Tem dias em que a gente para no meio do caminho — literalmente — só para olhar o céu. Nem precisa ser à noite, com estrelas piscando tímidas; basta o azul claro da tarde ou o cinza carregado de chuva para lembrar que existe algo muito maior do que o nosso calendário cheio de tarefas. Nessas horas, o pensamento escorrega para longe, como se o olhar, ao tocar a imensidão, abrisse uma janela para o desconhecido de dentro da gente.
Olhar
para a imensidão é um ato antigo, humano, quase instintivo. Desde o pastor no
deserto até o executivo na varanda do apartamento, todos já pararam um momento
para encarar esse vazio que não responde, mas que também não ignora. A
imensidão é um espelho silencioso: ela reflete o tamanho da alma de quem a vê.
Mas
o que é imensidão? É só o espaço físico — o céu, o mar, o horizonte? Ou será
que a verdadeira imensidão mora na consciência — esse abismo íntimo onde vivem
os sonhos, as memórias, os medos, as perguntas sem resposta?
O
pensador teosófico N. Sri Ram, em O Homem: Sua Origem e Evolução,
nos lembra que “a natureza essencial do homem é inseparável do Todo; ele é, em
essência, o próprio universo em miniatura.” Para ele, não há separação entre a
vastidão do cosmos e a vastidão da alma. A imensidão do céu é também a
imensidão interior — e só quem ousa olhar para dentro descobre o infinito de
fora.
É
curioso como esse pensamento conversa com o estoicismo de Marco Aurélio,
que escrevia sobre o "todo cósmico" em seu diário pessoal. Para ele,
o homem sábio é aquele que aceita seu papel no grande organismo do universo,
como uma célula que pertence a algo infinitamente maior. O olhar para a
imensidão não é, então, fuga do mundo — mas um retorno humilde ao nosso lugar
nele.
No
cotidiano, esse olhar é raro. Andamos cabisbaixos, fitando telas de celulares
ou preocupações rotineiras. Quando alguém se dá o luxo de parar e encarar o céu
ou o mar sem motivo prático, quase parece um desperdício — mas não é. Como
lembra o filósofo brasileiro Huberto Rohden, “quem aprende a contemplar
o infinito jamais se perde no finito”. Para ele, a experiência do transcendente
começa exatamente nesse ato simples: deixar o espírito se expandir ao
contemplar o que não pode ser contado ou possuído.
A
imensidão tem também um lado perturbador. Ela lembra que somos passageiros,
frágeis, impermanentes. Mas é desse desconcerto que nasce o verdadeiro senso de
sacralidade. Quem olha demais para baixo esquece o mistério; quem olha para a
imensidão descobre que o mundo tem mais perguntas que respostas — e que isso
não é um defeito, mas uma benção.
Por
isso, talvez olhar para a imensidão seja também um gesto de cura. Não cura das
dores práticas, das contas a pagar ou das feridas do corpo — mas da doença mais
sutil da alma moderna: a sensação de sufoco, de que tudo é pequeno demais,
apertado demais, sem espaço para o ser respirar.
Na
tradição zen, há um koan famoso: "Mostre-me seu rosto original antes que
seus pais tenham nascido." O rosto original é a própria imensidão da
consciência, anterior a todo nome, toda forma, todo limite. Olhar para o céu,
no fundo, é tentar vislumbrar esse rosto invisível que carregamos desde sempre.
A
imensidão não responde, mas escuta. E quem escuta de volta, pode, às vezes,
ouvir um eco: uma lembrança esquecida, uma intuição nova, um chamado mudo para
viver de outro modo — mais leve, mais livre, mais inteiro.
Talvez
por isso o poeta Fernando Pessoa tenha escrito:
"Tudo
vale a pena se a alma não é pequena."
Porque
uma alma pequena não aguenta a imensidão. Mas uma alma que se deixa crescer
pelo espanto pode, quem sabe, aprender a morar nela.

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