Há dias em que a gente não acorda com uma pergunta, mas com um incômodo. Nada aconteceu de grave: o café saiu como sempre, o ônibus passou, o celular notificou. Ainda assim, fica a sensação de que algo está chamando — não com palavras, mas com uma espécie de urgência muda. É como quando alguém pronuncia nosso nome em voz baixa no meio da multidão: não sabemos de onde veio, mas sabemos que era conosco. A isso, ouso chamar de apelo universal.
O
apelo universal não é um mandamento religioso, nem um código moral pronto,
tampouco uma ideia abstrata flutuando acima da vida real. Ele se manifesta
justamente no concreto: na fila do mercado, numa conversa interrompida, no
olhar cansado de alguém conhecido, ou naquele silêncio que sobra depois que a
TV é desligada.
Filosoficamente,
podemos dizer que o apelo universal nasce da tensão entre o que somos e o
que poderíamos ser. Não no sentido heroico ou grandioso, mas no sentido
mínimo: ser um pouco mais atento, menos automático, menos anestesiado. Emmanuel
Lévinas falava do rosto do outro como algo que nos convoca eticamente
antes de qualquer reflexão. O apelo universal começa aí: não como escolha, mas
como interpelação.
No
cotidiano, isso aparece de forma banal. Você está atrasado e vê alguém tropeçar
na calçada. Por um segundo, o mundo inteiro se reduz a uma decisão
microscópica: seguir ou parar. Não é altruísmo calculado, nem moral aprendida —
é algo que chama antes de pensar. O apelo.
Vivemos
cercados de ruído. Não apenas sonoro, mas existencial. Compromissos, metas,
desempenho, comparações. A vida contemporânea é eficiente em uma coisa: abafar
o apelo universal. Tudo vira tarefa, inclusive sentir.
Aqui
entra uma observação muito próxima do cotidiano brasileiro. Somos criativos,
afetivos, improvisadores, mas também profundamente adaptáveis ao absurdo.
Aprendemos a conviver com o que dói como se fosse paisagem. O trânsito caótico,
a desigualdade explícita, a pressa constante — tudo isso vai criando uma crosta
sobre a sensibilidade. O apelo continua existindo, mas chega distorcido, como
um rádio fora de sintonia.
Paulo
Freire diria que essa anestesia é uma forma de
desumanização. Não porque sejamos maus, mas porque vamos sendo treinados a não
escutar. O apelo universal, nesse contexto, não pede grandes revoluções: pede consciência.
Pede que a gente perceba quando está vivendo no modo automático.
Chama-se
universal não porque seja genérico, mas porque atinge a todos de maneira
singular. Ele não fala a linguagem das massas, fala a língua íntima. Para
um, aparece como inquietação profissional; para outro, como culpa difusa; para
outro ainda, como sensação de estar vivendo a vida errada, mesmo fazendo tudo
“certo”.
Há
quem sinta isso num domingo à tarde, quando o tempo sobra e o vazio aparece. Há
quem sinta ao rever fotos antigas e perceber que o sorriso de antes tinha algo
que o de agora perdeu. O apelo universal não acusa, não grita, não humilha. Ele
apenas insiste.
Aqui
vale lembrar N. Sri Ram, quando diz que a vida nos ensina não por
discursos, mas por experiências repetidas até que aprendamos a escutar. O apelo
universal é pedagógico nesse sentido: ele retorna enquanto for ignorado, mas
desaparece quando é integrado.
Responder
ao apelo universal não significa largar tudo e mudar de vida. Às vezes, é
apenas um ajuste de postura. Ouvir com mais atenção. Dizer menos “depois
eu vejo”. Reconhecer que nem toda eficiência é vida, e nem toda calma é perda
de tempo.
No
cotidiano, isso se traduz em gestos quase invisíveis: escolher não ironizar
quando seria fácil, não competir quando ninguém pediu competição, não endurecer
onde ainda há espaço para delicadeza. É nesse nível microscópico que o
universal acontece.
Talvez
o maior equívoco seja esperar que o apelo venha como uma revelação. Ele vem
como cansaço, dúvida, estranhamento. E isso não é fraqueza — é sinal de que
ainda estamos vivos por dentro.
O
apelo universal não quer respostas definitivas. Ele quer presença. Quer que a
gente esteja onde está, inteiro o suficiente para perceber que viver não é
apenas passar pelos dias, mas responder a eles.
No
fim, talvez a pergunta mais honesta não seja “qual é o sentido da vida?”, mas
algo bem mais simples e exigente:
o
que a vida está me pedindo agora?
Quem
aprende a escutar essa pergunta, mesmo sem saber respondê-la, já atendeu ao
apelo.
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