Demorei
para entender que limite não é derrota. No começo, ele aparece como frustração:
o corpo que cansa, o tempo que falta, a inteligência que não alcança tudo, o
dinheiro que impõe fronteiras, o outro que diz “não”. A sensação inicial é
sempre a mesma — se eu me esforçasse mais, isso não estaria aqui. Mas os
limites insistem. Eles não vão embora.
A
reconciliação começa quando percebo que o limite não está ali para me humilhar,
mas para me situar. Ele é como a borda da mesa: não serve para impedir o
jantar, mas para que ele aconteça sem que tudo caia no chão. No cotidiano isso
é claro, embora a gente finja não ver. O profissional que aceita que não dá
conta de tudo trabalha melhor. O pai ou a mãe que reconhece a própria falha
educa com mais humanidade. O amigo que assume que não sabe ouvir em certos dias
evita ferir sem querer.
Há
algo profundamente moderno na recusa dos limites. Vivemos como se tudo fosse
possível, o tempo todo. Resultado: exaustão, comparação infinita, culpa
crônica. A reconciliação é quase um ato de rebeldia silenciosa. É dizer: isso
eu posso, isso não posso — e está tudo bem. Não como desistência, mas como
clareza.
Lembro
de uma ideia muito simples, mas poderosa, de Rubem Alves: a de
que maturidade não é acumular possibilidades, mas aprender a escolher — e toda
escolha implica perda. Só quem aceita perder consegue, de fato, habitar o que
escolheu. O limite, então, deixa de ser muro e vira moldura. É ele que dá forma
ao sentido.
Reconciliação
com os limites não é resignação amarga. É amizade. É parar de lutar contra o
que não sou para finalmente cuidar do que sou. Curiosamente, é nesse ponto que
algo se expande. Quando aceito o tamanho da minha casa, começo a arrumá-la
melhor. Quando aceito minha finitude, o tempo ganha peso. Quando aceito meus
limites, a vida fica menos ruidosa — e mais verdadeira.
No
fundo, talvez crescer seja isso: parar de sonhar em ser infinito e começar a
viver bem dentro do possível, principalmente quando passamos dos sessenta!
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