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sexta-feira, 12 de janeiro de 2024

Mito de Aristófanes


Quem diria que uma antiga fábula grega poderia ter tanto a nos dizer sobre o complicado e muitas vezes confuso mundo do amor e da busca pela nossa "outra metade". Aristófanes, o mestre das comédias, nos presenteou com uma história hilária, mas cheia de significado. O mito que vamos dar aquela viajada filosófica, faz parte do diálogo "O Banquete" (Symposium) de Platão, afinal o mito nunca aconteceu, mas sempre existiu, mesmo que os mitos não sejam eventos que ocorreram no passado, sua influência e importância persistem ao longo do tempo, moldando as perspectivas das sociedades e indivíduos. Essa abordagem reconhece a dimensão simbólica e cultural dos mitos, destacando sua relevância contínua na experiência humana.

Vamos nos imaginar (gosto muito disto) numa época em que éramos redondos, criaturas com quatro pernas, quatro braços e duas cabeças. Éramos completos, inteiros, mas, como tudo na vida, tínhamos que dar uma escorregada. Desafiando os deuses, fomos divididos ao meio, separados da nossa metade original. Diz a lenda que os humanos, cheios de orgulho, desafiaram os deuses. Em resposta a essa insolência, os deuses decidiram que era hora de dar uma lição, e que lição! A separação em duas metades deveria ser o castigo perfeito, a dor da separação é inevitável, ela se torna parte integrante do tecido da experiência humana, guiando-nos em direção à busca pelo que foi perdido. Assim, essas criaturas outrora completas, redondas e exuberantes, foram cortadas ao meio, transformando a unidade em dualidade.

A ironia é que, ao mesmo tempo em que os deuses puniam, também criavam a condição para uma busca eterna pela reunificação. Essa divisão provocou uma busca incansável por aquela outra metade perdida, um desejo profundo de restaurar a plenitude original. E assim, a zanga dos deuses se transformou em uma jornada mágica e tumultuada para os seres humanos, que passaram a buscar nos recantos mais remotos do mundo por algo que, no fundo, sempre esteve dentro deles.

Essa reviravolta na fábula de Aristófanes adiciona uma camada intrigante à história. É como se os deuses, em sua ira, inadvertidamente lançassem os humanos em uma aventura cósmica de autodescoberta e amor. Afinal, quem imaginaria que uma zanga divina poderia desencadear uma das mais belas e complexas narrativas sobre o desejo humano? Assim, enquanto sorrimos com a ironia da situação, somos levados a refletir sobre como, muitas vezes, é nas reviravoltas inesperadas que encontramos os tesouros mais valiosos da vida. Desde então, andamos por aí, meio desajeitados, à procura daquela parte perdida que nos tornará inteiros novamente.

A história é mais do que uma fábula engraçada e fantasiosa; é uma metáfora profunda sobre a busca incessante pela união e pela plenitude. Quantas vezes nos sentimos incompletos, como se algo vital nos faltasse? É como se cada um de nós estivesse em uma jornada cósmica para encontrar a pessoa que, de alguma forma, nos complementa de maneira única.

O interessante é como essa busca não se limita apenas a relacionamentos românticos. Ela se estende às amizades, à conexão com a comunidade e até mesmo à nossa relação com o mundo ao nosso redor. Estamos constantemente à procura de algo ou alguém que nos faça sentir que pertencemos, que nos encaixamos perfeitamente em um quebra-cabeça celestial. Não podemos negar que, por vezes, essa busca parece uma aventura digna de um épico grego. Encontramos obstáculos, enfrentamos desafios e, muitas vezes, descobrimos que a jornada é tão importante quanto a chegada. Talvez o propósito real seja aprender a ser completos por nós mesmos, antes de encontrarmos nossa tão sonhada metade perdida.

E se Aristófanes estivesse nos lembrando de que, na verdade, não precisamos ser redondos ou ter quatro braços para nos sentirmos inteiros? Talvez a verdadeira busca seja interior, uma jornada para nos conhecermos melhor, aceitarmos nossas próprias dualidades e abraçarmos nossa singularidade. Então, da próxima vez que nos sentirmos como protagonistas de uma busca épica, podemos nos lembrar da fábula de Aristófanes. Talvez a resposta para a plenitude não esteja lá fora, mas dentro de nós mesmos. E, quem sabe, ao encontrar nossa própria integridade, a outra metade perdida simplesmente apareça, tornando a jornada ainda mais extraordinária. Afinal, como dizem, a vida é uma grande história, e estamos todos buscando o nosso final feliz.

Então, meus amigos, que caminhada intrigante é essa em que nos encontramos, na busca incessante pela nossa outra metade! Talvez, ao invés de procurarmos por aí como se estivéssemos em um jogo de esconde-esconde cósmico, devamos virar a chave para dentro. Talvez a verdadeira completude resida não na busca por uma metade perdida, mas sim na aceitação de nós mesmos, na compreensão de nossas próprias dualidades. Então, que possamos abraçar a fábula de Aristófanes como um lembrete amigável de que a jornada para a plenitude começa conosco mesmos, e que, ao nos tornarmos inteiros, podemos descobrir que a outra metade já estava lá o tempo todo, esperando para se juntar a nós nesse grande espetáculo da vida.

 

quinta-feira, 11 de janeiro de 2024

Sempre É, Demais!


