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segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Cavernas Profundas


A Caverna Atrás da Caverna: quando uma filosofia esconde outra

E se ainda houver uma caverna?

Às vezes pensamos que finalmente saímos da caverna. Descobrimos uma ideia, abandonamos uma crença, questionamos uma verdade que parecia absoluta e sentimos aquela pequena satisfação de quem conseguiu enxergar um pouco além. “Agora entendi”, pensamos.

Mas talvez seja justamente aí que começa o problema.

E se a filosofia que nos libertou da primeira caverna for apenas a entrada para uma segunda? E se, atrás de cada explicação, houver outra explicação; atrás de cada verdade, uma interpretação; atrás de cada interpretação, uma perspectiva ainda mais profunda? Talvez o filósofo não seja aquele que simplesmente abandona a caverna, mas aquele que desconfia até mesmo da paisagem que encontrou do lado de fora.

Essa possibilidade produz uma pergunta desconfortável: toda filosofia esconde uma filosofia?

Talvez sim. E talvez Nietzsche seja um dos pensadores que mais radicalmente nos ensina a suspeitar disso.

A filosofia como uma caverna de profundidade infinita

Quando pensamos na alegoria da caverna de Platão, imaginamos um movimento de libertação: há sombras, depois a saída, depois a luz. O filósofo seria aquele que consegue romper com as aparências e alcançar uma realidade superior.

Nietzsche desconfia dessa arquitetura.

Para ele, talvez o problema esteja justamente na necessidade humana de acreditar que existe um “lado de fora” definitivo. A vontade de encontrar uma verdade última pode ser, ela própria, uma necessidade psicológica, moral ou existencial.

É como se disséssemos:

“Descobri que aquilo era uma ilusão.”

Nietzsche imediatamente perguntaria:

“E por que você precisa acreditar que descobriu a verdade?”

A pergunta muda tudo.

A filosofia deixa de ser apenas uma busca pela verdade e passa a ser também uma investigação sobre por que queremos determinada verdade.

É aqui que aparece a segunda caverna.

A primeira caverna contém as nossas crenças. A segunda contém as razões ocultas pelas quais acreditamos que abandonamos essas crenças. E talvez uma terceira contenha os motivos pelos quais escolhemos determinadas razões.

A profundidade, então, não termina.

Nietzsche e a suspeita contra as verdades derradeiras

Nietzsche não trata a filosofia como uma atividade neutra, realizada por uma razão pura que observa o mundo de fora. Por trás de uma filosofia existe um filósofo; e por trás do filósofo existem desejos, impulsos, valores, ressentimentos, medos, necessidades e formas particulares de interpretar a existência.

Por isso, em Além do Bem e do Mal, Nietzsche afirma que pouco a pouco começa a compreender que “toda grande filosofia foi até agora a confissão de seu autor”.

Essa ideia é extraordinariamente poderosa.

Ela significa que uma filosofia pode parecer universal e, entretanto, carregar uma biografia escondida.

O filósofo fala sobre “o homem”, mas talvez esteja falando de si mesmo.

Fala sobre “a verdade”, mas talvez esteja revelando aquilo que precisa considerar verdadeiro para suportar a existência.

Fala sobre “o bem”, mas talvez esteja defendendo uma determinada maneira de viver.

Assim, atrás de uma filosofia existe uma psicologia.

E atrás dessa psicologia talvez exista uma fisiologia da existência.

E atrás dela, quem sabe, uma luta silenciosa entre forças que o próprio filósofo desconhece.

A caverna se torna mais profunda.

A filosofia escondida dentro da filosofia

Podemos imaginar uma espécie de arqueologia do pensamento.

Na superfície encontramos uma tese:

“A verdade deve ser buscada.”

Descemos um nível:

“Por que a verdade deve ser buscada?”

Mais fundo:

“Que necessidade humana existe nessa busca?”

Mais fundo ainda:

“Que tipo de homem precisa dessa verdade?”

E, finalmente:

“Que forças da vida estão falando através dessa necessidade?”

Nietzsche nos convida justamente a realizar esse movimento.

O pensamento não deve ser analisado apenas pelo que afirma, mas também pelo que o produz.

