quando alguém, no meio de uma conversa banal, saca uma verdade sobre a vida que ninguém tinha notado.

Alguns feitos marcantes dele:

  • Medição da circunferência da Terra:

Usando apenas um gnômon (espécie de estaca para medir sombra), observações do sol em Siena (atual Assuã, Egito) e em Alexandria, e cálculos geométricos simples, ele conseguiu estimar o perímetro da Terra com um erro de apenas 1 a 2% em relação ao valor real. Um feito impressionante para mais de dois mil anos atrás.

  • Criação do “Crivo de Eratóstenes”:
  • Um método engenhoso para encontrar números primos, que ainda hoje é ensinado em matemática básica. A ideia é riscar sucessivamente os múltiplos de cada número natural, sobrando apenas os primos.
  • Geografia:

Foi ele quem cunhou o termo “geografia” e organizou o conhecimento cartográfico da época, desenhando mapas mais sistematizados do mundo conhecido.

  • Biblioteca de Alexandria:

Como bibliotecário-chefe, coordenou um trabalho monumental de coleta e organização do saber escrito disponível.

A filósofa brasileira Marilena Chauí diz que “a filosofia nasce do espanto diante do mundo”. Eratóstenes encarnou isso: espantou-se com um detalhe simples — a diferença de sombra entre duas cidades — e, dali, extraiu uma visão global.

Talvez o que sua vida nos sugira é que não precisamos ser os melhores em nada para sermos fundamentais. O mundo precisa de quem costura saberes, quem liga pontos distantes, quem não se contenta com o óbvio. Se Eratóstenes tivesse buscado ser apenas o número um em matemática ou em poesia, talvez tivesse sido esquecido como tantos outros. Mas por ser “Beta”, por ser múltiplo, por ser curioso, ele se tornou infinito.


Nenhum comentário:

Postar um comentário