Blog de Filosofia e Sociologia trata de assuntos que rolaram durante a semana, tal como noticias, curiosidades, vídeos, musicas, educação, temas de filosofia, sociologia, teologia, enfim assuntos que também poderão ser discutidos em salas de aula e até nas conversas de cafeteria.
Vivemos
um tempo em que quase tudo pede palco. Emoções, opiniões, processos internos —
tudo parece precisar ser mostrado, validado, curtido. O autoconhecimento,
porém, nasce no sentido oposto. Ele acontece melhor longe do aplauso.
Conhecer
a si mesmo não é produzir uma versão interessante de quem somos, mas suportar a
convivência com aquilo que não rende narrativa: contradições, silêncios,
repetições. Há partes de nós que só aparecem quando não estamos tentando
explicá-las a ninguém.
No
cotidiano isso é simples e difícil ao mesmo tempo. É perceber que certa
irritação não é “personalidade forte”, mas cansaço acumulado. Que uma convicção
defendida com paixão talvez seja só medo de perder o chão. Que nem todo
sofrimento precisa virar testemunho público para ser legítimo.
O
espetáculo exige coerência e progresso visível. O autoconhecimento real aceita
zonas cinzentas, recaídas e intervalos longos de aparente estagnação. Ele não
se mede por frases prontas, mas pela mudança quase imperceptível no modo de
reagir: falar um pouco menos, ouvir um pouco mais, adiar um julgamento.
Há
uma sabedoria antiga nisso. Como diria Heráclito, a natureza
gosta de esconder-se. O mesmo vale para a natureza humana. Aquilo que realmente
nos transforma costuma agir em silêncio, como uma água que escava a pedra sem
anunciar o feito.
Autoconhecimento
sem espetáculo é, no fundo, um pacto de discrição consigo mesmo. Não é ausência
de profundidade — é respeito pelo que ainda está em formação. E talvez seja
justamente aí, onde nada precisa ser mostrado, que começamos a nos reconhecer
de verdade.
Outro
dia, numa conversa despretensiosa, alguém comentou: “Fulano sempre está
sorrindo, nem parece que tem depressão.” A frase ficou ecoando na minha cabeça.
Desde quando a tristeza precisa ser óbvia? Desde quando a dor psíquica precisa
se apresentar de maneira transparente? Se há algo que a sociedade moderna
ensinou bem é o talento para disfarçar. E poucos sentimentos se camuflam tão
bem quanto a depressão.
A
depressão não anda por aí com um cartaz dizendo: “Ei, estou aqui.” Pelo
contrário, ela se esconde, se mascara, se dilui nas exigências do cotidiano. Às
vezes, veste o rosto da produtividade extrema — a pessoa que faz tudo, que
nunca para, que está sempre disponível. Outras vezes, assume a forma da ironia
— aquele humor ácido que disfarça um cansaço existencial profundo. Pode ainda
aparecer como sociabilidade forçada — o riso alto na festa, as redes sociais
cheias de registros de felicidade encenada.
Nietzsche
dizia que “todo profundo espírito precisa de uma máscara.” Talvez a depressão
tenha compreendido essa lição melhor do que ninguém. A necessidade de esconder
a dor não é apenas individual, mas social. Vivemos em tempos onde a felicidade
virou um dever, um produto de marketing. Se a infelicidade aparece, ela precisa
ser logo justificada ou eliminada. Então, quem sente a tristeza persistente
aprende a vesti-la com outra face, para que ninguém perceba.
Mas
há um custo nisso tudo. A máscara, que em um primeiro momento parece proteger,
pode se tornar uma prisão. Quem passa a vida disfarçando a dor, corre o risco
de esquecer que é possível falar sobre ela, tratá-la, encará-la de frente. Em
algum momento, as máscaras precisam cair — nem que seja em um ambiente seguro,
diante de alguém que realmente escuta. Afinal, como disse Simone Weil,
“a verdade é a necessidade mais profunda da alma humana.”
E
talvez essa seja a grande ironia: para encontrar alívio, é preciso primeiro
deixar de fingir.
Sou do tempo que levávamos a máquina fotográfica
a tiracolo ainda com rolo de filme, revelávamos as fotos em papel fotográfico e
ficávamos na expectativa pelo resultado das fotos reveladas, gosto até hoje de
pegar as fotos impressas e manuseá-las sem a necessidade de abrir arquivos que
sabe-se lá onde estão, sabe-se lá onde está “aquela” fotografia, por isto tenho
uma mala de lembranças.
Revirando fotografias na minha velha mala de
lembranças me deparei com algumas fotos tiradas em pescarias, sempre gostei de
pescar, ao ver as fotos sinto até hoje conexão com a natureza, tenho presente
em minha memória o poder revigorante e por me proporcionar uma sensação de paz
e tranquilidade, o ato de lançar a linha e esperar calmamente por uma captura sempre
me ajudou a aliviar o estresse e a tensão acumulados, é um momento para
desacelerar, se desconectar das preocupações do dia a dia e encontrar um
equilíbrio com a natureza, melhor ainda com a captura de um peixe é um momento
de grande emoção e satisfação. A sensação de conquista ao pegar um peixe
desejado, especialmente aqueles considerados difíceis de serem capturados, é
muito gratificante, estas emoções relembradas foram aflorando e aos poucos fui
resgatando lembranças em meu arquivo de memórias.
