Às vezes, enquanto tomamos um café ou esperamos o ônibus, uma
lembrança vem do nada: uma tarde de infância, uma risada perdida, o cheiro de
um bolo que alguém fazia. E, curiosamente, não lembramos de tudo — apenas de fragmentos.
A memória, como uma artista seletiva, guarda o que importa e apaga o que apenas
passou. Lembro porque a emoção gravou em algum lugar de minha mente o que
naquele momento vivido foi marcante e diferente, sempre que sinto sua falta
revisito o palácio da memória e encontro a lembrança em alguma sala me
aguardando, isto é fantástico.
No fundo, ela é menos um arquivo e mais um filtro. Do que
vivemos, ficam as emoções mais intensas, as experiências que nos tocaram de
verdade. O resto se dissolve no esquecimento, talvez para abrir espaço para o
novo. É como se o tempo só permitisse permanecer o que teve alma.
No cotidiano, isso se mostra de forma simples: esquecemos
nomes, mas não esquecemos o tom de voz; deixamos de lembrar rostos, mas
recordamos a sensação de estar perto de alguém. A memória essencial é afetiva —
o que se grava não é o fato, mas o sentimento.
Há quem veja nisso uma falha da mente. Eu vejo um gesto de
sabedoria. A memória seleciona o que nos constrói, como quem organiza uma casa.
Deixa ir o que pesa e guarda o que nos mantém de pé. Por isso, lembrar é, de
certo modo, também escolher.
Henri Bergson dizia que a lembrança é “a
sobrevivência do passado no presente”. E talvez seja isso mesmo: o que
realmente vivemos continua vivo, não como repetição, mas como presença sutil. O
que o tempo não levou, o coração quis manter.
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