Há
dias em que a gente sai de casa com a sensação de ser apenas mais um corpo em
movimento: ônibus cheio, fila do mercado, feed infinito nas redes sociais.
Ninguém nos olha de verdade, ninguém espera nada de singular. Somos “mais um”.
Curiosamente, essa frase pode soar como derrota — ou como alívio. Depende do
lado da multidão que nos toca.
O
lado acolhedor: quando a multidão protege
A
multidão tem algo de maternal. No estádio lotado, o gol não é só meu; ele
explode em milhares de gargantas. No show, a música parece maior do que o
cantor, porque é sustentada pelo coro anônimo. No metrô, mesmo espremidos, há
um acordo silencioso: seguimos juntos, ninguém cai sozinho.
Durkheim
chamaria isso de efervescência coletiva: um estado em que o indivíduo se
sente elevado por algo que o ultrapassa. Não é perda de identidade, é suspensão
momentânea do “eu cansado”. No cotidiano, isso aparece quando rimos de uma
piada que nem achamos tão boa, mas rimos porque todos riram. Ou quando seguimos
um ritual simples — cantar parabéns, bater palmas, respeitar o minuto de
silêncio. A multidão cria sentido onde, isoladamente, talvez houvesse apenas
dispersão.
Nesse
aspecto, ser “mais um” é descanso. É deixar de carregar o mundo sozinho. É
perceber que a vida não depende exclusivamente das nossas escolhas geniais — e
isso pode ser profundamente humano.
O
lado sombrio: quando a multidão anestesia
Mas
a mesma multidão que acolhe também dilui. No trânsito, ninguém é pessoa: são
carros, buzinas, obstáculos. Na internet, o linchamento moral acontece sem
rosto; cada comentário agressivo é “só mais um”, mas o efeito final é
devastador. Aqui, o anonimato não protege — desresponsabiliza.
Hannah
Arendt alertou para isso ao falar da banalidade do mal:
grandes danos podem nascer de pequenos gestos automáticos, repetidos por
muitos, sem reflexão. No cotidiano, isso aparece quando compartilhamos uma
notícia sem verificar, porque “todo mundo está compartilhando”. Ou quando
aceitamos práticas injustas no trabalho porque “sempre foi assim”.
A
multidão, nesse caso, não nos eleva; nos adormece. O pensamento crítico é
substituído por um piloto automático social. Continuamos andando, mas já não
sabemos por quê.
Entre
o eu e o nós: a tensão inevitável
O
erro comum é imaginar que a saída está fora da multidão, numa individualidade
pura e heroica. Mas isso é uma ilusão romântica. Ninguém existe fora do “nós”.
A língua que falamos, os gestos que usamos, até as revoltas que sentimos — tudo
nasce em um campo coletivo.
O
desafio filosófico não é sair da multidão, mas habitar a multidão
sem desaparecer nela. Nietzsche já intuía isso quando desconfiava do
“espírito de rebanho”, mas não defendia o isolamento; defendia a criação de
valores próprios dentro do mundo comum.
No
cotidiano, isso é simples e difícil ao mesmo tempo:
- rir junto, mas saber quando não rir;
- seguir a fila, mas questionar a regra
injusta;
- pertencer a um grupo, sem terceirizar
a consciência.
Um
ensaio em forma de espelho
Ser
“mais um na multidão” não é o problema. O problema é não saber quando somos
apenas mais um e quando somos chamados a ser alguém. A multidão é um
espelho amplificador: ela aumenta o que levamos a ela. Se levamos reflexão, ela
pode virar cultura. Se levamos ressentimento, vira ruído. Se levamos medo, vira
histeria.
Talvez
a tarefa ética mais urgente hoje não seja se destacar a qualquer custo, nem se
dissolver por completo, mas aprender a fazer pausas interiores. Mesmo no meio
do empurra-empurra, perguntar silenciosamente: “Esse gesto é meu ou apenas
contagioso?”
No
fim, a multidão não é inimiga nem salvação. É condição. E a filosofia começa
exatamente aí: quando, em meio a todos, alguém decide não desligar o pensamento
— ainda que continue sendo, aos olhos do mundo, apenas mais um.
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