Minha infância foi vivida próximo e em contato
quase diário com o mar, sou riograndino papareia, sempre senti uma conexão
profunda com o mar e naturalmente desenvolvi uma paixão pela pesca. Sempre que
tinha um tempinho livre me dirigia ao ponto mais próximo e aproveitava para
arremessar a linha, como é natural nem sempre fisgava algum peixe, esperava
pescar algo, mas esperava pelo inesperado, esperava fisgar aquele peixe ideal,
nenhum dia era igual ao outro, nenhuma pescaria era igual a outra, quem é
pescador sabe disso.
Observador que sou aprendi a encontrar os
melhores lugares para pescar, tinha lugares especiais e não gostava de
compartilhar a descoberta, conhecia os recifes escondidos e as correntes
favoráveis, nenhum dia era igual ao outro, havia sempre algo de inesperado,
minha curiosidade e desejo por uma captura inesquecível me impulsionavam a descobrir
outros lugares interessantes, sempre esperava pacientemente por um sinal de que
minha busca por outro lugar especial havia valido a pena, por tudo isto estava
implícito muita aprendizagem. A curiosidade não é suficiente para desvendar os
lugares especiais, pois nossa curiosidade é limitada por nossa miopia e muitas
vezes queremos ver mais do que podemos é porque precisamos desenvolver
confiança na beleza do inesperado.
Aprendi que pescar não é depredar, esgotar o
local especial ou não, Deus me livre, desde muito tempo aprendi sobre a
importância da pesca sustentável e da preservação dos ecossistemas marinhos,
aprendi a respeitar o mar, o respeito me é retribuído com o carinho das ondas
mansas, com a brisa com sabor de mar, com sua beleza e encanto, o mar é um
presente da natureza e lá em suas profundezas esconde muitos segredos.
Estas pescarias tinham algo a mais, para mim
tinham um significado mais profundo, não sabia e hoje sei que sou do tipo de
pescador heraclitiano, sou do tipo que gosta de sentar na beira do mar,
contemplando as águas que se estendem diante de mim, e me descobri um pensador
profundo em busca de sabedoria nas marés e nas ondas, na verdade não é para
pegar peixe que me leva ao mar, a pescaria é como um portal que me permite
vislumbrar tanto os fenômenos naturais como nosso mundo interior, quem me
conhece ou leu alguns de meus artigos sabe que também curto aquele cafezinho e
chimarrão na companhia de Deus, enquanto alguns buscam meditar em cerimônias de
chá, surfando, caminhando, andando de bicicleta, eu também tenho minhas
peculiaridades.
Enquanto observo o vai e vem das águas, posso
refletir sobre as palavras do antigo filósofo, Heráclito, que afirmava que tudo
está em constante mudança, ele percebeu a verdade nessas palavras ao olhar para
as ondas quebrando na praia, assim como ele percebi que nenhum dia de pescaria,
assim como cada pescaria não eram e não são iguais.
Cada onda é única, nunca igual à anterior. Elas
surgem do mar profundo e, por um breve momento, tomam forma antes de retornarem
ao oceano. Este pescador não cansa em contemplar a transitoriedade de cada
onda, assim como a efemeridade da própria vida.
Percebi um paralelo entre as ondas e os momentos
da existência humana. Assim como as ondas, os momentos passam, dando lugar a
outros. Percebi que a vida é uma sucessão de momentos fugazes, cada um
diferente do anterior, mas todos destinados a se fundir no fluxo contínuo do
tempo, assim como as ondas que vem e retornam ao mar.
Enquanto observava as marés, este pescador
heraclitiano entendeu que não se pode segurar as ondas nem deter o tempo, com o
passar do tempo compreendi a importância de viver plenamente no momento
presente, sabendo que tudo está em constante mudança e que a impermanência é
uma característica fundamental da existência.
Percebi que a beleza da vida está na apreciação
dos momentos efêmeros, na aceitação da impermanência e na compreensão de que
cada instante é valioso e único, assim como cada onda quebrando na praia.
Sempre apreciei passear a beira mar com tempo
nublado ou sob o sol, melhor sob sol que cria uma atmosfera cálida e agradável,
com sua luz refletida nas águas proporcionando uma paisagem deslumbrante, com
brilhos dourados proporcionando cenários perfeitos para minhas caminhadas ou
simplesmente apreciar sua beleza natural, as gaivotas com sua presença graciosa
e elegante, com seus voos suaves e chamados característicos. Suas asas brancas
contrastando com o azul do céu e do mar, adicionando uma atmosfera pitoresca ao
cenário com seu som ao fundo criando uma sensação de tranquilidade.
Até hoje este pescador heraclitiano continua a
contemplar as águas e, com o coração cheio de serenidade, sigo meu caminho como
um observador atento das mudanças do mundo. Hoje sei que, assim como as ondas,
também faço parte desse fluxo eterno, navegando pelas águas da existência,
sempre em busca de sabedoria e compreensão.