Uma filosofia pode defender a igualdade porque acredita sinceramente na justiça. Mas Nietzsche perguntaria: que tipo de vida encontra na igualdade uma necessidade?

Outra pode defender a renúncia aos desejos. Nietzsche perguntaria: que relação com a vida produz essa moral?

Outra pode proclamar que existe uma verdade eterna e imutável. Nietzsche perguntaria: que medo da mudança exige uma verdade imóvel?

Não se trata simplesmente de acusar o filósofo de estar errado.

É algo mais profundo.

É perguntar:

“Que vida está falando através dessa ideia?”

Mas e se houver uma verdade no fundo?

Aqui surge a questão mais difícil.

Se toda filosofia esconde outra filosofia, isso significa que não existe verdade? Devemos concluir que tudo é apenas interpretação?

Nietzsche é frequentemente associado ao relativismo, mas sua posição é mais interessante do que um simples “cada um tem sua verdade”.

Se tudo fosse indiferente, não haveria necessidade de tanta crítica.

Nietzsche não quer apenas substituir uma verdade por outra. Ele quer modificar nossa relação com a própria ideia de verdade.

Talvez uma verdade seja menos uma estátua encontrada no fim da investigação e mais uma conquista provisória de um determinado modo de interpretar a realidade.

Isso não significa que todas as opiniões sejam equivalentes.

Uma interpretação pode ser mais profunda, mais abrangente, mais criadora, mais capaz de suportar contradições e mais afirmadora da vida do que outra.

A questão deixa de ser:

“Qual é a opinião absolutamente definitiva?”

E passa a ser:

“Que tipo de vida esta opinião torna possível?”

Essa mudança é radical.

A última caverna talvez seja a necessidade de uma última caverna

Talvez exista uma ironia ainda maior.

O ser humano pode abandonar uma religião, depois abandonar uma ideologia, depois abandonar uma moral, depois abandonar uma metafísica — e finalmente construir uma filosofia sofisticada para explicar por que abandonou todas as anteriores.

Então acredita ter chegado à liberdade.

Mas Nietzsche perguntaria:

“Você realmente se libertou ou apenas mudou de caverna?”

A nova caverna pode ser mais elegante.

Não tem correntes visíveis.

Não possui sacerdotes.

Não exige dogmas.

Tem livros, conceitos, argumentos e uma linguagem sofisticada.

Mas ainda pode ser uma caverna.

Porque uma prisão não deixa de ser prisão apenas porque suas paredes foram construídas com conceitos.

Nesse sentido, o filósofo corre um risco peculiar: transformar sua própria filosofia em uma nova crença absoluta.

O homem que descobriu que tudo é interpretação pode transformar “tudo é interpretação” em uma nova verdade absoluta.

O homem que aprendeu a desconfiar das certezas pode ficar absolutamente certo de que deve desconfiar de tudo.

A crítica pode se transformar em dogma.

A liberdade pode criar sua própria prisão.

A verdadeira profundidade talvez não esteja no fundo

Talvez seja aqui que a metáfora da caverna precise ser reinventada.

Não devemos imaginar as cavernas como uma sequência em que finalmente chegaremos à última:

caverna → caverna mais profunda → caverna definitiva → verdade final.

Talvez a estrutura seja outra:

caverna → descoberta → nova caverna → nova descoberta → nova interpretação.

Não existe necessariamente um último porão.

E talvez isso não seja uma tragédia.

Pode ser justamente a condição da liberdade.

A filosofia torna-se verdadeiramente filosófica quando consegue colocar em questão inclusive o chão sobre o qual está pisando.

Nietzsche nos ensina uma atitude de suspeita permanente: não confiar facilmente em valores herdados, em conceitos consagrados ou mesmo nas motivações ocultas de nossa própria consciência.

Mas essa suspeita não deveria conduzir à paralisia.

Ela pode conduzir à criação.

Depois de destruir os ídolos, é preciso perguntar: o que faremos com o espaço vazio?

As opiniões derradeiras

A possibilidade de existirem “opiniões derradeiras e verdadeiras” continua sendo fascinante.

