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quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

Furor Divino


Às vezes — e aqui falo quase em voz baixa, como quem mexe numa caixa antiga — me pego pensando naquele tipo de impulso que não sabemos explicar. Não é raiva, não é fé, não é entusiasmo comum. É como se algo maior cutucasse por dentro. Já sentiu? Aquele momento em que você faz algo que parecia impossível, ousado demais ou completamente fora do seu “perfil habitual”. E depois, quando volta ao estado normal, pensa: “Meu Deus, o que deu em mim?”.

Chamemos isso de furor divino — não porque seja literalmente divino, mas porque escapa à lógica cotidiana. É um desses fenômenos que parecem nascer de um lugar onde razão e mistério se tocam, como dois vizinhos que raramente se cumprimentam, mas às vezes trocam um aceno silencioso.

O Furor que ultrapassa o humano

Na tradição filosófica, ninguém falou melhor sobre isso do que Platão, especialmente no diálogo Íon e no Fedro. Ali, o filósofo descreve o “furor divino” (theia mania) como um estado em que o humano é arrebatado por uma força superior. Não é loucura comum; é uma espécie de êxtase criativo, profético, amoroso ou poético.

Platão distingue quatro tipos de mania:

  1. A profética, inspirada por Apolo;
  2. A ritual, ligada a Dioniso;
  3. A poética, dada pelas Musas;
  4. A amorosa, presente em Afrodite e Eros.

O que chama atenção é que, para ele, momentos verdadeiramente grandiosos da vida — e aqui podemos incluir decisões transformadoras, intuições certeiras, criações inesperadas — não surgem do cálculo frio. Surgem desse excesso, desse transbordamento que não cabe na planilha da razão.

E quando penso nisso no cotidiano, lembro de situações quase banais, mas reveladoras.
Às vezes alguém passa meses travado num projeto e, de repente, em uma madrugada, escreve o texto perfeito. Um casal que parecia arrastando a vida descobre um impulso de renovação amorosa inesperada. Uma pessoa tímida toma uma atitude corajosa que nem ela imaginava. Há quem mude de profissão, de cidade, de vida, num surto de clareza que parece vir de outro plano.

É raro, mas quando acontece, sentimos a vibração do furor.

O que esse fenômeno nos diz hoje?

Talvez o que chamamos de “furor divino” seja aquilo que ainda não aprendemos a nomear dentro de nós. Uma espécie de energia originária, uma fagulha de vida que nos escapa quando tentamos controlá-la demais.

O pensador brasileiro Roberto Machado, ao comentar a genealogia das paixões e dos impulsos, dizia que há forças em nós que não devem ser totalmente domadas, pois são justamente elas que nos projetam para fora da repetição mecânica da vida. O furor, nesse sentido, é uma potência de ruptura — perigosa, sim, mas também necessária.

É como se a vida tivesse um dispositivo interno de desorganização criativa. Sem ele, seríamos apenas previsíveis. E o que é mais triste do que ser totalmente previsível para si mesmo?

O risco e o brilho

É claro que o furor divino não é confortável. Ele mexe, desloca, empurra. Ele faz com que você perceba que viveu demasiado tempo acomodado no raso. E há pessoas que passam a vida inteira tentando evitar esse tipo de impulso, com medo do que podem descobrir sobre si.

Mas o curioso é que, muitas vezes, é justamente no furor que encontramos a versão mais verdadeira do que somos. Não a versão educada, adaptada, disciplinada — mas aquela que sabe o que quer antes mesmo de saber por que quer.

O furor divino não pede licença. Ele aparece.

E talvez o ponto mais filosófico de tudo seja este:

o furor divino não vem de fora — ele nos devolve o que já era nosso, mas que tínhamos esquecido.

No fim das contas…

O furor divino é um remédio amargo, mas é remédio. É aquele estado em que a vida nos toma pela gola e diz:

“Agora, preste atenção.”

E quando passa, ficamos meio tontos, estranhamente iluminados e, quem sabe, um pouco mais próximos daquilo que podemos ser.

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