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quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Reflexos de Si

Às vezes eu me reconheço mais no que não sou do que no que sou.

Vejo meu reflexo numa vitrine, num espelho de elevador, numa foto antiga — e sempre há um pequeno atraso entre a imagem e a sensação. A imagem afirma: sou eu. A sensação pergunta: será mesmo?

Os reflexos de si não vivem apenas no espelho. Estão nas pessoas que me irritam sem motivo claro. Nas que admiro sem entender por quê. Estão nas frases que me doem como se eu mesmo as tivesse escrito. Estão nos silêncios alheios que parecem meus.

Descobri, com certo desconforto, que quase tudo o que julgo no outro é um espelho mal polido de algo que ainda não aceitei em mim.

O reflexo não é cópia. É distorção com intimidade.

No cotidiano, isso aparece em gestos mínimos: quando me vejo paciente num amigo e percebo minha própria impaciência; quando admiro a coragem de alguém e sinto a minha própria covardia pedindo tradução; quando critico uma vaidade e reconheço a minha pedindo desculpa.

Carl Jung dizia que não nos tornamos iluminados imaginando figuras de luz, mas tornando consciente a escuridão. E talvez os reflexos de si sejam exatamente isso: pequenas lanternas apontadas para dentro por mãos que não são nossas.

O problema é que preferimos espelhos confortáveis. Queremos reflexos que confirmem, não que revelem. Queremos nos ver inteiros quando ainda estamos em construção.

Mas o reflexo verdadeiro sempre vem um pouco torto. Ele não mostra quem eu sou — mostra quem estou sendo.

E isso dói.

Porque o reflexo de si não acusa, mas também não protege. Ele apenas devolve. E o que ele devolve nem sempre combina com a história que conto sobre mim.

Talvez maturidade seja aprender a conversar com os próprios reflexos sem quebrar o espelho.

Aceitar que não somos unidade, mas composição. Que não somos rosto, mas coleção de ângulos. Que não somos identidade, mas tentativa.

No fim, percebo algo simples e estranho: eu não me encontro quando me afirmo — eu me encontro quando me reconheço nos lugares onde não queria estar.

E então entendo que os reflexos de si não servem para confirmar quem somos.
Servem para nos lembrar que ainda estamos nos tornando.

segunda-feira, 13 de outubro de 2025

Negação da Existência

Sobre o Abismo do Ser

Outro dia, enquanto esperava meu café esfriar, fui surpreendido por uma pergunta que me veio como uma mosca irritante: “E se tudo isso não passar de um grande nada?” Olhei ao redor, vi as pessoas apressadas, os carros buzinando, o barista distraído com o celular. Parecia tudo tão sólido, tão presente. Mas havia uma brecha entre essas cenas cotidianas que deixava espaço para a dúvida: o que sustenta nossa existência? E, mais ainda, o que significa negá-la?

A negação da existência não é só uma provocação filosófica; é uma janela para um questionamento profundo sobre o que somos e como nos situamos no mundo. Essa ideia, tão antiga quanto as primeiras reflexões humanas, encontra ecos em pensadores como Parmênides, que acreditava na impossibilidade do “não-ser,” e em Sartre, que via o nada como parte integrante do ser. Mas, no dia a dia, como lidamos com esse abismo que pode, às vezes, nos fazer sentir que tudo é um vazio sem sentido?

O Nada Como Fundamento

Quando falamos em negar a existência, não se trata apenas de dizer "nada existe" em termos absolutos. Há nuances. A negação pode ser um refúgio diante da complexidade da vida, uma recusa em aceitar o peso de ser. Friedrich Nietzsche tocou nesse ponto ao falar do niilismo, essa negação profunda que surge quando perdemos os fundamentos que sustentam nosso sentido de realidade. Quando nada importa, qualquer coisa se torna suportável — ou insuportável.

No cotidiano, é fácil perceber traços dessa postura. Pense em quem evita compromissos, projetos ou relacionamentos, dizendo “nada disso faz diferença.” Essa negação, disfarçada de indiferença, pode ser uma forma de autoproteção, mas também um abismo que engole possibilidades. Talvez a negação da existência não seja um afastamento do mundo, mas uma forma de encará-lo de frente, questionando seus alicerces.

O Contraponto da Filosofia

É curioso como a filosofia, mesmo lidando com ideias tão desconcertantes, não busca destruir o sentido, mas ampliá-lo. Simone de Beauvoir, em Por uma Moral da Ambiguidade, argumenta que negar a existência pode ser uma escolha válida, mas que aceitar a complexidade do ser é mais corajoso. A vida, com todas as suas contradições, é um palco de possibilidades. Negá-la completamente seria como assistir a um filme de olhos fechados: o movimento está ali, mas a experiência se perde.

Para Beauvoir, a negação total é uma forma de abdicar da liberdade. Ao negar o mundo, negamos também a nós mesmos, nossos desejos e nossa capacidade de transformar. A aceitação, por outro lado, é uma afirmação do potencial humano. O desafio está em encontrar um equilíbrio entre encarar o nada e reconhecer o que emerge dele.

A Negação no Dia a Dia

Voltando ao café frio e ao barista distraído, percebo como essa reflexão ecoa nas pequenas coisas. Quantas vezes nos desconectamos do momento presente, negando sua existência? No fundo, talvez a negação não seja a ausência do ser, mas uma forma de evitá-lo. É mais fácil negar que nos importamos do que admitir o medo de sofrer, mais simples fingir que algo não existe do que lidar com sua complexidade.

Ainda assim, há beleza em enfrentar essa negação. Como escreveu Clarice Lispector, “o que me importa é o mistério das coisas.” Negar pode ser um ponto de partida para reconhecer o mistério e, quem sabe, encontrar sentido onde menos esperamos.

A negação da existência não é apenas um conceito abstrato, mas uma postura que, em algum momento, todos assumimos diante da vida. Ela nos desafia a repensar o que é real, o que é importante e como navegamos pelas incertezas do ser. Negar pode ser um escape, mas também uma oportunidade. Afinal, como diria Sartre, é no vazio que encontramos a liberdade de preencher o mundo com significado.


sábado, 11 de outubro de 2025

Existência Mínima


A existência mínima não é a ausência de vida, mas a vida reduzida ao essencial. É o momento em que a gente se pergunta: “o que é que realmente importa?” Pode ser um tempo de desemprego, de luto, de ruptura ou até de escolha voluntária por simplicidade. Quando tudo se desfaz ao redor, restam só as bases: o corpo, a respiração, a memória, e talvez uma ideia de futuro — ainda que turva.

 

No cotidiano, essa existência mínima aparece mais do que se imagina. A pessoa que vive num quartinho alugado com poucos móveis, mas que acorda cedo e varre a calçada como quem cuida de um castelo. O idoso que já não pode andar muito, mas se alegra ao receber a luz da manhã na varanda. A jovem que perdeu quase tudo, menos a capacidade de rir de si mesma. Essas pessoas não vivem menos. Vivem no limite daquilo que sustenta a dignidade.