Talvez existam.

Mas talvez o maior erro seja imaginar que podemos reconhecê-las como definitivas.

Uma opinião que se apresenta como última pode simplesmente estar escondendo sua própria origem.

Nietzsche provavelmente desconfiaria de qualquer pensamento que dissesse:

“Aqui termina a investigação.”

Porque talvez a frase revele menos a descoberta de uma verdade do que o desejo de interromper a busca.

A opinião derradeira poderia ser apenas a nossa necessidade derradeira de segurança.

Por isso, talvez o pensamento mais profundo não seja aquele que encontrou a última resposta, mas aquele que consegue permanecer vivo diante da ausência dela.

Isso não significa abandonar a verdade.

Significa abandonar a ingenuidade de pensar que já possuímos a verdade simplesmente porque encontramos uma explicação convincente.

Concluindo — A filosofia que olha para trás

Talvez toda filosofia esconda uma filosofia.

E talvez atrás da caverna de um filósofo exista outra caverna, mais escura e mais profunda, onde estão escondidos não apenas novos argumentos, mas os desejos que fizeram nascer os primeiros argumentos.

Platão nos ensinou a sair da caverna.

Nietzsche nos ensina a olhar para trás depois de sair.

E esse olhar é decisivo.

Porque talvez descubramos que carregamos parte da caverna dentro de nós.

A verdadeira aventura filosófica começa quando percebemos que não basta perguntar “o que é verdadeiro?”. Precisamos também perguntar:

“Quem precisa que isso seja verdadeiro?”

E depois:

“Que tipo de vida nasce dessa verdade?”

E talvez, quando julgarmos ter chegado à resposta, uma última pergunta nos espere:

“E se esta resposta também for uma caverna?”

Nesse ponto, a filosofia deixa de ser uma viagem em busca de um lugar definitivo.

Ela se transforma em uma arte de aprofundar o olhar.

Talvez não exista uma última caverna.

Talvez existam apenas cavernas cada vez mais profundas — e a grandeza do filósofo esteja não em encontrar o último fundo, mas em possuir coragem suficiente para continuar descendo sem transformar nenhuma profundidade encontrada em eternidade.

É possível que a verdade esteja lá embaixo.

Mas também é possível que, ao descermos, descubramos algo mais perturbador e mais nietzschiano:

que a maior verdade talvez seja perceber que ainda não terminamos de perguntar.

domingo, 17 de maio de 2026

Reverso Obscuro

Tem um momento curioso em que tudo parece estar no lugar certo — e, justamente por isso, algo começa a incomodar. Não é um problema evidente, não é uma falha gritante. É quase o contrário: quanto mais “perfeito” parece, mais surge a suspeita de que há algo por trás, sustentando aquilo tudo.

Uma espécie de sombra que não aparece diretamente.

Com Slavoj Žižek, esse incômodo ganha forma: toda ordem visível carrega um reverso obscuro. Não como um erro acidental, mas como uma condição de funcionamento. O que vemos — normas, valores, discursos — só se sustenta porque algo fica fora do campo, oculto ou negado.

Não é simplesmente hipocrisia. É mais estrutural.

Pensa numa situação cotidiana: um ambiente de trabalho que se vende como “leve”, “horizontal”, “quase uma família”. Tudo é colaborativo, aberto, transparente. Mas, ao mesmo tempo, existe uma pressão silenciosa, metas não ditas, expectativas que ninguém explicita — e que, ainda assim, todos sentem.

Esse lado não aparece no discurso oficial. Mas é justamente ele que faz o sistema girar.

Žižek diria que o problema não é que a realidade tenha um lado obscuro. O problema é fingir que ela não tem — enquanto, na prática, dependemos dele. É como se a fachada precisasse daquilo que nega para continuar existindo.

Outro exemplo: redes sociais. A superfície é feita de conexões, expressão, visibilidade. Mas o reverso inclui ansiedade, comparação constante, necessidade de validação. E o mais curioso: essas duas coisas não estão em conflito — elas se alimentam.

Quanto mais se busca reconhecimento, mais se entra no jogo que produz insegurança.

