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sexta-feira, 7 de novembro de 2025

Solicitude

 

Há pessoas que parecem carregar dentro de si uma espécie de radar silencioso para o sofrimento alheio. Elas percebem quando algo não vai bem mesmo sem ninguém dizer. É aquela colega que nota o cansaço antes de ouvir a queixa, o amigo que pergunta “tá tudo bem mesmo?” com uma ênfase que atravessa a máscara do “tudo ótimo”. Esse gesto — discreto, quase sempre invisível — é a matéria da solicitude. Não se trata de pena, nem de intromissão. É, antes, uma forma de presença atenta, uma disposição do ser para com o outro.

Na pressa do mundo contemporâneo, a solicitude virou quase um luxo. Vivemos tão imersos em nós mesmos — em nossas notificações, tarefas, urgências e distrações — que esquecemos o que Heidegger chamava de Mitsein, o “ser-com”. O filósofo alemão via no cuidado (Sorge) a estrutura fundamental da existência humana: somos seres que cuidam, que se preocupam, que se voltam para o outro e para o mundo. A solicitude, nesse contexto, é uma manifestação concreta desse cuidado compartilhado. Ela é o modo como o ser-com se traduz em gesto, em palavra, em olhar.

Mas Heidegger distingue dois modos de solicitude: uma que “salta no lugar do outro” — substituindo-o, tirando-lhe a responsabilidade — e outra que “salta à frente”, ajudando-o a retomar sua própria capacidade de ser. A primeira é paternalista; a segunda é libertadora. Quando alguém tenta resolver tudo por nós, sufoca nosso poder de agir. Já quando alguém nos estende a mão para que voltemos a caminhar, essa pessoa nos devolve a nós mesmos. A verdadeira solicitude, portanto, não é invadir o espaço do outro, mas abrir espaço com o outro.

No cotidiano, ela aparece nos lugares mais triviais: na professora que percebe o aluno calado demais, no vizinho que segura o elevador para quem chega ofegante, no médico que escuta antes de prescrever. São gestos pequenos, mas têm algo de ontológico — eles dizem: “você existe para mim”.

Em uma sociedade orientada pela eficiência, onde a indiferença se disfarça de objetividade, a solicitude é quase um ato de resistência. Ela exige tempo, silêncio e vulnerabilidade. É preciso desacelerar para enxergar o outro, e coragem para ser tocado por ele.

O filósofo Emmanuel Lévinas amplia essa ideia ao colocar o rosto do outro como fundamento da ética. Para ele, o simples fato de ver o outro — e perceber que ele me olha — já me convoca à responsabilidade. A solicitude nasce justamente dessa convocação: é o reconhecimento de que o outro me afeta, e que não posso permanecer neutro diante de sua existência.

No Brasil, a solicitude se torna ainda mais necessária — e paradoxalmente mais rara — num contexto em que as relações sociais se equilibram entre a cordialidade aparente e a indiferença cotidiana. Nos ambientes de trabalho, por exemplo, a preocupação genuína pelo outro muitas vezes é vista como fraqueza ou perda de tempo: “cada um com seus problemas”. Nas redes sociais, multiplicam-se gestos de solidariedade performática — curtidas, emojis, frases prontas — que pouco têm a ver com a atenção real a alguém. A solicitude, nesse cenário, seria uma contraofensiva silenciosa: um modo de resgatar o humano num país em que a pressa e a desigualdade tendem a desumanizar. Quando paramos para escutar de verdade, sem filtro e sem agenda, criamos o que o filósofo brasileiro Mario Sergio Cortella chama de “encontros que edificam” — momentos em que a presença se transforma em construção mútua.

No fim das contas, a solicitude é a arte de estar presente sem possuir. É o cuidado que não quer nada em troca, a empatia que não se exibe, a atenção que não pesa. Num mundo que nos ensina a competir, ela nos reaprende a coexistir.

