Sobre o Abismo do Ser
Outro
dia, enquanto esperava meu café esfriar, fui surpreendido por uma pergunta que
me veio como uma mosca irritante: “E se tudo isso não passar de um grande
nada?” Olhei ao redor, vi as pessoas apressadas, os carros buzinando, o barista
distraído com o celular. Parecia tudo tão sólido, tão presente. Mas havia uma
brecha entre essas cenas cotidianas que deixava espaço para a dúvida: o que
sustenta nossa existência? E, mais ainda, o que significa negá-la?
A
negação da existência não é só uma provocação filosófica; é uma janela para um
questionamento profundo sobre o que somos e como nos situamos no mundo. Essa
ideia, tão antiga quanto as primeiras reflexões humanas, encontra ecos em
pensadores como Parmênides, que acreditava na impossibilidade do “não-ser,” e
em Sartre, que via o nada como parte integrante do ser. Mas, no dia a dia, como
lidamos com esse abismo que pode, às vezes, nos fazer sentir que tudo é um
vazio sem sentido?
O
Nada Como Fundamento
Quando
falamos em negar a existência, não se trata apenas de dizer "nada
existe" em termos absolutos. Há nuances. A negação pode ser um refúgio
diante da complexidade da vida, uma recusa em aceitar o peso de ser. Friedrich
Nietzsche tocou nesse ponto ao falar do niilismo, essa negação profunda que
surge quando perdemos os fundamentos que sustentam nosso sentido de realidade.
Quando nada importa, qualquer coisa se torna suportável — ou insuportável.
No
cotidiano, é fácil perceber traços dessa postura. Pense em quem evita
compromissos, projetos ou relacionamentos, dizendo “nada disso faz diferença.”
Essa negação, disfarçada de indiferença, pode ser uma forma de autoproteção,
mas também um abismo que engole possibilidades. Talvez a negação da existência
não seja um afastamento do mundo, mas uma forma de encará-lo de frente,
questionando seus alicerces.
O
Contraponto da Filosofia
É
curioso como a filosofia, mesmo lidando com ideias tão desconcertantes, não
busca destruir o sentido, mas ampliá-lo. Simone de Beauvoir, em Por uma
Moral da Ambiguidade, argumenta que negar a existência pode ser uma escolha
válida, mas que aceitar a complexidade do ser é mais corajoso. A vida, com
todas as suas contradições, é um palco de possibilidades. Negá-la completamente
seria como assistir a um filme de olhos fechados: o movimento está ali, mas a
experiência se perde.
Para
Beauvoir, a negação total é uma forma de abdicar da liberdade. Ao negar o
mundo, negamos também a nós mesmos, nossos desejos e nossa capacidade de
transformar. A aceitação, por outro lado, é uma afirmação do potencial humano.
O desafio está em encontrar um equilíbrio entre encarar o nada e reconhecer o
que emerge dele.
A
Negação no Dia a Dia
Voltando
ao café frio e ao barista distraído, percebo como essa reflexão ecoa nas
pequenas coisas. Quantas vezes nos desconectamos do momento presente, negando
sua existência? No fundo, talvez a negação não seja a ausência do ser, mas uma
forma de evitá-lo. É mais fácil negar que nos importamos do que admitir o medo
de sofrer, mais simples fingir que algo não existe do que lidar com sua
complexidade.
Ainda
assim, há beleza em enfrentar essa negação. Como escreveu Clarice Lispector,
“o que me importa é o mistério das coisas.” Negar pode ser um ponto de partida
para reconhecer o mistério e, quem sabe, encontrar sentido onde menos
esperamos.
A
negação da existência não é apenas um conceito abstrato, mas uma postura que,
em algum momento, todos assumimos diante da vida. Ela nos desafia a repensar o
que é real, o que é importante e como navegamos pelas incertezas do ser. Negar
pode ser um escape, mas também uma oportunidade. Afinal, como diria Sartre, é
no vazio que encontramos a liberdade de preencher o mundo com significado.

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