O reverso obscuro não é o oposto do sistema. Ele é o seu complemento invisível.

E isso aparece também dentro da gente. Aquela versão “organizada”, “coerente”, “controlada” que mostramos no dia a dia muitas vezes convive com impulsos, dúvidas e contradições que preferimos não encarar. Não porque sejam raros — mas porque são difíceis de integrar.

Žižek costuma provocar: e se aquilo que você tenta esconder for justamente o que sustenta quem você pensa ser?

É desconfortável, porque quebra a ideia de que existe uma versão “pura” das coisas — um sistema sem falhas, uma identidade sem contradições, uma vida sem zonas cinzentas.

Talvez não exista.

No cotidiano, o reverso obscuro aparece nesses pequenos descompassos: quando algo dá certo demais, quando um discurso parece limpo demais, quando uma situação parece perfeitamente resolvida. Nesses momentos, vale a pena perguntar — não com desconfiança paranoica, mas com curiosidade:

“o que está ficando de fora aqui?”

Porque ignorar o reverso não elimina sua existência. Só torna ele mais difícil de perceber — e, muitas vezes, mais forte.

Talvez o gesto mais honesto não seja tentar eliminar essa dimensão obscura, mas reconhecê-la como parte do jogo. Não para justificar tudo, mas para não cair na ilusão de que existe um lado totalmente iluminado.

No fim, o que Žižek sugere — de forma incômoda, como sempre — é que a verdade raramente está apenas na superfície. Ela costuma se esconder justamente naquilo que a superfície precisa esconder para continuar parecendo estável.

E encarar isso muda tudo.

Ou, pelo menos, impede que a gente continue olhando para o mundo como se ele fosse mais simples do que realmente é.


quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Sem Espetáculo

O Autoconhecimento

Vivemos um tempo em que quase tudo pede palco. Emoções, opiniões, processos internos — tudo parece precisar ser mostrado, validado, curtido. O autoconhecimento, porém, nasce no sentido oposto. Ele acontece melhor longe do aplauso.

Conhecer a si mesmo não é produzir uma versão interessante de quem somos, mas suportar a convivência com aquilo que não rende narrativa: contradições, silêncios, repetições. Há partes de nós que só aparecem quando não estamos tentando explicá-las a ninguém.

No cotidiano isso é simples e difícil ao mesmo tempo. É perceber que certa irritação não é “personalidade forte”, mas cansaço acumulado. Que uma convicção defendida com paixão talvez seja só medo de perder o chão. Que nem todo sofrimento precisa virar testemunho público para ser legítimo.

O espetáculo exige coerência e progresso visível. O autoconhecimento real aceita zonas cinzentas, recaídas e intervalos longos de aparente estagnação. Ele não se mede por frases prontas, mas pela mudança quase imperceptível no modo de reagir: falar um pouco menos, ouvir um pouco mais, adiar um julgamento.

Há uma sabedoria antiga nisso. Como diria Heráclito, a natureza gosta de esconder-se. O mesmo vale para a natureza humana. Aquilo que realmente nos transforma costuma agir em silêncio, como uma água que escava a pedra sem anunciar o feito.

Autoconhecimento sem espetáculo é, no fundo, um pacto de discrição consigo mesmo. Não é ausência de profundidade — é respeito pelo que ainda está em formação. E talvez seja justamente aí, onde nada precisa ser mostrado, que começamos a nos reconhecer de verdade.

sábado, 18 de outubro de 2025

Máscaras da Depressão

Outro dia, numa conversa despretensiosa, alguém comentou: “Fulano sempre está sorrindo, nem parece que tem depressão.” A frase ficou ecoando na minha cabeça. Desde quando a tristeza precisa ser óbvia? Desde quando a dor psíquica precisa se apresentar de maneira transparente? Se há algo que a sociedade moderna ensinou bem é o talento para disfarçar. E poucos sentimentos se camuflam tão bem quanto a depressão.

