A Prisão do Certeiro
Há
pessoas que caminham pela vida com certezas de ferro. Suas opiniões não mudam,
suas ideias parecem eternas, e qualquer questionamento soa como ofensa pessoal.
São as chamadas convicções estanques, aquelas que não se deixam
atravessar pelo tempo, nem pela experiência, nem pelo diálogo. À primeira
vista, parecem força e segurança; mas, vistas mais de perto, revelam uma
rigidez que se confunde com fragilidade.
No
cotidiano, encontramos esse fenômeno a todo instante. O colega de trabalho que
repete, há anos, as mesmas fórmulas “infalíveis”, mesmo quando o contexto
mudou. O vizinho que insiste que “sempre foi assim” para justificar tradições
que já não fazem sentido. Ou ainda a pessoa que, em um debate, não ouve o
argumento do outro, porque não procura aprender — apenas confirmar o que já
pensa. A convicção estanque é como uma parede: sólida, mas incapaz de deixar
passar o ar.
A
filósofa brasileira Marilena Chaui lembra que a filosofia nasce do
espanto e da dúvida. Nesse sentido, convicções que não se movem são o oposto do
exercício filosófico: elas fecham o horizonte em vez de abri-lo. Para ela, a
democracia, por exemplo, só se fortalece quando aceitamos que nenhuma verdade é
absoluta, e que todo saber precisa ser revisado à luz do diálogo e da
experiência coletiva.
As
convicções estanques, porém, oferecem um conforto tentador. No meio da
incerteza do mundo, agarrar-se a uma crença rígida dá sensação de firmeza. É
por isso que tantas pessoas preferem o dogma à reflexão, a resposta pronta à
pergunta incômoda. Mas esse conforto cobra um preço: impede a transformação.
Quem se tranca nas próprias certezas não vê o movimento da vida e corre o risco
de se tornar estrangeiro dentro do próprio tempo.
No
Brasil, vemos isso na polarização política e social. Convicções rígidas se
tornam bandeiras que dividem famílias, amizades, comunidades. O diálogo é
trocado por slogans; o pensamento crítico, por certezas impermeáveis. O
resultado é um empobrecimento coletivo: não crescemos no encontro, mas nos
enclausuramos no espelho de nós mesmos.
Talvez
seja hora de recuperar a humildade filosófica: reconhecer que nossas convicções
podem ser revisadas, que a mudança não é fraqueza, mas sinal de vitalidade.
Afinal, a vida não é estanque; é fluxo. E convicções que não respiram acabam
sufocando quem as sustenta.




