Há
pessoas que parecem carregar dentro de si uma espécie de radar silencioso para
o sofrimento alheio. Elas percebem quando algo não vai bem mesmo sem ninguém
dizer. É aquela colega que nota o cansaço antes de ouvir a queixa, o amigo que pergunta
“tá tudo bem mesmo?” com uma ênfase que atravessa a máscara do “tudo ótimo”.
Esse gesto — discreto, quase sempre invisível — é a matéria da solicitude. Não
se trata de pena, nem de intromissão. É, antes, uma forma de presença atenta,
uma disposição do ser para com o outro.
Na
pressa do mundo contemporâneo, a solicitude virou quase um luxo. Vivemos tão
imersos em nós mesmos — em nossas notificações, tarefas, urgências e distrações
— que esquecemos o que Heidegger chamava de Mitsein, o “ser-com”.
O filósofo alemão via no cuidado (Sorge) a estrutura fundamental
da existência humana: somos seres que cuidam, que se preocupam, que se voltam
para o outro e para o mundo. A solicitude, nesse contexto, é uma manifestação
concreta desse cuidado compartilhado. Ela é o modo como o ser-com se
traduz em gesto, em palavra, em olhar.
Mas
Heidegger distingue dois modos de solicitude: uma que “salta no lugar do
outro” — substituindo-o, tirando-lhe a responsabilidade — e outra que “salta à
frente”, ajudando-o a retomar sua própria capacidade de ser. A primeira é
paternalista; a segunda é libertadora. Quando alguém tenta resolver tudo por
nós, sufoca nosso poder de agir. Já quando alguém nos estende a mão para que
voltemos a caminhar, essa pessoa nos devolve a nós mesmos. A verdadeira
solicitude, portanto, não é invadir o espaço do outro, mas abrir espaço com
o outro.
No
cotidiano, ela aparece nos lugares mais triviais: na professora que percebe o
aluno calado demais, no vizinho que segura o elevador para quem chega ofegante,
no médico que escuta antes de prescrever. São gestos pequenos, mas têm algo de
ontológico — eles dizem: “você existe para mim”.
Em
uma sociedade orientada pela eficiência, onde a indiferença se disfarça de
objetividade, a solicitude é quase um ato de resistência. Ela exige tempo,
silêncio e vulnerabilidade. É preciso desacelerar para enxergar o outro, e
coragem para ser tocado por ele.
O
filósofo Emmanuel Lévinas amplia essa ideia ao colocar o rosto do outro
como fundamento da ética. Para ele, o simples fato de ver o outro — e perceber
que ele me olha — já me convoca à responsabilidade. A solicitude nasce
justamente dessa convocação: é o reconhecimento de que o outro me afeta, e que
não posso permanecer neutro diante de sua existência.
No
Brasil, a solicitude se torna ainda mais necessária — e paradoxalmente mais
rara — num contexto em que as relações sociais se equilibram entre a
cordialidade aparente e a indiferença cotidiana. Nos ambientes de trabalho, por
exemplo, a preocupação genuína pelo outro muitas vezes é vista como fraqueza ou
perda de tempo: “cada um com seus problemas”. Nas redes sociais, multiplicam-se
gestos de solidariedade performática — curtidas, emojis, frases prontas — que
pouco têm a ver com a atenção real a alguém. A solicitude, nesse cenário, seria
uma contraofensiva silenciosa: um modo de resgatar o humano num país em que a
pressa e a desigualdade tendem a desumanizar. Quando paramos para escutar de
verdade, sem filtro e sem agenda, criamos o que o filósofo brasileiro Mario
Sergio Cortella chama de “encontros que edificam” — momentos em que
a presença se transforma em construção mútua.
No
fim das contas, a solicitude é a arte de estar presente sem possuir. É o
cuidado que não quer nada em troca, a empatia que não se exibe, a atenção que
não pesa. Num mundo que nos ensina a competir, ela nos reaprende a coexistir.
Como
escreveu Lévinas, “o eu só se realiza plenamente quando é para o outro”. Talvez
seja por isso que as pessoas verdadeiramente solícitas não se destacam — elas
simplesmente se misturam à vida, restaurando silenciosamente o que o egoísmo
quebra.


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