A depressão não anda por aí com um cartaz dizendo: “Ei, estou aqui.” Pelo contrário, ela se esconde, se mascara, se dilui nas exigências do cotidiano. Às vezes, veste o rosto da produtividade extrema — a pessoa que faz tudo, que nunca para, que está sempre disponível. Outras vezes, assume a forma da ironia — aquele humor ácido que disfarça um cansaço existencial profundo. Pode ainda aparecer como sociabilidade forçada — o riso alto na festa, as redes sociais cheias de registros de felicidade encenada.

Nietzsche dizia que “todo profundo espírito precisa de uma máscara.” Talvez a depressão tenha compreendido essa lição melhor do que ninguém. A necessidade de esconder a dor não é apenas individual, mas social. Vivemos em tempos onde a felicidade virou um dever, um produto de marketing. Se a infelicidade aparece, ela precisa ser logo justificada ou eliminada. Então, quem sente a tristeza persistente aprende a vesti-la com outra face, para que ninguém perceba.

Mas há um custo nisso tudo. A máscara, que em um primeiro momento parece proteger, pode se tornar uma prisão. Quem passa a vida disfarçando a dor, corre o risco de esquecer que é possível falar sobre ela, tratá-la, encará-la de frente. Em algum momento, as máscaras precisam cair — nem que seja em um ambiente seguro, diante de alguém que realmente escuta. Afinal, como disse Simone Weil, “a verdade é a necessidade mais profunda da alma humana.”

E talvez essa seja a grande ironia: para encontrar alívio, é preciso primeiro deixar de fingir.


sexta-feira, 16 de junho de 2023

A Natureza Ama se Esconder – Heráclito Espiritualizado!


Sou do tempo que levávamos a máquina fotográfica a tiracolo ainda com rolo de filme, revelávamos as fotos em papel fotográfico e ficávamos na expectativa pelo resultado das fotos reveladas, gosto até hoje de pegar as fotos impressas e manuseá-las sem a necessidade de abrir arquivos que sabe-se lá onde estão, sabe-se lá onde está “aquela” fotografia, por isto tenho uma mala de lembranças.

Revirando fotografias na minha velha mala de lembranças me deparei com algumas fotos tiradas em pescarias, sempre gostei de pescar, ao ver as fotos sinto até hoje conexão com a natureza, tenho presente em minha memória o poder revigorante e por me proporcionar uma sensação de paz e tranquilidade, o ato de lançar a linha e esperar calmamente por uma captura sempre me ajudou a aliviar o estresse e a tensão acumulados, é um momento para desacelerar, se desconectar das preocupações do dia a dia e encontrar um equilíbrio com a natureza, melhor ainda com a captura de um peixe é um momento de grande emoção e satisfação. A sensação de conquista ao pegar um peixe desejado, especialmente aqueles considerados difíceis de serem capturados, é muito gratificante, estas emoções relembradas foram aflorando e aos poucos fui resgatando lembranças em meu arquivo de memórias.

 

Minha infância foi vivida próximo e em contato quase diário com o mar, sou riograndino papareia, sempre senti uma conexão profunda com o mar e naturalmente desenvolvi uma paixão pela pesca. Sempre que tinha um tempinho livre me dirigia ao ponto mais próximo e aproveitava para arremessar a linha, como é natural nem sempre fisgava algum peixe, esperava pescar algo, mas esperava pelo inesperado, esperava fisgar aquele peixe ideal, nenhum dia era igual ao outro, nenhuma pescaria era igual a outra, quem é pescador sabe disso.

Observador que sou aprendi a encontrar os melhores lugares para pescar, tinha lugares especiais e não gostava de compartilhar a descoberta, conhecia os recifes escondidos e as correntes favoráveis, nenhum dia era igual ao outro, havia sempre algo de inesperado, minha curiosidade e desejo por uma captura inesquecível me impulsionavam a descobrir outros lugares interessantes, sempre esperava pacientemente por um sinal de que minha busca por outro lugar especial havia valido a pena, por tudo isto estava implícito muita aprendizagem. A curiosidade não é suficiente para desvendar os lugares especiais, pois nossa curiosidade é limitada por nossa miopia e muitas vezes queremos ver mais do que podemos é porque precisamos desenvolver confiança na beleza do inesperado.