Como escreveu Lévinas, “o eu só se realiza plenamente quando é para o outro”. Talvez seja por isso que as pessoas verdadeiramente solícitas não se destacam — elas simplesmente se misturam à vida, restaurando silenciosamente o que o egoísmo quebra.

terça-feira, 19 de agosto de 2025

Irredutível Alteridade

No convívio diário, estamos sempre tentando traduzir o outro para nossas categorias. Tentamos compreender o amigo pelas nossas referências, enquadrar o colega de trabalho em nossos parâmetros, interpretar o comportamento alheio a partir da nossa lógica. Mas há um ponto em que toda tradução falha: o outro é irredutivelmente outro.

Essa irredutível alteridade não é um obstáculo a ser vencido, mas um mistério a ser respeitado. Ela nos lembra de que nunca possuímos a totalidade do outro, nunca esgotamos sua singularidade. É como uma língua estrangeira que conseguimos entender em partes, mas cujo sotaque, ritmo e silêncios sempre escapam.

No cotidiano, isso se manifesta em pequenas situações: quando um amigo reage de forma inesperada a uma piada, quando um filho guarda um silêncio que não sabemos decifrar, quando alguém amado toma uma decisão que parece inconcebível aos nossos olhos. Nessas horas, percebemos que há zonas inacessíveis da subjetividade alheia — e que tudo bem. O desafio é aprender a conviver com esse “não saber” sem transformar a diferença em ameaça.

O filósofo Emmanuel Lévinas colocou essa questão no centro de sua ética: o rosto do outro é um chamado que não se reduz a conceitos, que não cabe em categorias. Ele insiste em sua estranheza e, exatamente por isso, exige responsabilidade. A alteridade não é para ser assimilada, mas para ser acolhida.

Numa sociedade contemporânea que tende a uniformizar — seja por algoritmos, discursos políticos ou pressões culturais —, reconhecer a irredutibilidade da alteridade é quase um ato de resistência. É afirmar que nem tudo se encaixa, que o diferente não precisa ser tornado igual para ter valor.

Nutrir vínculos com o outro, então, não significa dissolver sua diferença em nossas semelhanças, mas sustentar esse espaço de mistério. É admitir que o outro carrega uma interioridade que jamais será minha, e que isso não é perda, mas riqueza.

No fundo, a irredutível alteridade nos ensina algo fundamental: amar não é possuir, compreender não é reduzir, conviver não é domesticar. É justamente no que escapa que se encontra a beleza de estar com o outro — sempre estrangeiro, sempre novo.


domingo, 10 de agosto de 2025

Urbanidade

Entre o gesto civilizado e o caos cotidiano

Todo mundo já se irritou no trânsito, esperou demais numa fila ou se viu em um elevador apertado tentando não fazer contato visual. Nessas horas, a convivência parece um teste de paciência. Mas é aí que entra a tal da urbanidade — essa arte delicada de viver com o outro, mesmo quando tudo em nós gostaria de estar sozinho. Urbanidade não é só dizer "bom dia" ou segurar a porta do elevador. Ela vai muito além da boa educação. É um pacto silencioso que torna possível a vida em comum, especialmente nas cidades onde o anonimato e o conflito são regra.

A cidade como laboratório do convívio

O termo "urbanidade" deriva de urbs, cidade em latim. Desde o início, está ligada ao espaço urbano, onde a vida se torna coletiva por necessidade. Nas palavras de Georg Simmel, um dos primeiros a pensar a cidade como fenômeno social, o sujeito urbano desenvolve uma atitude blasé — uma indiferença protetora diante do excesso de estímulos, pessoas e demandas. Para Simmel, isso não é falta de empatia, mas um mecanismo de sobrevivência psíquica.

Contudo, esse mesmo distanciamento pode minar a urbanidade, pois facilita a indiferença total ao outro. Quando todos estão ocupados demais consigo mesmos, o cuidado mútuo se dissolve. E aí o espaço comum vira um campo de disputa.