 

Não se trata de romantizar a pobreza ou o sofrimento, mas de reconhecer que há vida — e às vezes uma vida intensa — nos espaços mais estreitos da existência. O mundo moderno nos ensinou que precisamos de muito para sermos alguém. Mas há quem se torne mais inteiro quando perde quase tudo.

 

O filósofo Henry David Thoreau, que escolheu viver por um tempo numa cabana isolada no mato, escreveu:

“Simplifica, simplifica, simplifica! Eu digo: que seus assuntos sejam dois ou três, e não cem ou mil.”

 

A existência mínima pode ser esse exercício de redução, não por falta, mas por sabedoria. A chance de descobrir que entre o ter e o ser, às vezes o ser precisa de pouco — mas esse pouco tem que ser verdadeiro.

 

Se você estiver vivendo uma existência mínima agora, talvez esteja mais perto de si do que nunca.


terça-feira, 7 de outubro de 2025

Espelho Quebrado

Reflexos do Eu na Era das Telas

Há quem diga que o celular virou um espelho de bolso. Mas diferente daquele do banheiro, onde a gente se encara meio sonolento e sem filtro, esse novo espelho tem brilho, retoques e até música de fundo. Nele, a imagem aparece como queremos ser vistos — e não exatamente como somos. O problema é que, depois de tanto se olhar através desse espelho digital, muita gente já não sabe mais se está se mostrando ou se está se buscando.


Lacan chamava de “estádio do espelho” o momento em que o bebê, ainda descoordenado e fragmentado, se reconhece pela primeira vez em sua imagem refletida. Ele sorri, aponta, celebra — porque acredita ter encontrado ali uma unidade de si mesmo. Mas é uma unidade ilusória: a imagem é só uma projeção, não o corpo real. A partir daí, o sujeito passa a se construir através do olhar do outro, tentando ser aquilo que imagina ser visto.

Hoje, esse espelho se multiplicou em mil telas. Cada selfie é um pequeno estádio do espelho repetido: “sou eu ali?” — a pergunta que o bebê fez diante do reflexo agora ecoa no feed do Instagram. Só que o olhar do “outro” não é mais apenas o da mãe ou do cuidador: é o de centenas de seguidores, amigos e estranhos. Cada curtida confirma (ou nega) o reflexo que escolhemos mostrar. A identidade, que já era uma invenção instável, se torna um mosaico de olhares.

No cotidiano, isso aparece nas pequenas angústias: o adolescente que apaga uma foto por não ter recebido curtidas suficientes; o adulto que se sente menor ao ver a viagem perfeita do colega; a mãe que transforma o filho em conteúdo, buscando reconhecimento materno no olhar digital. Todos, de algum modo, estão diante do mesmo espelho que Lacan descreveu — só que agora ele é coletivo e global. A fragmentação do sujeito deixou de ser teórica e virou notificação.

O filósofo e psicanalista francês via nesse momento um ponto decisivo da formação do “eu”: a imagem externa organiza o caos interno. Mas se o espelho se quebra em mil pedaços, o reflexo também se dispersa. O sujeito contemporâneo, exposto a tantas versões de si, corre o risco de não se reconhecer mais em nenhuma. A unidade, que já era ficção, se dissolve em performance.

Talvez o desafio de hoje não seja “ser visto”, mas reaprender a se ver — com todas as imperfeições que o espelho sem filtro revela. Porque, como lembrava Lacan, o “eu” não é o que se mostra, mas o que se constrói entre o olhar e o desejo, entre o reflexo e o real. E quem sabe, um dia, a gente consiga olhar o espelho — seja ele de vidro ou de tela — e dizer: “sim, esse também sou eu, ainda que incompleto”.


sábado, 20 de setembro de 2025

Nada de Tudo

Tem dias em que a gente sente tudo e entende nada. Outros em que não sentimos nada — e entendemos tudo. Há momentos em que a vida parece um grande ruído, uma pilha de tarefas, afetos, promessas e medos, e a única coisa que queremos é desligar o mundo. Mas e se o sentido da vida estiver justamente aí — no nada de tudo?

Vivemos tempos de excesso: de informação, de opinião, de comparação, de desejo. A cada passo, a sensação de que estamos perdendo algo. A cada silêncio, o incômodo da ausência de estímulo. No entanto, é no vazio que algo essencial começa a se formar. O "nada" não é ausência, mas espaço fértil.

O filósofo Martin Heidegger abordou essa questão ao refletir sobre o nada como aquilo que nos revela o ser. Para ele, é no confronto com o nada — diante da angústia, por exemplo — que nos damos conta da existência como tal. Não da existência de uma coisa ou outra, mas do próprio existir. Em seu ensaio “O que é metafísica?”, ele escreve: “O nada revela-se com a angústia, mas não como um ente. O nada é a completa nulidade de todos os entes.”

Em outras palavras, é quando tudo perde o brilho, o sentido ou a direção que podemos enxergar o que realmente está lá — aquilo que permanece quando tudo vai embora. Às vezes é uma lembrança, uma respiração profunda, uma xícara de café esquecida ainda morna na borda da pia.

O nada de tudo, então, não é derrota, nem abandono. É o ponto de virada. É quando o corpo já não finge, a alma se recusa a obedecer, e surge a possibilidade de começar — sem o peso do que era, sem o medo do que vem.

Talvez a verdadeira liberdade não seja ter tudo, mas poder perder tudo e ainda assim não se perder de si.


terça-feira, 16 de setembro de 2025

Êxtase Estético

O Limiar da Presença e a Dilatação do Ser

O êxtase estético é uma experiência que transborda os limites do cotidiano, um momento em que a consciência parece expandir-se e o sujeito se dissolve na intensidade da percepção. Diferente do prazer comum, que é passível de comparação e análise, o êxtase estético não se mede nem se traduz em palavras fáceis — ele acontece no limiar entre o sentido e o sem-sentido, onde a realidade parece suspensa.

Para entender essa experiência, podemos recorrer a Edmund Husserl, o pai da fenomenologia, que propôs a ideia da "epoché": a suspensão do juízo natural para alcançar a essência das coisas. No êxtase estético, algo semelhante ocorre — a "epoché" se dá em relação às preocupações práticas e racionais do mundo, e o sujeito suspende sua habitual relação utilitária para mergulhar em uma percepção pura, onde o objeto estético se apresenta como fenômeno em sua totalidade.

Mas esse êxtase não é apenas uma contemplação passiva. Inspirando-se na filosofia de Henri Bergson, podemos pensar o êxtase estético como uma dilatação do tempo vivido, uma "duração" onde passado, presente e futuro se entrelaçam em uma sensação contínua e indivisível. É nesse fluxo que o sujeito experimenta uma forma intensa de presença — um estar-no-mundo que é, simultaneamente, abandono e plenitude.