E ali, na beira do mar, este pescador
heraclitiano encontrou um lugar de quietude e reflexão, conectando-se profundamente
com a natureza e as verdades universais que ela revela, percebi que Deus é um
filósofo natural, que Ele sempre esteve e está em todos lugares especiais ou
não, fisgando peixes ou não, Deus está na natureza e Ele como a natureza amam
se esconder, logo vou explicar o que penso a partir do pensamento heraclitiano.
A frase "a natureza ama se esconder" é
uma citação atribuída ao filósofo pré-socrático Heráclito nascido em Éfeso na
Turquia. Essa citação é uma parte da filosofia heraclitiana que aborda a ideia
de que a natureza opera de maneiras sutis e ocultas, assim como Deus, assim é
Deus.
Heráclito acreditava que o mundo era um eterno
devir, ele acreditava que a natureza é caracterizada por uma constante mudança
e transformação, onde tudo está em fluxo. Ele via a realidade como um processo
dinâmico, onde opostos se encontram e se transformam mutuamente. Nesse
contexto, a frase "a natureza ama se esconder" pode ser interpretada
como a ideia de que a natureza não se revela completamente, mas sim se oculta em
seu constante movimento e transformação.
Para Heráclito, a compreensão da natureza exige
uma observação atenta e uma percepção das mudanças sutis e ocultas que ocorrem
ao nosso redor. Ele acreditava que a verdadeira sabedoria consistia em
compreender a natureza mutável do mundo e se adaptar a ela.
Essa citação de Heráclito reflete sua visão
filosófica sobre a natureza como um fenômeno em constante movimento e
transformação, que exige uma atenção cuidadosa para ser compreendido em sua
totalidade, para mim este filósofo pré-socrático é um dos mais brilhantes por
perceber o mundo e a vida em seus movimentos esperados ou inesperados, tal como
um pescador que diante do poderoso mar está atento a sua movimentação.
Estamos longe de perceber o que realmente ocorre
a nossa volta, sei que vemos pouco do que ocorre seja do micro, seja do macro,
quando conseguimos perceber é porque já houveram mudanças, é quando nossa
percepção foi arrebatada pelo estranhamento causado pela dinâmica da constante
transformação, a passagem do tempo é percebida pela transformação da natureza
que nos cerca, muitas vezes damo-nos conta tardiamente, há complexidade em
torno de nós, a dimensão da natureza é esmagadora, a resposta para tanta beleza
na criação é de haver um Criador.
Acredito na corrente de pensamento que Deus é o
criador do universo e, portanto, possui um conhecimento profundo e perfeito de
todas as leis naturais e fenômenos que ocorrem nele. Nessa visão, Deus é um
filósofo natural supremo, que possui uma compreensão completa e abrangente da
natureza e de como ela funciona.
Na minha perspectiva, Deus é a fonte de toda
sabedoria e conhecimento, incluindo aqueles relacionados à filosofia natural.
Acredito que Deus tenha estabelecido as leis naturais que regem o universo e
que sua sabedoria transcende a compreensão humana.
As pescarias seja onde forem no mar ou rio são ambientes
propícios para a conexão espiritual. Durante as pescarias aproveito o tempo em
meio à tranquilidade da natureza para refletir, meditar e até mesmo conversar
com Deus, buscando uma conexão mais profunda com o divino, tentando em minha
humildade descortinar os segredos que a natureza procura esconder.
As pescarias me oferecem um espaço de silêncio e
serenidade, onde é possível me sentir mais próximo da presença divina, diante
da imensidão do mar, a beleza dos rios ou a calma dos lagos evocam em mim um
senso de reverência e admiração, me proporcionando um ambiente propício para a
espiritualidade, nesta vibração percebo que o véu que cobre os segredos da
natureza é tirado aos poucos me revelando uma face divina.
Aproveito para agradecer pelas bênçãos recebidas,
faço minhas orações, busco orientação, as vezes procuro encontrar conforto ou
simplesmente vou para compartilhar meus pensamentos e emoções com Deus. Essa
comunicação com o divino me traz uma sensação de paz interior, propósito e
conexão com algo maior.
Acredito que cada pessoa tenha sua própria forma
de vivenciar e expressar sua espiritualidade, as pescarias são místicas e podem
ser um momento especial para esse encontro com o divino. É uma oportunidade
para unir a paixão pela pesca à busca por uma conexão espiritual mais profunda,
permitindo que a natureza seja o cenário para essa conversa com Deus, lembrando
que a “natureza ama se esconder”, as descobertas são como presentes e brindes,
aprendi a apreciar minhas conquistas, as pescarias tem sua própria dinâmica de
autodescobrimentos, o devir é incerto e os acontecimentos inesperados são
aguardados por simples beleza e confiança, aprendi a presentear-me com um pouco
do meu tempo, neste tempo de presente me foi possível desvendar segredos e conquistar
um pouco mais de mim, como disse não é para pegar peixe que me leva ao mar.