Eu
já confundi penitência com profundidade. E prazer com superficialidade. Hoje,
vejo que essa divisão era mais moral do que verdadeira.
Aprendi
cedo que sofrer dava um certo prestígio silencioso. Quem aguenta mais, quem renuncia
mais, quem se priva mais… parece sempre mais sério, mais digno, mais “elevado”.
O prazer, ao contrário, vinha quase sempre acompanhado de culpa, como se
alegria fosse uma forma disfarçada de irresponsabilidade.
Mas
a vida, com sua pedagogia lenta, começou a desmontar isso.
Percebi
que há penitências que não purificam — apenas endurecem. E prazeres que não
distraem — apenas lembram que ainda estamos vivos.
No
cotidiano, isso é evidente.
Quando
trabalho além do limite e chamo de virtude.
Quando
recuso um descanso e chamo de caráter.
Quando
aceito um pequeno prazer e sinto que estou “falhando”.
A
penitência pode ser fuga: uma maneira elegante de não lidar com o desejo.
O
prazer pode ser coragem: uma maneira simples de afirmar a existência.
Nietzsche
já
desconfiava dessa moral que santifica a dor e suspeita da alegria. Para ele, o
problema não era o sofrimento em si, mas o culto ao sofrimento como se fosse
superior à vida.
Talvez
o amadurecimento esteja em reconciliar essas duas forças.
Há
uma penitência necessária: a que disciplina, orienta, ensina limites.
E
há um prazer necessário: o que reencanta, suaviza, devolve sentido.
Quando
uma exclui a outra, a alma adoece.
Eu
começo a pensar que viver bem não é escolher entre penitência ou prazer, mas
permitir que ambos dialoguem. Que o esforço não destrua a alegria. Que a
alegria não destrua a responsabilidade.
Porque
a existência não pede heróis nem hedonistas.
Pede
apenas alguém que saiba sofrer sem se glorificar —
e
gozar sem se envergonhar.