Inquietar o espírito não é cultivar tormentos desnecessários, nem viver numa busca compulsiva por crises. É, antes, recusar-se a aceitar que a vida se resume a repetir o que já sabemos, a seguir passos que não escolhemos e a permanecer confortáveis em certezas que talvez sejam apenas heranças mal examinadas.
Paulo
Freire dizia que “ninguém educa ninguém, ninguém se educa
sozinho, os homens se educam em comunhão”. Mas essa comunhão só é
verdadeira quando há diálogo real — e o diálogo começa na pergunta que desmonta
a naturalidade das coisas. Para Freire, a educação libertadora nasce quando a
realidade deixa de ser vista como “dada” e passa a ser percebida como “construída”.
Isso significa que inquietar o espírito é um ato pedagógico: ele rompe o transe
do hábito e abre caminho para uma nova forma de ver.
Kierkegaard,
o filósofo dinamarquês que tanto falou sobre a subjetividade e a autenticidade,
via na inquietação um ponto de virada. Para ele, a angústia não é sinal de
fracasso, mas de possibilidade — o desconforto que sentimos quando percebemos
que somos responsáveis por nossas escolhas. A inquietação é, nesse sentido, um
tipo de vertigem existencial: ao mesmo tempo em que nos desequilibra, nos
revela o chão que realmente é nosso.
Mas
como, na prática, inquietar o espírito sem cair no caos estéril? Há algumas
estratégias simples que funcionam como “micro-revoluções” pessoais:
- Trocar de perspectiva:
ler um autor que contradiga profundamente nossas convicções e buscar
entender onde ele pode ter razão.
- Perguntar em profundidade:
diante de uma crença, aplicar a regra dos “cinco porquês” para descobrir a
raiz.
- Sair da bolha cotidiana:
mudar de rota, de ambiente ou de hábito, para forçar novos olhares.
- Praticar o diálogo vulnerável:
conversar sem a intenção de convencer, mas para realmente ouvir e ser
ouvido.
Essas
pequenas rupturas desestabilizam o conforto mental e emocional que, com o
tempo, pode se tornar estagnação.
Inquietar
o espírito, no entanto, não significa destruir por destruir. É preciso ética
nesse movimento. Não se trata de provocar inseguranças apenas para exibir
superioridade intelectual ou “ganhar discussões”. A inquietação fecunda é
aquela que gera transformação — tanto no outro quanto em nós mesmos — e que
está disposta a sustentar o cuidado após a ruptura.
Freire
nos lembraria que a inquietação não é individualista: ela se alimenta da troca,
da escuta e do respeito à experiência alheia. Kierkegaard completaria
dizendo que a inquietação é um passo rumo à autenticidade: não basta romper com
as ilusões externas, é preciso também encarar as ilusões internas.
Se
o espírito não se inquieta, ele adormece — e quando acorda, pode ser tarde
demais para recuperar o tempo perdido. Por isso, inquietar é, paradoxalmente,
uma forma de preservar a vida: manter os sentidos despertos, as perguntas
afiadas e a coragem de mudar de caminho, mesmo quando todos esperam que
continuemos na mesma estrada.
No
fundo, inquietar o espírito é um ato de esperança. É acreditar que sempre há
mais para ver, para entender e para ser. É recusar a versão reduzida de nós
mesmos que o costume insiste em apresentar. E, como diria Kierkegaard, “a
angústia é a possibilidade da liberdade”. Não se acomode, pois o tempo flui
a cada respiração.