Urbanidade como delicadeza política

Norbert Elias, em sua obra O Processo Civilizador, mostra como a sociabilidade se tornou mais refinada ao longo dos séculos: regras de etiqueta, modos à mesa, contenção dos impulsos — tudo isso como parte de um processo de regulação social. A urbanidade surge nesse contexto como um tipo de autocontrole aprendido, uma sensibilidade ao outro que permite a previsibilidade e a confiança nos laços sociais.

Mas não se trata apenas de polidez decorativa. O filósofo francês Jacques Rancière nos ajuda a lembrar que o espaço público é, acima de tudo, político. Ser urbano não é apenas respeitar a fila, mas reconhecer o outro como igual, com direito à fala, ao espaço e à existência. A urbanidade, nesse sentido, é uma prática democrática: cada pequeno gesto de consideração ajuda a construir um ambiente onde todos possam estar.

O desafio ético do convívio

Há quem diga que a urbanidade está em crise. A pressa, o individualismo e a competição tornam difícil o exercício da gentileza. Em nome da eficiência, perdemos tempo com o desrespeito. Emmanuel Lévinas, filósofo da alteridade, diria que a verdadeira ética nasce do encontro com o rosto do outro — aquele momento em que somos interpelados por alguém que nos obriga a sair de nós mesmos. Nesse sentido, a urbanidade não é uma formalidade, mas uma resposta ética à presença do outro.

O cotidiano como campo filosófico

Ser urbano, afinal, não é apenas viver na cidade. É se responsabilizar por ela. É transformar o cotidiano em espaço de escuta, respeito e pequenas concessões. Um aceno de cabeça, ceder o assento, baixar o som — são gestos simples, mas carregados de civilização.

A urbanidade talvez seja uma das maiores virtudes públicas: discreta, silenciosa, mas absolutamente essencial. Sem ela, o convívio vira sobrevivência. Com ela, a cidade pode, quem sabe, ser um lugar onde ainda é possível respirar.

segunda-feira, 30 de junho de 2025

Seres Complicados


Outro dia, me peguei pensando em como a gente consegue transformar coisas simples em dilemas existenciais. Era só para escolher uma pizza, mas viramos uma assembleia de crise. Um queria marguerita, outro vegetariana, e teve quem quisesse inventar uma de strogonoff (!). A cena toda parecia banal, mas ali, naquele conflito de gostos e silêncios, estava estampada a complexidade humana. Porque, no fundo, não é sobre a pizza — é sobre o que a gente quer, o que a gente cede, e o que a gente esconde. Somos seres complicados, e não só no cardápio.

Por que somos assim? Por que pensamos tanto, duvidamos tanto, sentimos demais, desejamos o que nos falta e, às vezes, o que nos destrói? Não bastava viver? Os animais parecem tão resolvidos: um cachorro não faz análise existencial às três da manhã. Mas a gente, sim. A gente complica.

Essa complicação talvez não seja defeito. Talvez seja constituição. Como diria o filósofo Emmanuel Levinas, “o ser humano é aquele que é responsável antes de saber.” A gente sente culpa antes de entender o motivo, se emociona antes de racionalizar. Nossa consciência não é só uma ferramenta para organizar a realidade — é também um espelho torto que nos reflete com atraso e distorção.

Como disse Sartre, "o homem está condenado a ser livre". Condenado, veja bem — não agraciado. Porque a liberdade, para o existencialista, não é uma leveza de voar, mas um peso de decidir. Carregamos o fardo de sermos autores da própria existência, sem roteiro prévio ou manual de instruções. Nascemos sem essência, e tudo o que somos será construído nas escolhas que fazemos — mesmo aquelas que evitamos. E é nessa vertigem da liberdade que mora a nossa complicação mais radical: temos que escolher quem ser, sem garantias, sem desculpas. Ao contrário das coisas, que simplesmente são, nós precisamos nos fazer. E talvez esse seja o abismo mais profundo: não há essência esperando ser descoberta, só o vazio que precisamos preencher com atos, quedas, tentativas, e a permanente possibilidade de nos reinventarmos. A complexidade humana não é defeito — é o preço da liberdade.

