Outro
dia, parado na fila do café, num insight percebi que meu corpo estava ali —
carteira no bolso, celular na mão — mas minha mente vagava em outro lugar. Eu era
e, ao mesmo tempo, não era. Aquela cena banal, quase ridícula, me
lembrou da velha pergunta que atravessa séculos: ser ou não ser? Só que,
fora dos palcos de Shakespeare, essa questão não aparece em forma de drama
grandioso; ela se infiltra na vida miúda, nos instantes em que existimos pela
metade.
Este
ensaio nasce dessa estranheza cotidiana: como podemos estar tão presentes e tão
ausentes ao mesmo tempo? E o que isso diz sobre o que chamamos de “ser”?
O
Ser como presença viva
Na
filosofia clássica, ser costuma significar aquilo que existe de modo
pleno, estável, afirmado. Mas, numa leitura espiritualista, o ser não é um
objeto fixo — é uma presença consciente. Ser é estar inteiro no que se
vive.
Pense
numa conversa sincera, daquelas raras, em que alguém nos fala algo importante e
nós realmente escutamos, sem ensaiar respostas, sem olhar o relógio. Nesse
instante, há uma espécie de alinhamento: corpo, atenção e sentido. Ali, somos.
Não porque fazemos algo extraordinário, mas porque estamos inteiros.
Espiritualmente,
o ser não se define pelo papel social, pelo nome ou pela função. Ele se
manifesta quando há coerência entre o que sentimos, pensamos e fazemos. O ser é
um acontecimento, não um rótulo.
O
Não Ser como ausência disfarçada
Já
o não ser raramente se apresenta como vazio absoluto. Ele costuma vestir
fantasias respeitáveis: rotina, produtividade, adaptação. Não ser é viver no
automático.
No
cotidiano, isso aparece quando:
- dizemos “tudo bem” sem sequer
consultar o que sentimos;
- cumprimos tarefas o dia inteiro e, à
noite, temos a sensação de não ter vivido nada;
- repetimos opiniões que não são
nossas, apenas para evitar atrito.
O
não ser, nesse sentido, não é inexistência, mas desconexão. É estar
fisicamente presente e espiritualmente ausente. Uma espécie de vida em modo
economia de energia.
A
tensão criadora entre Ser e Não Ser
O
ponto inovador talvez esteja aqui: ser e não ser não são inimigos absolutos.
Eles formam uma tensão criadora. O não ser revela onde estamos
fragmentados; o ser aponta a possibilidade de integração.
Há
dias em que o cansaço nos domina e tudo o que conseguimos fazer é funcionar.
Isso não nos condena. O problema surge quando esse estado vira regra, quando
esquecemos que há algo em nós que pede mais do que sobreviver.
Espiritualmente,
o não ser pode funcionar como um chamado silencioso. Ele incomoda, esvazia,
gera aquela pergunta incômoda: “é só isso?” E essa pergunta já é um
primeiro gesto de ser.
Pequenas
cenas de escolha
A
vida não nos pergunta “ser ou não ser?” em tom trágico. Ela pergunta em
detalhes:
- Responder ou reagir?
- Escutar ou apenas esperar a vez de
falar?
- Viver para parecer ou parecer para
viver?
Cada
escolha dessas, por menor que seja, desloca-nos um pouco mais para o ser ou
para o não ser. Não se trata de pureza espiritual, mas de grau de presença.
Um
olhar espiritualista final
Do
ponto de vista espiritual, o ser não se conquista de uma vez por todas. Ele se relembra.
Há algo em nós que sabe quando estamos sendo verdadeiros e quando estamos
apenas representando.
Ser
é lembrar-se de si mesmo no meio do mundo.
Não
ser é esquecer-se, ainda que temporariamente.
Talvez
a sabedoria não esteja em eliminar o não ser, mas em reconhecê-lo rapidamente —
como quem percebe que se distraiu durante uma caminhada e, sem culpa, retorna
ao caminho.
Concluindo...(quase
um sussurro)
Ser
e não ser não são estados fixos, mas movimentos. Oscilamos entre eles todos os
dias. A espiritualidade, longe de prometer uma resposta definitiva, nos oferece
algo mais simples e mais difícil: atenção.
Onde
há atenção, o ser começa a respirar.
Onde
ela falta, o não ser se instala.
E
talvez viver seja isso: aprender, mil vezes, a voltar.
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