Último Sábado do ano...
Há
anos que começam antes do calendário. Eles chegam como um incômodo discreto,
uma sensação de que algo precisa ganhar forma. 2026 é um desses. Não porque
saibamos o que ele trará, mas porque já estamos cansados de viver no modo
provisório — sempre “ajustando”, “tentando”, “vendo no que dá”. Objetivar 2026
não é fazer uma lista de metas; é um gesto filosófico mais radical: transformar
o tempo futuro em algo que nos olha de volta.
Normalmente
tratamos o futuro como névoa. Dizemos: ano que vem eu vejo isso, mais
pra frente resolvo. O problema é que o tempo, quando não é objetivado, se
torna apenas passagem. Ele nos atravessa, mas não nos encontra.
A
filosofia já desconfiava disso. Heidegger dizia que o ser humano
vive projetado — sempre lançado adiante —, mas quase nunca assume
conscientemente esse lançamento. Vivemos em direção ao futuro, mas sem
dar a ele contornos. O resultado é uma existência reativa: respondemos ao que
aparece, raramente chamamos algo à existência.
Objetivar
2026 começa aqui: deixar de tratar o ano como um recipiente vazio e passar a
vê-lo como uma obra em construção.
Há
um mal-entendido perigoso: confundir objetivar com controlar. Controlar é
querer dominar o que não depende de nós; objetivar é dar forma ao que pode ser
chamado.
Quando
objetivamos um ano, não decidimos tudo o que vai acontecer — isso seria
delírio. Decidimos o tipo de relação que teremos com o que acontecer.
É
a diferença entre dizer:
“Espero
que 2026 seja melhor”
e
dizer:
“Em
2026, certas coisas não terão mais lugar em mim.”
Essa
segunda frase não controla o mundo, mas redesenha o sujeito.
Um
ano objetivado funciona como espelho. Ele devolve perguntas incômodas:
- Que hábitos ainda tolero por
covardia?
- Que relações mantenho por inércia?
- Que versão de mim continuo adiando?
Nesse
sentido, 2026 não é um número, mas um critério. Um filtro silencioso que começa
a operar antes mesmo de janeiro. Algumas escolhas deixam de fazer sentido.
Certas urgências se revelam falsas. O ano futuro passa a julgar o presente.
Nietzsche
diria que isso é uma forma de afirmação da vida: viver como se cada
decisão estivesse à altura do tempo que queremos habitar.
Vivemos
soterrados por estímulos, opiniões, demandas e expectativas alheias. Objetivar
um ano é um gesto de economia existencial. Não adicionar mais coisas, mas
retirar.
Talvez
2026 não precise de novos projetos, mas de menos dispersão.
Menos
promessas vagas.
Menos
versões de si mesmo coexistindo em conflito.
Menos
tolerância ao que drena energia sem sentido.
O
ano objetivado não é expansivo; é preciso.
Há
anos que passam e anos que ficam. Os que ficam são aqueles que tiveram
densidade simbólica. Foram nomeados, desejados, temidos, enfrentados.
Objetivar
2026 é dar espessura ao tempo antes que ele passe. É dizer: este ano não
será apenas vivido, será sustentado. Mesmo com falhas. Mesmo com desvios.
Mesmo com cansaço.
No
fim, talvez o gesto mais inovador não seja prever o futuro, mas torná-lo
responsável diante de nós. Quando fazemos isso, algo curioso acontece: o futuro
deixa de ser ameaça e passa a ser convocação.
E
2026, então, já começou.

Nenhum comentário:
Postar um comentário