No convívio diário, estamos sempre tentando traduzir o outro para nossas categorias. Tentamos compreender o amigo pelas nossas referências, enquadrar o colega de trabalho em nossos parâmetros, interpretar o comportamento alheio a partir da nossa lógica. Mas há um ponto em que toda tradução falha: o outro é irredutivelmente outro.
Essa
irredutível alteridade não é um obstáculo a ser vencido, mas um mistério
a ser respeitado. Ela nos lembra de que nunca possuímos a totalidade do outro,
nunca esgotamos sua singularidade. É como uma língua estrangeira que
conseguimos entender em partes, mas cujo sotaque, ritmo e silêncios sempre
escapam.
No
cotidiano, isso se manifesta em pequenas situações: quando um amigo reage de
forma inesperada a uma piada, quando um filho guarda um silêncio que não
sabemos decifrar, quando alguém amado toma uma decisão que parece inconcebível
aos nossos olhos. Nessas horas, percebemos que há zonas inacessíveis da
subjetividade alheia — e que tudo bem. O desafio é aprender a conviver com esse
“não saber” sem transformar a diferença em ameaça.
O
filósofo Emmanuel Lévinas colocou essa questão no centro de sua ética: o
rosto do outro é um chamado que não se reduz a conceitos, que não cabe em
categorias. Ele insiste em sua estranheza e, exatamente por isso, exige
responsabilidade. A alteridade não é para ser assimilada, mas para ser
acolhida.
Numa
sociedade contemporânea que tende a uniformizar — seja por algoritmos,
discursos políticos ou pressões culturais —, reconhecer a irredutibilidade da
alteridade é quase um ato de resistência. É afirmar que nem tudo se encaixa,
que o diferente não precisa ser tornado igual para ter valor.
Nutrir
vínculos com o outro, então, não significa dissolver sua diferença em nossas
semelhanças, mas sustentar esse espaço de mistério. É admitir que o outro
carrega uma interioridade que jamais será minha, e que isso não é perda, mas
riqueza.
No
fundo, a irredutível alteridade nos ensina algo fundamental: amar não é
possuir, compreender não é reduzir, conviver não é domesticar. É justamente
no que escapa que se encontra a beleza de estar com o outro — sempre
estrangeiro, sempre novo.