O êxtase estético, portanto, inaugura um espaço onde o ser se expande e o mundo se transforma em uma espécie de campo vibratório, onde a beleza não é um atributo fixo, mas um evento dinâmico. É a arte e a experiência estética que, nesse sentido, revelam uma dimensão do real que a razão instrumental não alcança — um real pulsante, quase sagrado, que convoca a alma para além de si mesma.

Assim, o êxtase estético não é um simples deslumbramento, mas um portal para um modo mais profundo de ser, um reencontro com o mistério do existir. Ele nos lembra que, em meio à rotina e à racionalidade, permanece a possibilidade de um abandono criativo, um instante em que o tempo se dissolve e a vida se faz presente em sua intenção.

quinta-feira, 17 de julho de 2025

Ideologia do Trabalho

O que nos move e o que nos esgota

Nunca saímos do momento presente! Esta frase não sai da minha mente, ela fica martelando a cabeça o tempo todo, eis que meus pensamentos me conduziram naquilo que a maioria das pessoas faz que é trabalhar, o ser humano de maneira geral adquire valor através do trabalho, pelo menos é assim que nosso mundo entende, mas nem sempre o trabalho foi visto como valor. Já foi castigo divino, obrigação de escravos, necessidade dos pobres. Hoje, ele se confunde com identidade: quem é você? “Sou dentista.” “Sou entregador.” “Sou gerente.” O verbo “ser” aparece antes mesmo de qualquer outra coisa — como se o que fazemos definisse quem somos. Na verdade, penso que estamos por enquanto, agora uma coisa e daqui a pouco outra.

Mas de onde vem essa ideia? Por que tantas pessoas se sentem culpadas quando não estão produzindo? Por que o desemprego causa vergonha, mesmo quando não é culpa de ninguém?

A resposta começa com um olhar sociológico: o trabalho é uma construção social. Ele não é natural, nem sempre teve o mesmo sentido. A forma como pensamos e sentimos o trabalho é atravessada por ideologias — sistemas de crenças que nos ensinam o que é certo, o que é bonito, o que é digno — e também por experiências psicológicas que marcam profundamente nossa relação com o mundo e conosco.

 

A maquiagem ideológica do trabalho

Na sociedade capitalista, o trabalho é exaltado como virtude. Desde pequenos, aprendemos que “quem trabalha vence” e que “o esforço traz recompensa”. Essas frases soam nobres, mas muitas vezes escondem realidades duras.

Um exemplo atual é o do entregador de aplicativo. Ele pedala o dia inteiro, sem salário fixo, sem direitos, sem proteção social. Mas as empresas o chamam de “empreendedor”. Essa ideia é uma maquiagem ideológica: transforma um trabalhador precarizado em um herói moderno da liberdade. Ao dizer que ele “é seu próprio patrão”, esconde-se que ele está preso a um sistema algorítmico, instável e impessoal.

Essa ideologia do empreendedorismo individual vende liberdade, mas entrega solidão e risco. A responsabilidade pelo sucesso ou fracasso recai apenas sobre o sujeito, nunca sobre o sistema.

 

A psicologia de quem se sente culpado por não render

A consequência disso aparece no plano psicológico. Muitos trabalhadores internalizam a ideia de que não estão se esforçando o suficiente. Mesmo exaustos, pensam que precisam “fazer mais”, “entregar mais”, “ser melhores”. O cansaço vira fracasso pessoal.

Além disso, vivemos hoje sob a promessa do “trabalho com propósito”. Não basta mais pagar as contas — o trabalho tem que ser apaixonante. Essa exigência cria angústia. Afinal, e se meu trabalho não for incrível? E se eu não amar o que faço? A culpa bate como se a vida estivesse errada.

E o desemprego, então? Ele não é só falta de renda — é quase um luto. A pessoa perde não só o salário, mas também o sentido, o pertencimento, a rotina. A ideologia do mérito ensina que “quem quer, consegue”, e o desempregado passa a se sentir um fracassado, mesmo sendo vítima de uma crise, de uma reestruturação, de algo muito maior do que ele.

Não se pode ignorar que há religiões que associam o sucesso profissional e a melhoria das condições de vida a uma espécie de reconhecimento ou bênção divina. Nesse contexto, aqueles que não conseguem progredir, obter um emprego digno ou melhorar sua situação econômica podem acabar se sentindo excluídos desse suposto favor divino. Psicologicamente, isso pode gerar um profundo sentimento de rejeição, como se o amor de Deus não os alcançasse. O resultado é uma carga emocional de frustração, derrota e desânimo — sentimentos que, longe de impulsionar a pessoa, muitas vezes a paralisam e dificultam ainda mais seu progresso.

 

A sociologia que desnaturaliza tudo

A sociologia nos convida a olhar tudo isso com outros olhos. Ela mostra que o trabalho, como o conhecemos, foi moldado por séculos de disputas, transformações e imposições culturais. A ideologia faz com que certas formas de trabalho sejam vistas como “superiores” (advogado, médico), enquanto outras, essenciais, sejam desvalorizadas (faxineiro, motorista, cuidadora).

O sociólogo Max Weber, por exemplo, analisou como a ética protestante ajudou a criar a ideia moderna do trabalho como dever moral. Já Karl Marx denunciou a alienação: o trabalhador moderno perde o controle sobre o que produz, e ainda assim é convencido de que deve se orgulhar disso. Pierre Bourdieu mostrou como o trabalho também é um capital simbólico — ele dá prestígio, status, reconhecimento, ou a falta disso.

E entre os brasileiros, José de Souza Martins nos lembra que o trabalho é, ao mesmo tempo, meio de inclusão e exclusão. Ele pode dignificar ou degradar. Pode dar sentido ou sugar a alma.

 

Entre o dever e a identidade

No fim das contas, o trabalho está no centro de uma encruzilhada. Ele é necessário, mas também pode ser opressor. Pode ser fonte de autoestima ou de adoecimento. E muitas vezes, as ideologias nos ensinam a amar o que nos explora, e a nos culpar pelo que nos falta.

Por isso, entender o trabalho não é só falar de salário, função ou carreira. É também entender como nos construímos como sujeitos — e como podemos nos libertar, aos poucos, da ideia de que o trabalho define todo o nosso valor.

Talvez seja hora de recuperar o sentido mais amplo da vida: trabalhar, sim, mas também viver, pensar, sentir, pertencer. Nem toda vocação precisa ter crachá. E nem todo sucesso se mede por produção.


sábado, 12 de julho de 2025

Priming

A sugestão invisível do ser



Estava sorvendo meu mate quente entre as mãos e, sem perceber, já estava me sentindo mais aberto à conversa. Algo no calor, no vapor subindo, na pausa do gesto, parecia me convidar ao acolhimento. Logo pensei, não é só costume ou tradição — é como se o corpo, ao sentir o calor, se lembrasse de como é bom confiar. E é aí que me veio a história do priming: aquele efeito curioso em que estímulos sutis moldam nossos pensamentos e atitudes, mesmo sem a gente notar. Como um mate que, antes de esquentar por dentro, aquece por fora e muda o jeito que olhamos o outro.