Mas o budismo, curioso em sua suavidade, sussurra um contraste profundo. Thich Nhat Hanh nos lembra que “você não é uma entidade separada. Você é como uma folha em uma árvore. Quando a folha entende que faz parte da árvore, ela para de sofrer.” Isso é radical: o sofrimento nasce da ideia de separação, de ego endurecido, de um "eu" que quer ser único e eterno. Enquanto o existencialismo nos lança ao peso de criar o próprio sentido, o budismo dissolve a rigidez do “eu” e aponta para a paz que surge quando deixamos de querer controlar tudo. Assim, ser humano é também reconhecer que não somos tão sólidos quanto pensamos — somos corrente, não pedra. E nessa fluidez, talvez esteja uma outra forma de liberdade: a de não ter que sustentar um eu fixo o tempo todo. Um alívio, não?

Por isso, podemos rir e chorar da mesma lembrança. Amar alguém que já não existe mais — ou que nunca existiu de fato. Fugir de nós mesmos e ainda assim carregar nossa sombra por onde formos. Somos contraditórios por natureza: queremos liberdade e rotina, segurança e aventura, solidão e companhia. Queremos ser únicos e, ao mesmo tempo, aceitos por todos. E talvez seja aí que more a nossa beleza: na tentativa sincera de dar conta de tudo isso com os parcos recursos de um coração inquieto.

Nietzsche, que não era exatamente otimista, já dizia que “o homem é uma corda estendida entre o animal e o super-homem — uma corda sobre o abismo.” Vivemos nesse fio, tentando não cair, tentando fazer sentido. E se tropeçamos, não é porque somos fracos, mas porque estamos em movimento. Só quem está em movimento tropeça.

Então talvez a complicação não seja uma falha, mas uma flor selvagem que brota da nossa condição. Um emaranhado de raízes, paradoxos e vontades que nos torna... humanos. E que sorte a nossa: poder chorar num filme bobo, sentir saudade de um cheiro, mudar de ideia no meio de uma frase, amar errado e continuar tentando. Isso é complicação. Mas é também — e profundamente — vida.

Porque, no fim das contas, viver não é resolver. É aprender a dançar com o que não se entende.

terça-feira, 22 de abril de 2025

Cruzam ou Permanecem

Vamos falar sobre encontros, caminhos e o inesperado da vida: enquanto, "Uns cruzam, outros permanecem”.

Outro dia, estava sentado num banco de praça esperando o tempo passar ou talvez esperando que alguma ideia me atravessasse, fiquei observando o movimento das pessoas. Um senhor com uma bengala parou por alguns segundos ao lado de uma mulher que falava ao celular — por um breve instante, os dois compartilharam o mesmo espaço, mas logo seguiram caminhos diferentes. E foi ali, entre um passo e outro, que pensei: quantos encontros nos atravessam todos os dias sem que percebamos?

Alguns encontros são como trens em estações diferentes: passam rápido, fazem barulho, deixam rastros, mas vão embora. Outros, no entanto, chegam devagar, estacionam, e ficam. Há também aqueles que nem percebemos que foram encontros, mas que, anos depois, retornam como uma lembrança insistente, uma saudade que não sabíamos que tínhamos.

A vida se faz nesses cruzamentos. Mas o mais curioso é que não controlamos quem passa por nós, nem quando. Existe uma espécie de coreografia secreta entre o acaso e o destino — e nós, meio desajeitados, tentamos dançar essa dança sem saber muito bem os passos.

O filósofo francês Emmanuel Lévinas dizia que o rosto do outro nos convoca — nos tira de nós mesmos, nos inquieta. Talvez por isso alguns encontros nos deixam em estado de alerta, de emoção, de transformação. Aquele que cruza o nosso caminho e nos olha de um jeito que muda algo por dentro, ainda que não diga nada. Lévinas via no encontro com o outro uma abertura para o infinito. Não um infinito metafísico, distante, mas um que começa aqui, no olhar de alguém que nos atravessa.