Na trama intrincada da vida, a expressão "sempre é demais" emerge como um fio condutor que tece suas nuances através dos diferentes contextos da filosofia. Como uma frase aparentemente simples, ela desafia a mente a explorar a constância, a universalidade e, talvez, os limites inerentes a princípios estabelecidos. Seja na ética, na existencialidade, na política ou nas batalhas diárias pela paz interior, a noção de "sempre é demais" nos convida a questionar, refletir e, em última análise, a navegar pelo intrincado labirinto da experiência humana. Num mundo onde a complexidade é a norma, essa expressão ressoa como um eco filosófico que nos instiga a desvendar seu significado em cada dobra do tecido da existência.

Vamos nos imaginar numa conversa animada de cafeteria com Sócrates, aquele filósofo barbudo da Grécia antiga, mestre em fazer perguntas desconcertantes. Aqui estamos, debatendo sobre a expressão "sempre é demais". Sócrates, com um sorriso irônico, sugeriria que a busca pelo "sempre" é uma busca pela verdade eterna, um desejo intrínseco à natureza humana. Ele provocaria nossas mentes, questionando se podemos realmente definir algo como sempre verdadeiro, desafiando-nos a examinar a fundo nossas crenças e suposições. "Será que a verdade absoluta existe ou estamos simplesmente perseguindo sombras na parede da caverna da nossa própria ignorância?", ele indagaria, sua sabedoria permeando o ar com a sensação de que, talvez, a sabedoria real esteja na aceitação da impermanência e da complexidade da existência. Num tom socrático, ele nos lembra de que a jornada de questionar, refletir e explorar é tão vital quanto qualquer resposta definitiva. A expressão "sempre é demais", para Sócrates, seria uma provocação, uma isca para nos fazer mergulhar nas profundezas do conhecimento, desafiando-nos a questionar o que pensamos saber e, ao mesmo tempo, celebrando a beleza da busca incessante pela verdade.

"Sempre é demais" é uma expressão que, de certa forma, ecoa em vários cantos da filosofia, se infiltrando nas discussões sobre limites, constância e até mesmo na busca por equilíbrio. Vamos dar uma olhada nessa ideia intrigante que parece persistir através das eras e disciplinas. Em um sentido mais amplo, essa expressão pode ser interpretada como uma afirmação da universalidade de certos princípios. Em questões éticas, por exemplo, defender que a honestidade sempre é a melhor política sugere uma constância na aplicação de valores morais. Aqui, "sempre é demais" se transforma em uma âncora ética, destacando a importância de princípios imutáveis.

Entretanto, ao adentrar o território da filosofia existencialista, podemos perceber uma possível tensão nessa afirmação. Pensadores como Sartre poderiam argumentar que a rigidez absoluta de princípios pode limitar a liberdade individual. Em um mundo onde a existência precede a essência, talvez a insistência no "sempre" seja, de fato, demais, restringindo a capacidade humana de se reinventar e transcender.

Na esfera da política, a expressão "sempre é demais" pode ser uma chamada de atenção para regimes autoritários que buscam impor uma ideologia única. O pluralismo e a diversidade muitas vezes desafiam a ideia de que uma abordagem única serve para todas as situações. Nesse contexto, a busca pelo "sempre" pode colidir com a realidade multifacetada da sociedade.

Numa perspectiva mais pessoal, a expressão pode ser aplicada ao autocuidado e à busca de equilíbrio na vida cotidiana. A insistência em realizar tarefas incessantemente pode ser prejudicial à saúde mental e física. Aqui, "sempre é demais" poderia ser um lembrete para a importância de pausas, limites e autorreflexão. E no amor? Com ficamos neste território complicado?

Ah, o amor, esse território complicado onde as regras parecem se perder e as emoções assumem o comando. Dizer que "sempre é demais" no amor é como entrar num campo minado de subjetividade e complexidade humana. Enquanto alguns podem jurar pela intensidade constante e a paixão eterna, outros argumentariam que o amor é mais como um rio, fluindo e mudando com o tempo. Talvez, em meio a todo esse caos emocional, o "demais" no amor seja a intensidade que nos leva a novas alturas, mas também pode ser o fardo que leva ao desgaste. Certamente, podemos encontrar momentos em que a dedicação e o comprometimento extremos são cruciais, mas também há espaço para respirar, para a aceitação da imperfeição e para os altos e baixos que vêm com qualquer relacionamento duradouro. O amor é uma jornada intrincada, onde "sempre é demais" pode ser tanto uma promessa apaixonada quanto um desafio constante.

Ao explorar a ideia de "sempre é demais" nos diferentes contextos, percebemos que essa expressão é, de fato, multifacetada. Ela pode ser uma luz guia ética, uma restrição à liberdade existencial, uma crítica aos totalitarismos políticos ou um chamado para o autocuidado. Em última análise, o significado dessa expressão depende da lente através da qual a examinamos, e é na interseção desses diversos contextos que sua verdadeira complexidade emerge.

No emaranhado da filosofia, onde ideias dançam em um ritmo infinito, a expressão "sempre é demais" nos deixa com a sensação de que talvez não haja respostas definitivas, mas sim uma rica tapeçaria de perspectivas e interpretações. Ao final desta breve exploração, somos lembrados de que a complexidade do pensamento humano é vasta e intrincada. A busca pelo equilíbrio entre o constante e o variável, o sempre e o às vezes, parece ser um desafio constante. No entanto, é nesse desafio que encontramos a essência da filosofia - a busca pela compreensão em meio à incerteza. Talvez, no final das contas, a expressão "sempre é demais" seja menos sobre regras inflexíveis e mais sobre a jornada em si, sobre a exploração contínua das complexidades que permeiam a existência humana. E assim, encerramos este breve diálogo filosófico com a humildade de quem apenas começou a desvendar os mistérios que o "sempre" nos oferece, reconhecendo que, por vezes, a verdade está na jornada, não no destino final.