Vivemos sob a impressão de que escolhemos. A cada passo, a cada palavra, imaginamos que uma vontade sólida nos guia, que um “eu” pensante, firme e indivisível, decide o rumo da vida. No entanto, a teoria do priming, oriunda da psicologia cognitiva, oferece um espelho desconcertante: talvez não sejamos tão senhores de nossas decisões quanto acreditamos.

Priming é a influência sutil — e muitas vezes inconsciente — de estímulos prévios sobre nossas ações e pensamentos. Ao sermos expostos a uma palavra, imagem ou ideia, reagimos ao mundo de maneira alterada, mesmo sem nos darmos conta disso. A mente responde a sugestões silenciosas. Mas o que esse fenômeno revela filosoficamente?

I. O eu moldável: sujeito ou efeito?

O conceito de sujeito autônomo, herança iluminista, pressupõe uma consciência centrada, capaz de deliberar racionalmente. No entanto, se um simples cartaz com palavras de gentileza aumenta a probabilidade de alguém ser educado, o que resta da liberdade?

O filósofo francês Michel Foucault já desconfiava da ilusão de um sujeito fixo. Para ele, somos atravessados por discursos, moldados por regimes de saber e poder. O priming, nesse contexto, seria a evidência científica de que nossos gestos nascem de gramáticas invisíveis, de redes simbólicas que operam abaixo da superfície da consciência.

II. Liberdade sob influência: a ilusão do espontâneo

Se somos suscetíveis a influências mínimas, o livre-arbítrio seria uma ficção? Não exatamente. O priming não determina, mas inclina. Como uma brisa que desvia levemente o curso de um barco, ele mostra que nossas decisões não surgem no vácuo. Elas são respostas condicionadas por contextos anteriores. A liberdade, então, não é absoluta — é situada, contextual, e talvez até relacional.

A verdadeira pergunta filosófica não é "somos livres?", mas: de que somos feitos? Se memórias, emoções e estímulos moldam nossos gestos, talvez a identidade não seja uma estrutura, mas um campo de forças, um jogo de sugestões internas e externas.

III. Priming como estética do mundo: o invisível que age

Há algo poético no fato de que uma palavra lida em silêncio possa modificar uma atitude. É como se o mundo sussurrasse possibilidades, e nós, atentos ou não, dançássemos ao ritmo de suas sugestões.

Nesse sentido, o priming toca a filosofia de Merleau-Ponty, quando este afirma que o corpo é a abertura ao mundo — não há separação radical entre o sujeito e o ambiente. O corpo percebe, responde, antecipa. Ele não espera a consciência: ele age. O priming, então, é uma forma de estética da existência — o modo como o mundo nos pinta, antes mesmo de sabermos que estamos na tela.

IV. Filosofia do cuidado: cultivar o invisível

Se somos permeáveis ao que nos rodeia, talvez a ética esteja em cuidar do ambiente que nos constitui. Escolher palavras, imagens, sons e silêncios que nos moldem de maneira mais consciente. Assim como a alimentação influencia o corpo, os estímulos moldam o espírito.

A filosofia contemporânea não pode ignorar o priming — não como mais um fenômeno psicológico, mas como uma chave para repensar o que significa ser humano num tempo em que o inconsciente se revela moldável, acessível e, muitas vezes, manipulado.

A liberdade depois do priming

O priming não anula a liberdade; ele a problematiza. Mostra que a autonomia talvez esteja menos em resistir a influências e mais em compreendê-las. Saber que somos atravessados por sinais invisíveis é o primeiro passo para cultivar uma consciência mais ampla e gentil.

O filósofo não é mais apenas o que pensa, mas o que se pergunta: “o que está pensando por mim neste exato momento?”

quinta-feira, 10 de julho de 2025

Qualia

O que é sentir vermelho?

Você já tentou explicar a alguém o que é “vermelho”? Não o nome da cor, nem o comprimento de onda da luz, mas o que é ver vermelho. O que é essa sensação que acontece entre o olhar e o entendimento? A dificuldade em explicar isso revela algo curioso: há experiências que só podem ser sentidas, não traduzidas. Os filósofos deram a isso um nome estranho, mas elegante: qualia.

Os qualia são as tintas invisíveis que coloram nossa consciência. Quando você toma um café amargo e quente, o sabor é mais do que química na língua. É uma sensação sua, que só você sabe como é. Quando escuta a risada de um filho, o que brota dentro de você não é apenas um som identificado pelo cérebro, mas algo que vibra por dentro, com um tom que só você reconhece. E quando sente dor, medo ou alegria, há uma qualidade que escapa a qualquer análise de sangue, a qualquer exame de imagem. Ela não é mensurável. É vivida.

Link do youtube de músicas agradáveis para ouvir enquanto lê:

https://www.youtube.com/watch?v=cIZp868Eeic&list=RDcIZp868Eeic&start_radio=1

Prosseguindo. Isso cria situações engraçadas: você pode saber que alguém está vendo a mesma flor que você, mas nunca saberá se ela está vendo a mesma cor. Pode até discordar. “Isso é rosa-choque.” “Não, é fúcsia!” Mas a discussão é só sobre nomes. A verdadeira dúvida é: será que o que você sente como rosa é o que eu sinto como rosa?

No cotidiano, os qualia aparecem nos momentos mais comuns — e mais misteriosos. Um gosto que traz saudade de infância. Um cheiro que evoca uma pessoa. O som de uma música que parece tocar um lugar exato dentro de você. Nenhuma inteligência artificial, por mais avançada, sente isso. Ela pode dizer “isto é jazz melancólico”, mas nunca vai sentir a melancolia.

O mais espantoso é que todos nós vivemos cercados de qualia, mas raramente nos damos conta. É como respirar: só notamos quando falta. E, às vezes, nos afastamos tanto de nós mesmos que deixamos de escutar esse mundo sensível que pulsa por dentro. Sentimos menos, ou sentimos no automático. Quando isso acontece, a vida vira apenas sequência de tarefas. Tudo continua funcionando… mas perde a cor.

O filósofo Thomas Nagel provocou o mundo com uma pergunta simples: “Como é ser um morcego?”. Não para entender o animal, mas para lembrar que há uma diferença entre saber tudo sobre uma coisa e sentir a coisa. A ciência explica muita coisa. Mas os qualia são um lembrete de que o mundo vivido não cabe todo em fórmulas. Como diz o filósofo brasileiro Luiz Felipe Pondé:

      “A experiência não é o fato em si, mas o modo como ele nos atravessa.”