Aprendi que pescar não é depredar, esgotar o local especial ou não, Deus me livre, desde muito tempo aprendi sobre a importância da pesca sustentável e da preservação dos ecossistemas marinhos, aprendi a respeitar o mar, o respeito me é retribuído com o carinho das ondas mansas, com a brisa com sabor de mar, com sua beleza e encanto, o mar é um presente da natureza e lá em suas profundezas esconde muitos segredos.

Estas pescarias tinham algo a mais, para mim tinham um significado mais profundo, não sabia e hoje sei que sou do tipo de pescador heraclitiano, sou do tipo que gosta de sentar na beira do mar, contemplando as águas que se estendem diante de mim, e me descobri um pensador profundo em busca de sabedoria nas marés e nas ondas, na verdade não é para pegar peixe que me leva ao mar, a pescaria é como um portal que me permite vislumbrar tanto os fenômenos naturais como nosso mundo interior, quem me conhece ou leu alguns de meus artigos sabe que também curto aquele cafezinho e chimarrão na companhia de Deus, enquanto alguns buscam meditar em cerimônias de chá, surfando, caminhando, andando de bicicleta, eu também tenho minhas peculiaridades.

Enquanto observo o vai e vem das águas, posso refletir sobre as palavras do antigo filósofo, Heráclito, que afirmava que tudo está em constante mudança, ele percebeu a verdade nessas palavras ao olhar para as ondas quebrando na praia, assim como ele percebi que nenhum dia de pescaria, assim como cada pescaria não eram e não são iguais.

Cada onda é única, nunca igual à anterior. Elas surgem do mar profundo e, por um breve momento, tomam forma antes de retornarem ao oceano. Este pescador não cansa em contemplar a transitoriedade de cada onda, assim como a efemeridade da própria vida.

Percebi um paralelo entre as ondas e os momentos da existência humana. Assim como as ondas, os momentos passam, dando lugar a outros. Percebi que a vida é uma sucessão de momentos fugazes, cada um diferente do anterior, mas todos destinados a se fundir no fluxo contínuo do tempo, assim como as ondas que vem e retornam ao mar.

Enquanto observava as marés, este pescador heraclitiano entendeu que não se pode segurar as ondas nem deter o tempo, com o passar do tempo compreendi a importância de viver plenamente no momento presente, sabendo que tudo está em constante mudança e que a impermanência é uma característica fundamental da existência.

Percebi que a beleza da vida está na apreciação dos momentos efêmeros, na aceitação da impermanência e na compreensão de que cada instante é valioso e único, assim como cada onda quebrando na praia.

Sempre apreciei passear a beira mar com tempo nublado ou sob o sol, melhor sob sol que cria uma atmosfera cálida e agradável, com sua luz refletida nas águas proporcionando uma paisagem deslumbrante, com brilhos dourados proporcionando cenários perfeitos para minhas caminhadas ou simplesmente apreciar sua beleza natural, as gaivotas com sua presença graciosa e elegante, com seus voos suaves e chamados característicos. Suas asas brancas contrastando com o azul do céu e do mar, adicionando uma atmosfera pitoresca ao cenário com seu som ao fundo criando uma sensação de tranquilidade.

Até hoje este pescador heraclitiano continua a contemplar as águas e, com o coração cheio de serenidade, sigo meu caminho como um observador atento das mudanças do mundo. Hoje sei que, assim como as ondas, também faço parte desse fluxo eterno, navegando pelas águas da existência, sempre em busca de sabedoria e compreensão.

E ali, na beira do mar, este pescador heraclitiano encontrou um lugar de quietude e reflexão, conectando-se profundamente com a natureza e as verdades universais que ela revela, percebi que Deus é um filósofo natural, que Ele sempre esteve e está em todos lugares especiais ou não, fisgando peixes ou não, Deus está na natureza e Ele como a natureza amam se esconder, logo vou explicar o que penso a partir do pensamento heraclitiano.

A frase "a natureza ama se esconder" é uma citação atribuída ao filósofo pré-socrático Heráclito nascido em Éfeso na Turquia. Essa citação é uma parte da filosofia heraclitiana que aborda a ideia de que a natureza opera de maneiras sutis e ocultas, assim como Deus, assim é Deus.