E, ao contrário do que muitos pensam, não são apenas os grandes encontros — os amores da vida, os amigos de alma, os mentores — que nos transformam. Às vezes, é o entregador que sorri mesmo debaixo da chuva, é a criança que nos observa no ônibus como se fôssemos personagens de uma história. São esses encontros que costuram o tecido do cotidiano com pequenos pontos de humanidade.

Mas há também os desencontros. Aqueles que nos frustram, que nos fazem perguntar “e se?”. E se eu tivesse dito algo? E se eu tivesse ficado? E se eu tivesse olhado pra trás? Acontece que o tempo não tem tecla de "voltar". E talvez a vida, sábia do jeito que é, saiba a medida exata entre o que permanece e o que apenas passa. Porque, no fundo, tudo que nos atravessa, mesmo que vá embora, nos deixa um pouco diferentes do que éramos antes.

A arte de viver, talvez, seja aceitar que nem tudo o que cruza o nosso caminho está destinado a caminhar ao nosso lado. Alguns vêm apenas para nos ensinar a dizer adeus, outros para nos lembrar como é bom dizer "olá". Há quem fique uma vida, há quem fique um instante. Mas todos, de alguma forma, fazem parte da narrativa que somos.

E quando olhamos pra trás, não vemos uma linha reta. Vemos um mapa tortuoso de encontros, desvios, permanências e ausências. Um emaranhado bonito e doloroso que chamamos de vida.

Então, que a gente aprenda a acolher os que cruzam, a valorizar os que ficam e a soltar com gratidão os que seguem outro rumo. No fim das contas, todos somos viajantes tentando entender onde termina o nosso caminho e onde começa o do outro — e se, por acaso, podemos caminhar juntos por mais um trecho.


quinta-feira, 6 de março de 2025

Negação da Reciprocidade

Sempre ouvimos que a reciprocidade é a base das relações humanas. Seja no amor, na amizade ou no trabalho, esperamos que aquilo que oferecemos volte para nós de alguma forma. Mas e quando isso não acontece? Quando ajudamos sem receber ajuda, quando ouvimos sem ser ouvidos, quando amamos sem ser amados? Existe algo de errado em esperar reciprocidade? Ou a vida simplesmente é assim?

A negação da reciprocidade pode ser vista como um sinal de indiferença, desigualdade ou até mesmo abuso. No entanto, também pode revelar algo sobre a própria natureza da existência: nem tudo se equilibra, nem tudo retorna. A ilusão da simetria nas relações pode gerar ressentimento quando confrontada com a realidade. Friedrich Nietzsche, por exemplo, nos lembra que a vida não opera segundo regras morais fixas; a busca por justiça absoluta é uma construção humana, não um princípio natural.

A negação da reciprocidade também desafia a ideia de que nossas ações devem sempre ter uma recompensa. Filósofos como Emmanuel Levinas argumentam que o verdadeiro sentido da ética não está na troca, mas na responsabilidade incondicional pelo outro. O dever de cuidar e se importar não deveria depender do retorno. No entanto, isso é uma visão que exige um grau de desprendimento raro, especialmente em um mundo onde tudo parece uma transação.

No dia a dia, a falta de reciprocidade pode ser desgastante. O amigo que nunca pergunta como estamos, o colega de trabalho que se aproveita da nossa boa vontade, a família que exige sem dar nada em troca. Podemos reagir de duas formas: ou ajustamos nossas expectativas e aceitamos que nem sempre haverá retorno, ou nos tornamos mais seletivos, evitando relações que só consomem sem nutrir.