No fim das contas, os qualia são como janelas para dentro: ninguém vê o que você sente, mas é isso que te faz ser quem você é.

quarta-feira, 2 de julho de 2025

Essencialismo

 

Estava aqui pensando: ainda somos o que nascemos para ser?

A gente costuma ouvir desde pequeno que certas pessoas "nasceram para aquilo". Tem gente que "já nasceu líder", "tem o dom do cuidado", ou "é artista desde o berço". E o curioso é que, às vezes, a própria pessoa acredita nisso também. Mas será mesmo que existe algo em nós que já vem pronto, desde sempre? Algo essencial que define quem somos, o que queremos, e como devemos viver? Foi pensando em uma conversa sobre profissões que não combinam com a pessoa, sobre jeitos de ser que "não têm nada a ver com ela", que o tema do essencialismo me voltou à cabeça.

Na filosofia, o essencialismo é essa ideia de que as coisas — inclusive as pessoas — têm uma essência fixa e imutável. Que há algo dentro de nós, anterior a qualquer escolha, que determina o que somos de verdade. É uma noção antiga, com raízes em Platão e Aristóteles. Para Platão, existiria um mundo das ideias perfeitas, e tudo que vemos é uma cópia imperfeita daquilo. Para Aristóteles, cada ser tem uma essência que define seu propósito: a semente tem a essência da árvore, o cavalo tem a essência de correr, o ser humano, a de pensar.

Mas o essencialismo não ficou lá na Grécia Antiga. Ele atravessa os séculos e se esconde nas frases que repetimos no dia a dia: "mulher que é mulher cuida da casa", "homem que é homem não chora", "você não nasceu pra isso". Ou seja, usamos a ideia de essência pra justificar o que as pessoas podem ou não podem ser. E isso pode ser bem limitador.

O essencialismo também aparece com força nos debates sobre cultura, imigração e emigração. Quando se diz, por exemplo, que “o brasileiro é naturalmente caloroso” ou que “o europeu é frio por essência”, estamos usando uma lente essencialista para descrever comportamentos que, na verdade, são históricos, sociais e aprendidos. Esse tipo de visão pode ser perigoso, pois congela culturas em estereótipos e dificulta o acolhimento de quem migra. Um imigrante é, muitas vezes, visto como alguém que “não pertence”, como se fosse impossível ele se adaptar sem “trair sua essência”. Já quem emigra pode sofrer cobranças para “não esquecer suas raízes”, como se fosse errado mudar. O essencialismo cultural alimenta fronteiras invisíveis, mesmo quando os passaportes dizem que a viagem foi feita. Entender que identidades culturais são flexíveis e híbridas permite que pessoas vivam o que são hoje, sem serem prisioneiras do que se espera que sejam.

As questões de gênero também são fortemente atravessadas pelo pensamento essencialista. Quando se diz que homens são naturalmente racionais e mulheres, naturalmente emocionais, está se ignorando o papel das construções sociais e das expectativas culturais. Crianças são criadas com brinquedos, roupas e ideias diferentes desde o berço, e depois essas diferenças são lidas como “naturais”. Pior: pessoas trans ou não-binárias muitas vezes são vistas como “contra a natureza” simplesmente porque não se encaixam nos padrões fixos do que se supõe ser um homem ou uma mulher. Mas o gênero, como tantas outras dimensões da vida humana, pode ser visto como uma experiência vivida, múltipla e fluida, e não como algo pré-definido por um manual biológico. Questionar o essencialismo de gênero é abrir espaço para mais liberdade, mais respeito e mais possibilidades de ser.

O existencialismo, especialmente com Jean-Paul Sartre, vai criticar essa visão. Para ele, a existência vem antes da essência. Ou seja, nós não temos uma essência pronta — nós a construímos com nossas escolhas. Não há um “ser mulher” ou “ser homem” dado por natureza, mas um tornar-se. Simone de Beauvoir diria: “Não se nasce mulher: torna-se mulher”. Aqui, a liberdade entra em cena. Somos responsáveis pelo que fazemos com o que fizeram de nós.

No cotidiano, pensar fora do essencialismo significa permitir que uma menina queira ser mecânica e que um menino possa gostar de balé sem que ninguém diga que “isso não combina com ele”. É aceitar que alguém pode mudar de carreira aos 50 anos, ou que uma pessoa tímida pode se tornar uma excelente oradora. O perigo do essencialismo é que ele parece inocente, mas acaba sustentando preconceitos, desigualdades e até violências.

O filósofo contemporâneo brasileiro Vladimir Safatle chama atenção para como o essencialismo serve muitas vezes para conservar estruturas de poder:

“Toda vez que alguém disser que algo é da ‘natureza humana’, é bom desconfiar — essa frase costuma ser o fim da conversa e o início da dominação.”

Nas redes sociais, o essencialismo ganha uma vitrine global e um microfone potente — ali, traços individuais ou culturais são frequentemente reduzidos a rótulos rápidos e julgamentos prontos: “isso é típico de mulher”, “isso é coisa de latino”, “fulano tem alma de artista”, como se um vídeo curto ou uma frase de efeito revelasse a essência profunda de alguém. Nesse palco planetário, onde bilhões se observam em tempo real, o essencialismo é reforçado pelos algoritmos que preferem identidades fixas e previsíveis, fáceis de segmentar e vender. O perigo é que, sob o pretexto da autenticidade, muitos acabam encenando versões de si mesmos que se encaixem nas expectativas do público — virando personagens de uma essência construída para ser consumida.

Desconfiar do essencialismo não significa negar que temos traços, preferências, temperamentos. Mas significa entender que isso tudo é matéria viva, que muda com o tempo, com os encontros, com as experiências. Talvez não sejamos aquilo que nascemos para ser — talvez sejamos aquilo que ousamos construir em nós mesmos.

E isso é tão mais libertador, não?

domingo, 8 de junho de 2025

Aparentemente Insuportável

Vou falar sobre suportar o insuportável...então, vamos refletir...

Tem dias que a gente acorda e já sente um peso no peito, como se o ar fosse feito de chumbo. Tudo parece demais: a reunião no trabalho, a conta que venceu, o silêncio no quarto vazio. Às vezes nem é o que acontece fora, mas dentro. Uma tristeza sem nome. Uma ausência que não se preenche. Uma saudade que lateja. E a gente pensa: isso é insuportável. Mas é mesmo?

No cotidiano, chamamos de insuportável aquele chefe que não escuta, o trânsito que não anda, a fila que não anda, o filho que grita, a solidão que cala. O curioso é que a palavra carrega em si o veredito: “não se pode suportar”. E mesmo assim, seguimos. Chorando no banheiro, respirando fundo, contando até dez, às vezes só sobrevivendo.

