Às
vezes a gente não quer ser herói. Não quer ser santo. Nem exemplo. A gente só
quer ser justo. Simplesmente justo. Como quem devolve a carteira achada na rua
sem esperar aplauso. Como quem não passa a perna quando ninguém está olhando.
Como quem diz “não fui eu” mesmo sabendo que poderia se esconder atrás do
silêncio. A justiça, nesse sentido, não é um tribunal: é um gesto pequeno,
quase invisível, mas profundamente humano.
O
justo no cotidiano
Ser
justo começa em coisas mínimas. Na fila do mercado, quando você percebe que
alguém tem menos itens e deixa passar. No trabalho, quando reconhece o mérito
do outro mesmo sabendo que isso não te favorece. Na família, quando escuta
antes de julgar. Na política, quando não defende o erro só porque foi cometido
por “um dos nossos”. Na amizade, quando diz a verdade sem humilhar.
O
curioso é que a justiça raramente traz conforto. Ela quase sempre exige perda:
de vantagem, de ego, de pertencimento, de silêncio. Por isso, ser justo não é
natural — é uma escolha.
Justiça
não é neutralidade
Muita
gente confunde justiça com neutralidade. Mas o justo não é quem se omite; é
quem se posiciona sem se corromper. Aristóteles dizia que a justiça é a maior
das virtudes porque organiza todas as outras. Ela não é só uma regra externa,
mas uma disposição interna: uma forma de desejar o que é devido.
Ser
justo não é tratar todos igual, mas tratar cada um conforme sua necessidade e
sua dignidade. O justo reconhece diferenças sem transformá-las em privilégios.
O
conflito entre justiça e conveniência
No
mundo real, a justiça quase sempre perde para a conveniência. É mais fácil
concordar do que confrontar. É mais fácil rir da injustiça quando ela não nos
atinge. É mais fácil adaptar a verdade do que sustentar a integridade.
Nietzsche
já
alertava que muitas morais são apenas acordos de conveniência social. A justiça
autêntica, porém, começa quando o indivíduo se recusa a negociar aquilo que o
torna digno de si mesmo.
O
justo como equilíbrio frágil
A
justiça não é um estado permanente. É um equilíbrio frágil entre razão, empatia
e coragem. Quem é justo hoje pode não ser amanhã. Por isso, ser justo é uma
prática, não um título.
Hannah
Arendt mostrou que grandes injustiças históricas não
nasceram de monstros, mas de pessoas comuns que abriram mão de pensar. O justo,
então, é aquele que se recusa a anestesiar a consciência.
Simplesmente
justo
Ser
simplesmente justo não muda o mundo inteiro. Mas muda um mundo: o de quem
convive com você. E muda, principalmente, o mundo dentro de você. Porque a
justiça, quando é autêntica, não produz orgulho — produz silêncio. Um silêncio
tranquilo de quem sabe que não traiu a própria medida.
No
fim, talvez a maior revolução não seja ser radical, nem perfeito, nem
admirável. Talvez seja apenas isso: ser simplesmente justo. Quando ninguém vê.
Quando ninguém aplaude. Quando só a consciência está assistindo.
E,
estranhamente, isso já é muito.