A pergunta é: a reciprocidade é um direito ou um privilégio? Talvez a resposta esteja em um equilíbrio entre razão e generosidade. Não se trata de cobrar de forma implacável, mas também não de aceitar passivamente a negação da reciprocidade como se fosse a ordem natural das coisas. Afinal, sem um mínimo de troca, até mesmo os laços mais fortes se desfazem.


quinta-feira, 7 de novembro de 2024

Justiça Social

Sabe aquela sensação de injustiça que bate quando vemos alguém passar por dificuldades que não precisaria enfrentar, ou quando percebemos que nem todo mundo tem as mesmas chances de crescer e viver com dignidade? É mais ou menos por aí que começa a conversa sobre justiça social. É um daqueles temas que todo mundo já ouviu falar, mas que poucos param para refletir a fundo. Afinal, o que realmente significa essa tal de "justiça social"? Não é só dividir recursos ou garantir direitos básicos; vai além disso. É uma questão de olhar para o outro e ver ali alguém que poderia ser você, se as circunstâncias fossem diferentes. E, assim, a justiça social vira quase um convite para repensarmos como nos conectamos uns com os outros e como poderíamos tornar o mundo um lugar onde cada um tenha a chance de ser, verdadeiramente, o que é.

A ideia de justiça social percorre um caminho complexo, onde a moral, a ética, a economia e até mesmo a cultura se entrelaçam para moldar o que entendemos por “justo” em sociedade. Mas o que é, afinal, essa tal justiça social? Não é uma simples fórmula para distribuir riquezas ou garantir acesso a direitos. A justiça social exige que mergulhemos em uma visão mais ampla e humana da existência, em que o outro não é uma abstração distante, mas uma parte viva e pulsante da nossa própria realidade. A proposta aqui é refletir sobre a justiça social como um processo de reconhecer o outro e dar lugar ao que é essencialmente humano – o que, por si só, é um ato revolucionário.

Justiça Social: Reconhecer o Outro e a Vulnerabilidade Compartilhada

Em primeiro lugar, justiça social é sobre reconhecimento. Quando falamos de justiça social, muitas vezes imaginamos uma “distribuição” de recursos ou oportunidades. Mas a raiz do problema é mais profunda. Segundo o filósofo Axel Honneth, o reconhecimento é fundamental para a realização humana: sem reconhecimento, a pessoa é marginalizada não apenas economicamente, mas também espiritualmente. O que implica dizer que, sem um espaço de dignidade, dificilmente podemos falar em justiça.

Esse reconhecimento, no entanto, não significa apenas saber da existência do outro, mas realmente compreender que há uma humanidade vulnerável, com necessidades, medos e esperanças. E talvez a vulnerabilidade seja um dos maiores igualadores sociais, ainda que as desigualdades materiais a escondam sob camadas de privilégios e carências. Justiça social, portanto, envolve entender que, por baixo das diferenças econômicas, de gênero ou raça, há uma humanidade comum, e que os privilégios de uns não devem subtrair a dignidade de outros.

A Ilusão do Merecimento e o Valor da Cooperação

Outro ponto essencial é a ideia de “merecimento”, que frequentemente aparece como um argumento contra a justiça social. Quantas vezes não ouvimos que uma pessoa pobre “merece” sua condição, ou que alguém rico é a prova viva de que o esforço leva ao sucesso? Esse tipo de pensamento ignora que o contexto social, as oportunidades e o apoio que recebemos influenciam fortemente nossas conquistas. O filósofo John Rawls traz uma reflexão interessante sobre a “posição original”, uma ideia de que, se estivéssemos todos em uma posição de partida igual, as estruturas da sociedade seriam muito mais justas. A meritocracia só seria realmente justa se todos tivessem as mesmas oportunidades desde o início, o que, sabemos, não ocorre na realidade.

Além disso, a justiça social coloca em evidência a importância da cooperação. Vivemos em um mundo interdependente, em que ninguém realmente alcança algo sozinho. O que seria de um médico sem uma equipe de enfermagem competente, de um empresário sem seus trabalhadores? A justiça social exige uma visão de mundo onde o valor individual e o coletivo se entrelaçam, e onde o crescimento de um depende, em alguma medida, da prosperidade do outro.