Mas é no luto que o insuportável costuma se apresentar com toda a sua força. Quando alguém que amamos parte, não é só a presença física que vai embora. É a rotina que se quebra, o plano que não se cumpre, a palavra que não foi dita. Parece que uma parte da gente foi arrancada. Porém, se olharmos com calma, há algo que não se perde: a memória. E essa, ninguém tira de nós.

As lembranças ficam. Permanecem nos gestos que herdamos, nas histórias que contamos, no jeito de olhar que, de repente, lembramos que é igual ao dele ou dela. Há uma presença que resiste à ausência, e ela vive na memória — esse território inviolável do afeto. Como dizia a poetisa Adélia Prado, “o que a memória ama, fica eterno”. O luto, então, não é perda completa. É transformação de vínculo.

A filosofia budista, especialmente nas palavras de Thich Nhat Hanh, nos convida a olhar para o sofrimento não como algo que precisa ser eliminado a todo custo, mas como uma oportunidade de despertar. Para ele, “o sofrimento pode nos ensinar compaixão”, e mesmo a dor da perda contém sementes de compreensão. A impermanência é uma das grandes verdades budistas — tudo muda, tudo passa, inclusive o que achamos que jamais conseguiríamos suportar. E ainda assim, algo essencial permanece: o amor que se torna lembrança, e a lembrança que se torna guia.

Do lado ocidental, além da força vital que Nietzsche vê no sofrimento — “aquilo que não me mata, me fortalece” — encontramos em Kierkegaard um mergulho mais fundo na angústia. Para ele, a angústia é a “tontura da liberdade”. É aquele momento em que nos deparamos com o abismo das escolhas, das perdas, da incerteza. E não há consolo imediato. Só o enfrentamento. A angústia é, segundo ele, um sinal de que estamos vivos, conscientes, despertos diante do peso da existência.

Kierkegaard não oferece fuga — oferece profundidade. Suportar a angústia, para ele, é parte do caminho para nos tornarmos autênticos. É ali, no silêncio do insuportável, que o eu se forma. E talvez seja nesse mesmo silêncio que reconhecemos que não estamos sós: os que amamos permanecem, de algum modo, dentro de nós. O insuportável, por mais que doa, pode nos aproximar de quem verdadeiramente somos.

Voltando à vida comum: a vizinha que parece insuportável pode estar apenas descontando no mundo a dor de uma perda que não contou pra ninguém. A criança birrenta no mercado talvez só precise dormir. E a gente, quando acha que chegou ao limite, ainda respira. Porque a verdade é que quase tudo que parece insuportável se revela, com o tempo, apenas... difícil.

Difícil não é o mesmo que impossível.

O “aparentemente” da expressão é nossa salvação. Ele sugere que talvez, por trás da aparência, haja uma possibilidade escondida. Uma brecha. Um futuro. Algo que agora parece sufocar, mas amanhã pode até virar lembrança. E até — quem sabe — sabedoria.

Talvez o maior ato de coragem da vida não seja vencer o insuportável, mas simplesmente suportar. Ficar. Respirar. Continuar. E lembrar — com todo o coração — que nada nos tira o que foi vivido. E que a angústia, embora pesada, é sinal de que ainda há caminho.

sexta-feira, 30 de maio de 2025

Tempo e Ser

 

Já reparou como, às vezes, o tempo parece escorrer por entre os dedos — como areia molhada? Você acorda, toma café, vai ao trabalho, responde e-mails, olha o relógio, almoça apressado, volta... e, quando vê, é noite. Você viveu, mas passou por você?

Heidegger, já mais velho, também pensava nisso. E decidiu voltar à pergunta que nunca o abandonou: o que é o ser? Mas agora com outra lente: o tempo não é só um pano de fundo — ele é o próprio caminho por onde o ser se mostra.

 

1. Uma inversão: não somos nós que controlamos o tempo

A primeira mudança de chave em Tempo e Ser é essa: não somos nós que temos o tempo — é o tempo que nos tem.

Parece estranho? Pensa naquela reunião que você achou que ia durar 15 minutos e virou 2 horas. Ou naquele feriado que voou. O tempo não se mede só no relógio. Ele é vivido — e, por isso, pode expandir ou encolher. Heidegger chama isso de tempo próprio, tempo apropriador (Ereignis).

 

2. Do ser como presença ao ser como doação

Lá em Ser e Tempo, Heidegger ainda tratava o ser como algo que se manifestava dentro do tempo. Agora, em Tempo e Ser, ele diz que o tempo é a condição do ser se mostrar. O ser não está “lá” o tempo todo — ele se doa, se revela, se retira.

É como as pessoas na nossa vida: tem amigos que aparecem quando a gente menos espera — e outros que, mesmo presentes, estão ausentes. O ser também é assim — se dá no tempo certo, e só no tempo certo.

 

3. O Ereignis: o momento em que o ser acontece

Heidegger inventa uma palavra complexa: Ereignis. Traduzem como “acontecimento apropriador” ou “evento de apropriação”. Mas pense nisso como aquele instante em que tudo se encaixa, mesmo que por um segundo.

Tipo quando você está andando na rua, distraído, e sente que está no lugar certo, na hora certa. Ou quando escuta uma música antiga e algo em você se revela — uma lembrança, uma emoção esquecida.

Não é você quem provoca isso — é o tempo que te entrega.

 

4. O tempo como clareira (Lichtung)

Heidegger fala que o ser precisa de uma clareira para aparecer — como uma luz que atravessa a floresta. Essa luz é o tempo.

Na prática? É como quando você finalmente tem um domingo livre. Silêncio em casa. Você senta, olha pela janela e pensa em tudo que não pensa durante a semana. A vida parece abrir espaço para você pensar no que está fazendo com ela.
Esse instante de clareira é um presente do tempo. E o ser, tímido, aparece ali — se você estiver atento.

 

5. Nem cronômetro, nem relógio — tempo como relação

Heidegger nos convida a abandonar a ideia de tempo como algo linear e medido em minutos. Ele quer que a gente perceba o tempo como relação com o ser.
Você já teve um almoço com alguém que parecia durar cinco minutos, mas mudou o seu mês? Ou já ficou olhando para o teto por três horas sem conseguir respirar de tanta angústia? O tempo que vale não é o dos ponteiros, mas o da experiência.

 

Viver é acolher o tempo que nos escolhe

Em Tempo e Ser, Heidegger não está oferecendo uma receita de como aproveitar melhor o tempo, como os gurus da produtividade. Ele está dizendo:

“Pare de correr. Escute o tempo. Ele não é seu inimigo. Ele é o próprio lugar onde o ser se mostra.”