Heráclito acreditava que o mundo era um eterno devir, ele acreditava que a natureza é caracterizada por uma constante mudança e transformação, onde tudo está em fluxo. Ele via a realidade como um processo dinâmico, onde opostos se encontram e se transformam mutuamente. Nesse contexto, a frase "a natureza ama se esconder" pode ser interpretada como a ideia de que a natureza não se revela completamente, mas sim se oculta em seu constante movimento e transformação.

Para Heráclito, a compreensão da natureza exige uma observação atenta e uma percepção das mudanças sutis e ocultas que ocorrem ao nosso redor. Ele acreditava que a verdadeira sabedoria consistia em compreender a natureza mutável do mundo e se adaptar a ela.

Essa citação de Heráclito reflete sua visão filosófica sobre a natureza como um fenômeno em constante movimento e transformação, que exige uma atenção cuidadosa para ser compreendido em sua totalidade, para mim este filósofo pré-socrático é um dos mais brilhantes por perceber o mundo e a vida em seus movimentos esperados ou inesperados, tal como um pescador que diante do poderoso mar está atento a sua movimentação.

Estamos longe de perceber o que realmente ocorre a nossa volta, sei que vemos pouco do que ocorre seja do micro, seja do macro, quando conseguimos perceber é porque já houveram mudanças, é quando nossa percepção foi arrebatada pelo estranhamento causado pela dinâmica da constante transformação, a passagem do tempo é percebida pela transformação da natureza que nos cerca, muitas vezes damo-nos conta tardiamente, há complexidade em torno de nós, a dimensão da natureza é esmagadora, a resposta para tanta beleza na criação é de haver um Criador.

Acredito na corrente de pensamento que Deus é o criador do universo e, portanto, possui um conhecimento profundo e perfeito de todas as leis naturais e fenômenos que ocorrem nele. Nessa visão, Deus é um filósofo natural supremo, que possui uma compreensão completa e abrangente da natureza e de como ela funciona.

Na minha perspectiva, Deus é a fonte de toda sabedoria e conhecimento, incluindo aqueles relacionados à filosofia natural. Acredito que Deus tenha estabelecido as leis naturais que regem o universo e que sua sabedoria transcende a compreensão humana.

As pescarias seja onde forem no mar ou rio são ambientes propícios para a conexão espiritual. Durante as pescarias aproveito o tempo em meio à tranquilidade da natureza para refletir, meditar e até mesmo conversar com Deus, buscando uma conexão mais profunda com o divino, tentando em minha humildade descortinar os segredos que a natureza procura esconder.

As pescarias me oferecem um espaço de silêncio e serenidade, onde é possível me sentir mais próximo da presença divina, diante da imensidão do mar, a beleza dos rios ou a calma dos lagos evocam em mim um senso de reverência e admiração, me proporcionando um ambiente propício para a espiritualidade, nesta vibração percebo que o véu que cobre os segredos da natureza é tirado aos poucos me revelando uma face divina.

Aproveito para agradecer pelas bênçãos recebidas, faço minhas orações, busco orientação, as vezes procuro encontrar conforto ou simplesmente vou para compartilhar meus pensamentos e emoções com Deus. Essa comunicação com o divino me traz uma sensação de paz interior, propósito e conexão com algo maior.


 

Acredito que cada pessoa tenha sua própria forma de vivenciar e expressar sua espiritualidade, as pescarias são místicas e podem ser um momento especial para esse encontro com o divino. É uma oportunidade para unir a paixão pela pesca à busca por uma conexão espiritual mais profunda, permitindo que a natureza seja o cenário para essa conversa com Deus, lembrando que a “natureza ama se esconder”, as descobertas são como presentes e brindes, aprendi a apreciar minhas conquistas, as pescarias tem sua própria dinâmica de autodescobrimentos, o devir é incerto e os acontecimentos inesperados são aguardados por simples beleza e confiança, aprendi a presentear-me com um pouco do meu tempo, neste tempo de presente me foi possível desvendar segredos e conquistar um pouco mais de mim, como disse não é para pegar peixe que me leva ao mar.