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quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Simplesmente Justo


Às vezes a gente não quer ser herói. Não quer ser santo. Nem exemplo. A gente só quer ser justo. Simplesmente justo. Como quem devolve a carteira achada na rua sem esperar aplauso. Como quem não passa a perna quando ninguém está olhando. Como quem diz “não fui eu” mesmo sabendo que poderia se esconder atrás do silêncio. A justiça, nesse sentido, não é um tribunal: é um gesto pequeno, quase invisível, mas profundamente humano.

O justo no cotidiano

Ser justo começa em coisas mínimas. Na fila do mercado, quando você percebe que alguém tem menos itens e deixa passar. No trabalho, quando reconhece o mérito do outro mesmo sabendo que isso não te favorece. Na família, quando escuta antes de julgar. Na política, quando não defende o erro só porque foi cometido por “um dos nossos”. Na amizade, quando diz a verdade sem humilhar.

O curioso é que a justiça raramente traz conforto. Ela quase sempre exige perda: de vantagem, de ego, de pertencimento, de silêncio. Por isso, ser justo não é natural — é uma escolha.

Justiça não é neutralidade

Muita gente confunde justiça com neutralidade. Mas o justo não é quem se omite; é quem se posiciona sem se corromper. Aristóteles dizia que a justiça é a maior das virtudes porque organiza todas as outras. Ela não é só uma regra externa, mas uma disposição interna: uma forma de desejar o que é devido.

Ser justo não é tratar todos igual, mas tratar cada um conforme sua necessidade e sua dignidade. O justo reconhece diferenças sem transformá-las em privilégios.

O conflito entre justiça e conveniência

No mundo real, a justiça quase sempre perde para a conveniência. É mais fácil concordar do que confrontar. É mais fácil rir da injustiça quando ela não nos atinge. É mais fácil adaptar a verdade do que sustentar a integridade.

Nietzsche já alertava que muitas morais são apenas acordos de conveniência social. A justiça autêntica, porém, começa quando o indivíduo se recusa a negociar aquilo que o torna digno de si mesmo.

O justo como equilíbrio frágil

A justiça não é um estado permanente. É um equilíbrio frágil entre razão, empatia e coragem. Quem é justo hoje pode não ser amanhã. Por isso, ser justo é uma prática, não um título.

Hannah Arendt mostrou que grandes injustiças históricas não nasceram de monstros, mas de pessoas comuns que abriram mão de pensar. O justo, então, é aquele que se recusa a anestesiar a consciência.

Simplesmente justo

Ser simplesmente justo não muda o mundo inteiro. Mas muda um mundo: o de quem convive com você. E muda, principalmente, o mundo dentro de você. Porque a justiça, quando é autêntica, não produz orgulho — produz silêncio. Um silêncio tranquilo de quem sabe que não traiu a própria medida.

No fim, talvez a maior revolução não seja ser radical, nem perfeito, nem admirável. Talvez seja apenas isso: ser simplesmente justo. Quando ninguém vê. Quando ninguém aplaude. Quando só a consciência está assistindo.

E, estranhamente, isso já é muito.

domingo, 29 de dezembro de 2024

Onda Inútil

Imagine-se à beira-mar, observando o vaivém incessante das ondas. Algumas arrebentam com força, outras desaparecem suavemente, sem deixar rastro além de espuma efêmera. Entre elas, há aquelas que parecem inúteis — ondas que não alcançam a areia, que não carregam força suficiente para mover sequer um grão. É sobre essas ondas inúteis que construímos nossa metáfora: o movimento que se desgasta em si mesmo, sem alterar nada ao seu redor, como um esforço sem direção.

No cotidiano, somos frequentemente protagonistas ou espectadores dessas "ondas inúteis". O envio de uma mensagem sem resposta, o esforço em agradar quem não se importa, ou a repetição de tarefas que parecem não levar a lugar algum — tudo isso se encaixa no conceito de movimentar-se sem propósito. Mas será mesmo inútil?

A Ilusão da Inutilidade

Aristóteles argumentava que toda ação busca um fim, mesmo quando não o compreendemos de imediato. Talvez a "onda inútil" seja apenas o reflexo de uma perspectiva limitada, incapaz de enxergar o impacto sutil ou a aprendizagem que pode advir do esforço aparentemente fútil. Um e-mail ignorado, por exemplo, pode servir como exercício de comunicação. Uma relação unilateral pode ser um espelho que nos ajuda a entender nossa necessidade de validação.

Fernando Pessoa, em sua inquietude poética, dizia que “tudo vale a pena se a alma não é pequena”. Até o movimento mais singelo, por mais que pareça insignificante, pode conter um valor intrínseco. A onda inútil talvez não mova areia, mas participa do ritmo do oceano, influenciando a harmonia maior.

A Utilidade do Inútil

O filósofo italiano Nuccio Ordine, em seu livro A Utilidade do Inútil, defende que muitas coisas consideradas supérfluas — como a arte, a literatura e o pensamento abstrato — são fundamentais para a realização humana. Ele argumenta que nossa obsessão por resultados tangíveis obscurece o valor das experiências que não visam um ganho imediato ou prático.

Seguindo essa linha, a onda inútil pode ser a metáfora daquilo que existe pelo simples fato de existir, desprovido da necessidade de justificativa externa. É o ato de apreciar o pôr do sol, mesmo sabendo que o sol não está “se pondo” de verdade. É o esforço de plantar sementes sabendo que talvez nunca vejamos a árvore crescer.

O Silêncio das Ondas

Há também uma lição no silêncio das ondas inúteis. Elas nos convidam a contemplar o vazio, a aceitar o não-fazer como parte da experiência humana. Lao-Tsé, no Tao Te Ching, ensina que o não-agir (wu wei) pode ser uma forma de sabedoria, um modo de fluir com o mundo sem tentar controlá-lo.

A onda inútil nos lembra que nem todo movimento precisa de um propósito claro. Talvez seja mais sobre estar no fluxo da vida, aceitando a impermanência e a falta de garantias. Afinal, não é o oceano feito dessas ondas?

A Beleza do Sem Sentido

A onda inútil não precisa justificar sua existência. Ela é um lembrete de que há beleza no esforço que não produz resultado, na ação que não deixa marca, no movimento que é apenas movimento.

Na próxima vez que se sentir como uma onda inútil, lembre-se: até a mais frágil das ondas compõe o grande oceano. E talvez, apenas talvez, a inutilidade seja o ponto de partida para uma utilidade maior que ainda não conseguimos compreender.