Na prática? Talvez seja deixar o celular de lado por meia hora. Sentar em silêncio. Ouvir um amigo com atenção. Aceitar que nem tudo está no nosso controle — e que o que realmente importa acontece quando você permite que o tempo aconteça em você.

terça-feira, 27 de maio de 2025

Essência Viva

Vamos pensar sobre o Que De Fato Importa na Vida Para Que a Vida Seja Bem Vivida

É curioso como passamos boa parte da vida organizando as gavetas erradas. Dobramos roupas que não vamos usar, colecionamos diplomas que não dizem quem somos, alimentamos relações que não nos reconhecem. Vivemos, muitas vezes, em modo automático, presos numa coreografia repetitiva de compromissos e obrigações. Mas a grande pergunta — talvez a única realmente importante — permanece em silêncio no fundo do peito: o que, afinal, importa para que a vida seja bem vivida?

I. A Importância de Perguntar

Comecemos do começo. Antes de qualquer resposta, há o valor da pergunta. Só perguntar já é um sinal de despertar. A maioria das pessoas não se pergunta, apenas reage. E o problema de não se perguntar é que se acaba vivendo uma vida de segunda mão — feita de expectativas herdadas, desejos encomendados, conquistas que valem só para os outros.

Sócrates, o velho teimoso da Ágora, já dizia: “Uma vida não examinada não vale a pena ser vivida.” Talvez porque viver sem examinar é como atravessar uma floresta de olhos vendados — até se pode caminhar, mas não se sabe se está indo para o alto de uma montanha ou para dentro de um pântano.

II. Importa Ter ou Ser?

Vivemos sob a tirania do ter: ter dinheiro, ter sucesso, ter seguidores, ter um corpo “ideal”, ter controle. Mas se a vida bem vivida se resumisse ao acúmulo, os milionários seriam os mais felizes — e não são. Basta conversar com um deles em um momento de insônia. No fundo, o “ter” é um suporte frágil demais para sustentar o peso da existência.

Já o “ser” — esse é silencioso, mas profundo. Ser gentil quando ninguém está olhando. Ser curioso diante do desconhecido. Ser fiel ao que se ama, mesmo que dê trabalho. Ser inteiro naquilo que se faz, mesmo que seja apenas lavar a louça. Ser é quando deixamos de representar um papel e começamos a dançar a própria música.

III. A Importância das Pequenas Coisas

Um erro comum é achar que uma vida bem vivida precisa ser grandiosa, espetacular, cinematográfica. Mas talvez a vida boa esteja no ritmo das coisas pequenas: o cheiro do café pela manhã, o riso de um filho, a escuta atenta de um amigo, a caminhada sem rumo num fim de tarde. O filósofo japonês Daisetsu Suzuki dizia que o zen está em “fazer uma coisa de cada vez, com plena atenção”.

A vida que vale a pena não se mede em feitos, mas em presença. E estar presente, hoje, é quase um ato de rebeldia. Quantos de nós estão realmente onde estão?

IV. A Importância de Pertencer

Ser humano é também ser parte. Ninguém vive bem isolado. Precisamos de uma rede — de afetos, de significados, de escuta. Não se trata apenas de ter amigos, mas de saber partilhar a existência: dores, alegrias, silêncio.

Maurice Merleau-Ponty dizia que a carne do mundo é comum — somos feitos da mesma matéria que tocamos. Por isso, a vida bem vivida precisa de vínculos, mas vínculos livres, e não prisões afetivas. Laços que fortalecem, não que sufocam.

V. A Importância de Morrer um Pouco

Estranho, talvez, dizer isso. Mas viver bem implica morrer um pouco ao longo do caminho. Morrer para antigos eus. Morrer para verdades que já não nos servem. Morrer para identidades que se tornaram cárceres. A impermanência, como diz o budismo, é o tecido da existência.

A vida boa, então, é aquela em que aprendemos a soltar, em vez de acumular. Soltar medos, padrões, ilusões. O que fica, depois que tudo cai, é o que importa.

VI. E Afinal, o Que Importa?

Importa viver com sentido, mais do que com sucesso. Importa sentir, mais do que vencer. Importa ser presença, mais do que performance.

Importa olhar para trás, um dia, e perceber que não fomos apenas passageiros, mas que fomos inteiros em nossos amores, escolhas, silêncios. Que tropeçamos com dignidade. Que nos reinventamos quando necessário. Que, acima de tudo, fomos fiéis àquilo que dava brilho ao nosso olhar.

Como escreveu Fernando Pessoa pela boca de seu heterônimo Ricardo Reis:
“Para ser grande, sê inteiro: nada / Teu exagera ou exclui. / Sê todo em cada coisa. Põe quanto és / No mínimo que fazes.”

E talvez seja isso. Uma vida bem vivida não é aquela que teve tudo, mas aqui e agora.


quinta-feira, 24 de abril de 2025

Percepção de Empédocles



Outro dia, me peguei observando o reflexo da rua numa poça d’água. Tinha sol, mas também ventava frio. As pessoas passavam apressadas, e eu, meio à toa, pensei: será que o que vejo é mesmo o que está lá fora? Ou é só um reflexo — não só na água, mas na mente? E aí me veio à cabeça um nome que quase ninguém cita numa conversa de bar: Empédocles.

A percepção como mistura dos elementos

Empédocles, o filósofo pré-socrático de Agrigento, talvez não ganhe o mesmo destaque que Sócrates ou Platão, mas ele teve uma sacada genial: tudo que existe é feito de quatro raízes — terra, água, ar e fogo — misturadas pelo Amor e separadas pelo Ódio. Agora, se ele pensava assim sobre o mundo físico, por que não pensar a percepção humana também como uma mistura dessas raízes?

Não percebemos com "os olhos" apenas, mas com a composição inteira do nosso ser. Empédocles dizia que "o semelhante conhece o semelhante", ou seja, só percebemos aquilo que já existe em nós. A terra em mim reconhece a terra do mundo. A água em mim se emociona com o rio. O fogo em mim vibra com a paixão. O ar em mim sonha com as nuvens.

Perceber é participar

Para Empédocles, não existe uma separação entre sujeito e objeto como a filosofia moderna adora discutir. Não somos uma câmera registrando o mundo. Somos parte do mundo. Ver, sentir, cheirar, ouvir — tudo isso é um encontro entre o que há dentro e fora de nós. Quando eu sinto o calor do sol na pele, não é só o sol me tocando — é também meu fogo interno reconhecendo um parente distante.

E é aqui que a coisa fica bonita: se percepção é mistura, então ela é fluida, mutável, dançante. Ninguém vê o mesmo pôr do sol duas vezes, nem mesmo a mesma pessoa. O que sentimos do mundo depende do que está mais forte em nós naquele momento — se é a água, talvez estejamos mais sensíveis. Se é a terra, mais contidos. Se o ar predomina, queremos voar. Se o fogo domina, queimamos por dentro e tudo ao redor parece mais intenso.

A ilusão da objetividade

A modernidade construiu a ideia de uma percepção objetiva, como se pudéssemos desligar nossa alma e virar instrumentos neutros. Mas Empédocles desmontaria isso com facilidade. Para ele, não existe olhar sem mistura. Até o ódio altera a percepção — ele separa os elementos, cria rupturas, endurece o que poderia fluir.