A Dimensão Ética da Justiça Social: Uma Questão de Intenção

Há uma dimensão ética subjacente à justiça social que nem sempre é abordada. Muitas vezes, as ações que visam justiça social são realizadas de forma mecânica, com foco na obrigação ou na autopromoção. Mas a justiça social, em sua essência, demanda uma postura ética que vem do desejo genuíno de ver o bem-estar compartilhado. O filósofo Emmanuel Levinas fala sobre a responsabilidade infinita pelo outro, como um impulso ético que surge de maneira inata. Nesse sentido, a justiça social não é uma meta final, mas um processo contínuo, em que cada ato e cada gesto é uma tentativa de tornar o mundo mais acolhedor e equitativo.

Justiça Social e Autenticidade: Para Além dos Símbolos

A era digital nos trouxe uma avalanche de símbolos de justiça, como hashtags e campanhas virtuais. No entanto, essa “justiça social de vitrine” corre o risco de diluir o sentido profundo do tema. Há uma tendência de reduzir a justiça social a uma marca ou a uma imagem pública de “conscientização”. Mas a verdadeira justiça social exige autenticidade – um compromisso real com as causas e com as pessoas envolvidas. É necessário se perguntar: estamos dispostos a realmente abrir mão de privilégios e repensar estruturas? Ou apenas queremos aparentar estar do “lado certo”? A justiça social implica sacrifício e ação, não apenas discurso.

A Utopia da Justiça Social

A justiça social, ao final das contas, talvez seja uma utopia em muitos aspectos. Uma sociedade completamente justa é um ideal que se move com o tempo e com as necessidades humanas. No entanto, é um ideal que nos mantém em movimento, que nos faz questionar a ordem vigente e que nos lembra do potencial de uma convivência mais harmônica. Não há respostas prontas ou fórmulas universais para alcançar a justiça social. Mas, ao cultivarmos o respeito mútuo, a empatia e a cooperação, damos um passo em direção a uma sociedade onde todos possam não apenas existir, mas florescer.

A justiça social, portanto, não é uma utopia inalcançável, mas um horizonte que nos orienta. Ela nos lembra que a humanidade é uma jornada compartilhada, e que a verdadeira justiça é aquela que reconhece o outro como parte essencial de nós mesmos. 

segunda-feira, 16 de setembro de 2024

Autoconhecimento dos Outros

O autoconhecimento costuma ser um tema que aplicamos a nós mesmos, mas quando pensamos em conhecer os outros, a questão se torna mais sutil. Como realmente saber quem está ao nosso lado? A aparência, as palavras e as ações formam uma camada visível, mas o que acontece por dentro, na mente e no coração, é sempre mais profundo e às vezes inacessível. Quando observamos alguém, o que estamos vendo é uma interpretação do que aquela pessoa está nos mostrando, e não necessariamente a essência dela.

Esse exercício de "conhecer o outro" é, na verdade, um processo contínuo, que se transforma à medida que as relações crescem e se aprofundam. Mas será que algum dia realmente conhecemos alguém por completo? O filósofo Emmanuel Lévinas falava da impossibilidade de capturar o outro em uma definição estática. Para ele, o "rosto do outro" é sempre um enigma, algo que nos desafia e que nunca pode ser completamente entendido. O outro sempre escapa, é irreduzível a qualquer descrição que possamos fazer dele.

No dia a dia, pensamos conhecer bem pessoas próximas – amigos, familiares, colegas –, mas quantas vezes nos surpreendemos com suas atitudes ou pensamentos inesperados? Isso nos lembra que, por mais que convivamos com alguém, há sempre algo mais a descobrir. Esse algo está, muitas vezes, além da superfície do que se mostra, exigindo paciência e uma escuta atenta. Talvez seja impossível conhecer o outro plenamente, mas esse desafio é parte do mistério das relações humanas.

Portanto, o autoconhecimento dos outros também envolve entender que nunca teremos um retrato completo. O outro é um universo em si, que precisa ser compreendido com respeito à sua complexidade e mudança constante. Como você acha que as suas percepções sobre as pessoas ao seu redor mudam com o tempo? E a nosso respeito, mudamos constantemente, e nem sequer damo-nos conta que já estamos noutra vibração, nem o rio é o mesmo e tampouco nós somos os mesmos.