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terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Escolha Imprevista


Há escolhas que fazemos sentados, com tempo, café esfriando ao lado e uma falsa sensação de controle. E há outras que simplesmente nos atravessam. A vida não pede licença, não apresenta alternativas em lista numerada. De repente, algo acontece — um convite, uma perda, um silêncio inesperado — e quando percebemos, já escolhemos. Não por cálculo, mas por reação. É disso que quero tratar aqui: da escolha imprevista, essa decisão que não nasce do planejamento, mas do choque entre o mundo e quem somos naquele instante.

A tradição filosófica costuma valorizar a escolha racional, consciente, deliberada. Desde Aristóteles, escolher bem seria escolher após ponderar meios e fins. Mas a experiência concreta da vida insiste em desmentir essa narrativa. As escolhas mais decisivas raramente seguem esse roteiro.

Heidegger nos ajuda a deslocar o foco: não escolhemos a partir de um ponto neutro, mas a partir de um ser-lançado. Estamos sempre já dentro de uma situação, afetados por humores, histórias, expectativas alheias. A escolha imprevista nasce exatamente aí — não do livre-arbítrio abstrato, mas da fricção entre o que acontece e o modo como estamos no mundo.

Sartre radicaliza: mesmo quando não escolhemos, escolhemos. A escolha imprevista revela algo desconfortável — não somos autores soberanos de nossas decisões, mas responsáveis por elas. O imprevisto não nos absolve; ele nos expõe. Mostra quem somos antes que possamos ensaiar uma versão melhor de nós mesmos.

Há ainda um ponto pouco explorado: a escolha imprevista não cria apenas um caminho, ela revela uma identidade. Não escolhemos porque somos algo; tornamo-nos algo porque escolhemos — ainda que sem querer.

Para entender melhor vamos pensar em situações do cotidiano

Pense em alguém que aceita um emprego não porque era o plano, mas porque o antigo se tornou insuportável de um dia para o outro. Não houve vocação, apenas exaustão. Anos depois, ao olhar para trás, essa pessoa dirá: “foi a melhor decisão da minha vida”. Mas a verdade é menos heroica: foi uma escolha feita no limite, quando já não havia energia para planejar.

Ou no silêncio de uma conversa interrompida. Uma palavra que não é dita muda completamente uma relação. Não foi uma decisão consciente de calar; foi um atraso, um medo súbito, um cansaço acumulado. Mesmo assim, o silêncio escolheu por nós — e o mundo se reorganizou em torno dele.

Há também escolhas imprevistas morais. Defender alguém numa situação pública, intervir numa injustiça, ou virar o rosto. Não há tempo para pensar em princípios éticos. O corpo age antes da teoria. Só depois tentamos explicar a nós mesmos por que fizemos o que fizemos.

Até nas pequenas coisas o imprevisto decide: entrar numa livraria para se proteger da chuva e sair com um livro que muda a forma como vemos a vida; aceitar um convite por educação e conhecer alguém decisivo; errar o caminho e descobrir outro ritmo de cidade.

Uma torção final

Talvez a escolha imprevista seja mais honesta do que a escolha planejada. Ela não se disfarça de virtude, não se apoia em discursos prontos. Ela acontece quando nossas máscaras estão cansadas demais para funcionar.

Isso não significa glorificar o impulso ou desprezar a reflexão. Significa reconhecer que somos feitos de camadas — e que, em certos momentos, quem escolhe não é o “eu ideal”, mas o “eu possível”.

A escolha imprevista nos lembra de algo desconfortável e libertador: não controlamos a vida, mas participamos dela. E, às vezes, é exatamente quando não sabemos o que estamos fazendo que nos aproximamos mais de quem realmente somos.


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