Outro dia me peguei sorrindo numa conversa em que eu claramente não queria estar. Nada grave. Apenas aquela cena comum: alguém fala, eu concordo com a cabeça, uso duas ou três frases educadas e sigo o jogo. Saí dali pensando: quantas das minhas atitudes são convicção — e quantas são conveniência?
As
conveniências sociais são esses acordos invisíveis que mantêm o mundo
funcionando sem que ele exploda a cada desacordo. São o “tudo bem” que não está
tudo bem, o “qualquer dia marcamos” que nunca será marcado, o elogio
diplomático que evita um constrangimento desnecessário.
E,
sejamos honestos, elas têm sua utilidade.
O
verniz que sustenta a convivência
Desde
a antiguidade se fala da necessidade de certa máscara social. O próprio Aristóteles
já lembrava que o ser humano é um animal político — ou seja, vive na pólis,
na convivência. E viver junto exige ajustes.
Se
eu dissesse tudo o que penso, do jeito que penso, a cada instante, talvez me
tornasse “autêntico” — mas também insuportável. A conveniência, nesse sentido,
é uma forma de caridade prática: ela amortece o impacto do ego alheio.
No
trabalho, por exemplo:
Você
discorda do chefe, mas escolhe o momento certo para falar.
Você
percebe o erro do colega, mas não o expõe na frente de todos.
Isso
é falsidade? Ou é maturidade?
Quando
a máscara começa a colar no rosto
O
problema não está na existência das conveniências — está quando passamos a
viver apenas nelas.
Quando
o “tudo bem” vira padrão existencial.
Quando
sorrimos tanto que esquecemos o que nos entristece.
Quando
evitamos todo conflito para preservar uma imagem.
O
filósofo dinamarquês Søren Kierkegaard falava do “desespero silencioso”
— aquela sensação de não ser si mesmo, mas um personagem aceitável. A
conveniência, nesse ponto, deixa de ser ponte e vira prisão.
Já
percebeu como às vezes saímos de um encontro social cansados, não pelo tempo,
mas pelo esforço de manter o papel?
O
almoço de domingo
Imagine
aquele almoço de família. Alguém toca num assunto delicado. Você poderia entrar
na discussão, defender sua posição com paixão. Mas escolhe mudar de tema. Ali,
a conveniência evita um campo de batalha.
Agora
imagine que você faz isso sempre — nunca expressa sua visão, nunca ocupa espaço
real. Aos poucos, você vira figurante na própria história.
Então
a pergunta não é se devemos ter conveniências sociais.
A
pergunta é: quem está no comando — eu ou o medo de desagradar?
Entre
a verdade e a harmonia
Talvez
a sabedoria esteja no equilíbrio.
Dizer
a verdade — mas com medida.
Ser
autêntico — mas com humanidade.
Discordar
— sem humilhar.
As
conveniências sociais são como o sal na comida: necessárias, mas em excesso
estragam tudo.
E
eu fico pensando: quantas vezes uso a polidez para proteger o outro — e quantas
vezes para me proteger?
Talvez
amadurecer seja isso:
Aprender
quando sorrir por gentileza
e
quando falar por integridade.
No
fim, viver em sociedade é uma arte delicada:
ser
verdadeiro sem ser bruto, ser gentil sem ser falso.
E
você, quando foi a última vez que percebeu estar sendo apenas conveniente — e
não realmente presente?