...e os trilhos
invisíveis do cotidiano
Outro dia, enquanto eu
decidia se respondia uma mensagem de trabalho no fim de semana ou se deixava o
celular de lado para aproveitar o pouco tempo livre, percebi que muitas
escolhas parecem pequenas, mas carregam uma moralidade escondida. Não é um
bonde desgovernado correndo para cima de cinco pessoas, mas às vezes sinto que
minha atenção, meu tempo, minha energia — tudo anda em trilhos. E cada vez que
eu puxo uma “alavanca”, alguém ou alguma coisa sai prejudicada. Foi aí que
lembrei do famoso Trolley Problem, aquele dilema que a filosofia adora
porque desmonta nossas certezas morais mais rapidamente do que o bonde
imaginário chega ao trilho.
O dilema clássico, criado
por Philippa Foot, apresenta um cenário simples: um bonde fora de
controle matará cinco pessoas se nada for feito. Mas existe uma alavanca que,
se acionada, desvia o bonde para outro trilho, onde há apenas uma pessoa. É
quase natural pensar que salvar cinco ao custo de um parece o mais “correto”. É
o que um utilitarista diria: maximize o bem, minimize o mal. Se eu tiver
que escolher entre ajudar cinco colegas de trabalho com uma tarefa geral ou
dedicar meu tempo a ajudar apenas um amigo em um problema pessoal, a lógica
utilitarista diria que devo focar nos cinco.
Mas na vida real as
coisas nunca são tão simples. Talvez aquele um amigo — aquele que você deixaria
de ajudar — estivesse passando por um momento crítico. Talvez os cinco colegas
pudessem resolver sozinhos. E aí, de repente, o cálculo frio não parece mais
tão seguro. A filosofia sabe disso, e por isso outro ramo aparece: a deontologia,
muito associada a Kant, que diz que certas ações são erradas em si mesmas,
independentemente do resultado. Para o deontologista, puxar a alavanca e matar
alguém diretamente pode ser moralmente pior do que não fazer nada — mesmo que o
“nada” resulte em cinco mortes.
A gente sente isso no
cotidiano quando precisa decidir entre interferir ou se omitir. Por exemplo:
ouvir uma conversa injusta sobre alguém e decidir se defende a pessoa ausente.
Você sabe que, se falar, pode criar conflito (atingindo “um” diretamente), mas
se se omitir, deixa o ambiente pior (afetando “cinco” à distância). Fazer algo
ruim diretamente — entrar no confronto — parece moralmente mais “pesado” do que
deixar o problema seguir. E essa sensação é exatamente o que a filosofia
discute.
A diferença entre agir e
omitir, tão debatida no Trolley Problem, aparece em situações como:
- O colega que depende de você:
quando você tem que escolher entre trabalhar até tarde para ajudar uma
pessoa específica ou manter sua rotina e afetar negativamente toda a
equipe no dia seguinte.
- A conversa difícil:
quando você precisa dar um feedback sincero (que fere um pouco agora, mas
evita problemas maiores depois) ou “deixar a vida seguir” e torcer para
que o estrago não seja grande.
- Priorizar a família ou o trabalho:
escolher viajar com quem você ama no fim de semana significa puxar a
“alavanca” e deixar um projeto parado; ficar no trabalho é desviar o bonde
para acertar alguém que esperava sua presença.
Outra versão do dilema
torna tudo mais visceral: o famoso cenário do homem gordo de Judith
Jarvis Thomson. Em vez de puxar uma alavanca distante, você teria que
empurrar alguém da ponte para parar o bonde. Quase ninguém aceita essa opção.
Parece cruel demais usar alguém como instrumento. No cotidiano, isso aparece
quando você tem que prejudicar diretamente uma pessoa — dar uma bronca,
demitir, cobrar — para evitar um prejuízo maior ao grupo. Puxar a alavanca
emocional é bem mais fácil do que empurrar alguém metaforicamente da ponte.
E é aqui que o Trolley
Problem deixa de ser um experimento mental distante e se torna um espelho. Ele
revela que:
- nossos princípios variam dependendo
da distância emocional,
- julgamos diferente causar um dano e
permitir um dano,
- e nossas escolhas são moldadas por um
misto de razão, empatia, medo e contexto.
No fundo, estamos sempre
conduzindo pequenos “trens morais”. Quando escolhemos dedicar atenção ao filho
em vez de responder mensagens de trabalho, salvamos um lado e sacrificamos
outro. Quando priorizamos nossa saúde mental e dizemos “não” àquele pedido insistente,
desviamos o bonde para um trilho onde alguém vai ficar frustrado. Quando
tentamos ser justos em um grupo de amigos, sempre há alguém que sai
momentaneamente magoado pelo equilíbrio do restante.
A moralidade cotidiana
não é sobre trilhos, alavancas e pontes: é sobre o cansaço que sentimos em
querer fazer tudo certo, mesmo sabendo que qualquer decisão causa alguma perda.
O Trolley Problem não nos ensina qual caminho escolher, mas nos lembra que toda
escolha é um campo ético, mesmo quando parece banal, e que viver é decidir
— ora salvando cinco, ora salvando um, ora salvando a nós mesmos.
Talvez a verdadeira lição
seja aceitar que não existe solução perfeita, mas existe uma forma honesta de
estar nos trilhos: reconhecer o peso das decisões, agir com consciência e
lembrar que, no fundo, somos sempre os operadores invisíveis de pequenas alavancas
diárias.
Nenhum comentário:
Postar um comentário