Um exemplo cotidiano? Quando estamos apaixonados (movidos pelo Amor, segundo Empédocles), o mundo parece mais bonito, as cores mais vivas, até o cheiro do asfalto molhado parece poesia. Mas quando estamos tomados pelo Ódio (ou pelo medo, ou ressentimento), tudo escurece, tudo encolhe.

Ver é ser

A grande sacada de Empédocles talvez seja esta: perceber não é apenas captar, mas também compor. Somos compositores da realidade a cada olhar. A percepção é o lugar onde o mundo e a alma se abraçam — ou se evitam.

Na próxima vez que olhar para uma poça d’água, pense: não é só a rua que está ali refletida. É também você. E sua terra, sua água, seu fogo e seu ar — dançando conforme a música dos elementos que você carrega.

Empédocles talvez não tenha tido Instagram, mas entendia uma coisa que a gente esquece: ver o mundo é sempre ver a si mesmo também.


sexta-feira, 28 de março de 2025

Essência e Existência

Sabe aquele momento em que você se olha no espelho e se pergunta: "Eu sou mesmo quem acho que sou?" Ou quando, no meio de uma conversa, surge o pensamento estranho: "E se eu simplesmente não existisse?" Essas perguntas que parecem brotar de uma mente inquieta já atormentavam filósofos há séculos. E um dos que mais se debruçou sobre essa questão foi Avicena (Ibn Sina), o grande pensador persa do século XI.

Avicena estabeleceu uma distinção fundamental entre essência e existência. Para ele, a essência de algo (o que uma coisa é) e sua existência (o fato de que ela é) são separadas. A essência de um cavalo, por exemplo, não implica que ele existe de fato – ele poderia apenas ser uma ideia na mente de alguém. Isso significa que a existência não está automaticamente contida na essência de um ser contingente; para existir, ele precisa receber a existência de algo que já existe por si mesmo.

Aqui entra o conceito de Ser Necessário, uma das contribuições mais marcantes de Avicena. Se tudo no mundo precisa receber a existência de algo anterior, então deve haver um ser cuja existência não dependa de nada – um ser que seja existência pura, sem distinção entre essência e existência. Esse Ser Necessário, para Avicena, é Deus. Sem Ele, nada mais poderia existir, pois tudo o que encontramos no mundo é contingente, ou seja, poderia não existir.

O impacto dessa ideia foi profundo na filosofia ocidental. Tomás de Aquino, por exemplo, absorveu e reelaborou a distinção entre essência e existência em sua própria filosofia, influenciando séculos de pensamento cristão. No entanto, o que torna Avicena tão inovador é a sua abordagem quase matemática do problema: ele raciocina como um lógico rigoroso, deduzindo as implicações metafísicas do ser de maneira metódica.

Agora, voltemos àquela olhada no espelho. Se seguirmos Avicena, a pergunta "quem sou eu?" ganha novos contornos. Não basta apenas saber nossa essência (ser humano, pensante, consciente), mas entender que nossa existência não é garantida por nós mesmos. Em última análise, existimos porque algo nos concedeu essa existência. Somos, de certo modo, dependentes do Ser Necessário – como notas musicais que só ressoam porque há um instrumento para tocá-las.

Esse pensamento nos leva a uma reflexão mais profunda sobre a nossa posição no universo. Se nossa existência é recebida, qual é o propósito dessa concessão? E se a essência não garante a existência, até que ponto podemos afirmar que somos donos de nossa própria realidade?

Em tempos de identidades fluidas e realidades virtuais, a separação entre essência e existência pode ser mais relevante do que nunca. Afinal, será que nossa essência se mantém quando nos projetamos para o mundo digital? Ou será que o simples ato de existir em um espaço virtual altera a essência do que somos? Se Avicena estivesse aqui hoje, talvez se perguntasse: "O avatar de um indivíduo no metaverso tem essência ou apenas existência temporária?" Questões que, mil anos depois, continuam assombrando nossa busca por sentido.


terça-feira, 11 de março de 2025

Infinitivos e Gerúndios

Pensar Pensando e os Modos de Existir

A gente sempre está entre começar algo e continuar fazendo. Entre o desejo de ser e o ato de estar sendo. No fundo, a forma como pensamos já carrega em si um tempo, um modo, uma disposição. Há quem viva no infinitivo, sonhando sem executar. Outros se perdem no gerúndio, ocupados demais fazendo para perceber para onde estão indo. Mas será que o pensamento também oscila entre essas formas? Será que somos condicionados por uma estrutura linguística a viver mais no futuro ou no presente contínuo?

O infinitivo é uma promessa. Pensar, agir, decidir, mudar. Ele paira no ar como um horizonte de possibilidades, um impulso inicial que não se compromete com a realização. "Eu preciso começar a escrever um livro" ou "Quero aprender a tocar piano" são frases que moram no limbo do que poderia ser. É a mente aberta para a escolha, mas também para a fuga. No infinitivo, o pensamento é potencialidade, mas também hesitação. Não se compromete com a sujeira do real. Fica ali, polido e perfeito como uma ideia antes de ser testada pelo mundo.

Já o gerúndio é movimento. É estar fazendo, estar sendo, estar sentindo. Ele não dá margem para o adiamento: "Estou mudando", "Estou aprendendo", "Estou construindo". A fluidez da vida aparece aqui, porque o gerúndio nos coloca dentro do processo, e o processo nunca é estático. Mas há um risco: o gerúndio também pode ser uma armadilha de continuidade infinita, um ciclo onde a ação nunca se conclui. "Estou tentando", "Estou resolvendo", "Estou esperando" — frases que indicam que algo está acontecendo, mas talvez nunca chegue a acontecer de fato.

O pensamento humano parece oscilar entre esses dois estados. Alguns filósofos construíram sistemas inteiros baseados na ideia de um pensamento no infinitivo: Platão, por exemplo, enxergava a realidade como um reflexo de um mundo ideal, uma perfeição nunca plenamente alcançada. Já pensadores como Nietzsche preferiam o gerúndio — um eterno devir, uma existência que se faz e se refaz a cada instante.

E nós? Será que pensamos mais no infinitivo, sempre projetando um futuro que nunca chega? Ou vivemos no gerúndio, presos a processos que nunca se resolvem? Talvez a resposta esteja em aprender a transitar entre os dois. Há momentos para o infinitivo — para desejar, para planejar, para conceber a ideia pura. E há momentos para o gerúndio — para agir, para experimentar, para sentir o peso do tempo nas mãos.

Pensar é, afinal, um jogo de tempos verbais. Há quem prefira permanecer na promessa, e há quem não consiga sair do fazer contínuo. Mas talvez o segredo seja encontrar a justa medida entre pensar e estar pensando — entre conceber e construir, entre ser e estar sendo.