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quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Apelo Universal

 

Há dias em que a gente não acorda com uma pergunta, mas com um incômodo. Nada aconteceu de grave: o café saiu como sempre, o ônibus passou, o celular notificou. Ainda assim, fica a sensação de que algo está chamando — não com palavras, mas com uma espécie de urgência muda. É como quando alguém pronuncia nosso nome em voz baixa no meio da multidão: não sabemos de onde veio, mas sabemos que era conosco. A isso, ouso chamar de apelo universal.

O apelo universal não é um mandamento religioso, nem um código moral pronto, tampouco uma ideia abstrata flutuando acima da vida real. Ele se manifesta justamente no concreto: na fila do mercado, numa conversa interrompida, no olhar cansado de alguém conhecido, ou naquele silêncio que sobra depois que a TV é desligada.

Filosoficamente, podemos dizer que o apelo universal nasce da tensão entre o que somos e o que poderíamos ser. Não no sentido heroico ou grandioso, mas no sentido mínimo: ser um pouco mais atento, menos automático, menos anestesiado. Emmanuel Lévinas falava do rosto do outro como algo que nos convoca eticamente antes de qualquer reflexão. O apelo universal começa aí: não como escolha, mas como interpelação.

No cotidiano, isso aparece de forma banal. Você está atrasado e vê alguém tropeçar na calçada. Por um segundo, o mundo inteiro se reduz a uma decisão microscópica: seguir ou parar. Não é altruísmo calculado, nem moral aprendida — é algo que chama antes de pensar. O apelo.

Vivemos cercados de ruído. Não apenas sonoro, mas existencial. Compromissos, metas, desempenho, comparações. A vida contemporânea é eficiente em uma coisa: abafar o apelo universal. Tudo vira tarefa, inclusive sentir.

Aqui entra uma observação muito próxima do cotidiano brasileiro. Somos criativos, afetivos, improvisadores, mas também profundamente adaptáveis ao absurdo. Aprendemos a conviver com o que dói como se fosse paisagem. O trânsito caótico, a desigualdade explícita, a pressa constante — tudo isso vai criando uma crosta sobre a sensibilidade. O apelo continua existindo, mas chega distorcido, como um rádio fora de sintonia.

Paulo Freire diria que essa anestesia é uma forma de desumanização. Não porque sejamos maus, mas porque vamos sendo treinados a não escutar. O apelo universal, nesse contexto, não pede grandes revoluções: pede consciência. Pede que a gente perceba quando está vivendo no modo automático.

Chama-se universal não porque seja genérico, mas porque atinge a todos de maneira singular. Ele não fala a linguagem das massas, fala a língua íntima. Para um, aparece como inquietação profissional; para outro, como culpa difusa; para outro ainda, como sensação de estar vivendo a vida errada, mesmo fazendo tudo “certo”.

Há quem sinta isso num domingo à tarde, quando o tempo sobra e o vazio aparece. Há quem sinta ao rever fotos antigas e perceber que o sorriso de antes tinha algo que o de agora perdeu. O apelo universal não acusa, não grita, não humilha. Ele apenas insiste.

Aqui vale lembrar N. Sri Ram, quando diz que a vida nos ensina não por discursos, mas por experiências repetidas até que aprendamos a escutar. O apelo universal é pedagógico nesse sentido: ele retorna enquanto for ignorado, mas desaparece quando é integrado.

Responder ao apelo universal não significa largar tudo e mudar de vida. Às vezes, é apenas um ajuste de postura. Ouvir com mais atenção. Dizer menos “depois eu vejo”. Reconhecer que nem toda eficiência é vida, e nem toda calma é perda de tempo.

No cotidiano, isso se traduz em gestos quase invisíveis: escolher não ironizar quando seria fácil, não competir quando ninguém pediu competição, não endurecer onde ainda há espaço para delicadeza. É nesse nível microscópico que o universal acontece.

Talvez o maior equívoco seja esperar que o apelo venha como uma revelação. Ele vem como cansaço, dúvida, estranhamento. E isso não é fraqueza — é sinal de que ainda estamos vivos por dentro.

O apelo universal não quer respostas definitivas. Ele quer presença. Quer que a gente esteja onde está, inteiro o suficiente para perceber que viver não é apenas passar pelos dias, mas responder a eles.

No fim, talvez a pergunta mais honesta não seja “qual é o sentido da vida?”, mas algo bem mais simples e exigente:

o que a vida está me pedindo agora?

Quem aprende a escutar essa pergunta, mesmo sem saber respondê-la, já atendeu ao apelo.

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