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terça-feira, 19 de agosto de 2025

Irredutível Alteridade

No convívio diário, estamos sempre tentando traduzir o outro para nossas categorias. Tentamos compreender o amigo pelas nossas referências, enquadrar o colega de trabalho em nossos parâmetros, interpretar o comportamento alheio a partir da nossa lógica. Mas há um ponto em que toda tradução falha: o outro é irredutivelmente outro.

Essa irredutível alteridade não é um obstáculo a ser vencido, mas um mistério a ser respeitado. Ela nos lembra de que nunca possuímos a totalidade do outro, nunca esgotamos sua singularidade. É como uma língua estrangeira que conseguimos entender em partes, mas cujo sotaque, ritmo e silêncios sempre escapam.

No cotidiano, isso se manifesta em pequenas situações: quando um amigo reage de forma inesperada a uma piada, quando um filho guarda um silêncio que não sabemos decifrar, quando alguém amado toma uma decisão que parece inconcebível aos nossos olhos. Nessas horas, percebemos que há zonas inacessíveis da subjetividade alheia — e que tudo bem. O desafio é aprender a conviver com esse “não saber” sem transformar a diferença em ameaça.

O filósofo Emmanuel Lévinas colocou essa questão no centro de sua ética: o rosto do outro é um chamado que não se reduz a conceitos, que não cabe em categorias. Ele insiste em sua estranheza e, exatamente por isso, exige responsabilidade. A alteridade não é para ser assimilada, mas para ser acolhida.

Numa sociedade contemporânea que tende a uniformizar — seja por algoritmos, discursos políticos ou pressões culturais —, reconhecer a irredutibilidade da alteridade é quase um ato de resistência. É afirmar que nem tudo se encaixa, que o diferente não precisa ser tornado igual para ter valor.

Nutrir vínculos com o outro, então, não significa dissolver sua diferença em nossas semelhanças, mas sustentar esse espaço de mistério. É admitir que o outro carrega uma interioridade que jamais será minha, e que isso não é perda, mas riqueza.

No fundo, a irredutível alteridade nos ensina algo fundamental: amar não é possuir, compreender não é reduzir, conviver não é domesticar. É justamente no que escapa que se encontra a beleza de estar com o outro — sempre estrangeiro, sempre novo.


domingo, 9 de fevereiro de 2025

Intolerância Religiosa

A intolerância religiosa é um daqueles fenômenos que parecem absurdos quando observados de fora, mas que se manifestam com uma força assustadora na vida cotidiana. O que faz com que alguém não apenas discorde de uma crença, mas queira destruí-la ou impedir que outros a sigam? Se a fé é algo tão pessoal, por que ela gera conflitos coletivos tão intensos? Para entender essa questão, precisamos explorar não apenas os aspectos sociais e históricos, mas também a relação entre identidade, poder e o medo do desconhecido.

A Raiz Filosófica da Intolerância Religiosa

Desde a antiguidade, a religião tem sido uma das principais forças estruturantes da sociedade. Filósofos como Platão e Aristóteles discutiam a relação entre religião e política, enquanto na Idade Média, Santo Agostinho e Tomás de Aquino buscavam conciliar fé e razão. O problema da intolerância, no entanto, nasce do momento em que a crença religiosa passa a ser vista como uma verdade absoluta e inquestionável. Quando uma religião se torna hegemônica, há uma tendência a excluir ou perseguir quem não compartilha da mesma visão de mundo.

Baruch Spinoza, no século XVII, argumentava que a intolerância religiosa decorre da tentativa das instituições de controlar o pensamento humano. Em seu "Tratado Teológico-Político", ele defendeu a liberdade de crença e alertou para os perigos da fusão entre poder religioso e político. Para ele, a verdadeira espiritualidade não deveria ser imposta, mas sim fruto da reflexão individual.

Já Jean-Paul Sartre, dentro do existencialismo, apontava que as crenças são, em grande parte, construções humanas, e que a intolerância nasce do medo de confrontar a liberdade do outro. Em outras palavras, quando alguém rejeita a religião alheia de forma violenta, o que está em jogo não é apenas a fé, mas a insegurança sobre a própria identidade.

O Medo do Outro e a Construção da Identidade

A intolerância religiosa frequentemente se manifesta como uma aversão ao desconhecido. No cotidiano, isso se traduz em olhares tortos para quem veste um turbante, para um centro de umbanda sendo atacado ou para a insistência em "converter" quem segue outro caminho espiritual. Quando uma crença diferente se apresenta, ela desafia nossas certezas e nos obriga a pensar se realmente temos razão. Para muitos, essa dúvida é insuportável.

O filósofo brasileiro Milton Santos observava que a globalização cria um paradoxo: ao mesmo tempo em que nos aproxima de diferentes culturas e crenças, também gera reações de fechamento e resistência. A intolerância religiosa pode ser vista, então, como uma resposta defensiva diante de um mundo cada vez mais plural. Em vez de lidar com a complexidade, opta-se pela rejeição.

Superar a Intolerância: Um Exercício de Alteridade

Se a intolerância nasce do medo e da insegurança, a saída para esse problema deve envolver o reconhecimento da alteridade. Emmanuel Levinas argumentava que o encontro com o outro é a base da ética. Ou seja, só podemos agir de forma justa quando reconhecemos no outro um ser humano tão legítimo quanto nós mesmos. Isso exige um esforço consciente para ouvir, dialogar e respeitar.

No Brasil, a intolerância religiosa ainda é um desafio, especialmente contra religiões de matriz africana, que sofrem preconceito histórico. Combater esse problema requer não apenas leis e políticas públicas, mas uma mudança cultural que passe pelo sistema educacional e pela formação de uma mentalidade aberta ao diálogo.

A intolerância religiosa é um problema filosófico, social e ético que nasce da rigidez das certezas, do medo do diferente e da instrumentalização da fé para fins de poder. O caminho para superá-la passa pela valorização do pensamento crítico e da empatia. Como disse Voltaire, "posso não concordar com o que você diz, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-lo". Talvez seja hora de aplicarmos esse princípio não apenas à liberdade de expressão, mas também à liberdade de crença.