Argumentos de Nossos Antepassados
Outro
dia, lembrei que tempos atrás mexendo numa caixa antiga de meus pais, encontrei
um caderno de capa dura, já meio gasto, onde havia registro de pensamentos e
pequenas observações sobre o dia. Nada de frases grandiosas ou planos
mirabolantes — eram comentários sobre o clima, preços do mercado, um provérbio
que alguém lhe contou. Mas, enquanto lia, percebi que ali havia muito mais do
que simples anotações: havia um jeito de pensar o mundo, de argumentar sobre a
vida, ainda que com palavras simples de alguém que tinha cursado até a 4ª série
do primário.
E
me bateu uma pergunta: como é que a gente pode repensar as ideias de quem viveu
antes de nós se não soubermos ler de verdade? Não falo só de juntar letras, mas
de escutar o que o texto quer dizer, de absorver aquele pensamento e
confrontá-lo com o nosso. É aí que percebi — o diálogo com nossos antepassados
só acontece para quem é alfabetizado no sentido mais profundo: aquele que lê
para transformar, e não só para passar o olho.
A
leitura é uma ponte invisível entre tempos, um fio de continuidade que conecta
vozes de séculos passados à inquietude de nossas mentes presentes. Repensar os
argumentos de nossos antepassados não é apenas um ato de erudição, mas um
exercício de resgate da experiência humana em sua forma mais concentrada: o
pensamento registrado.
Mas
há um ponto crucial: só é possível reabrir essa conversa com o passado quando
existe alfabetização — não apenas a técnica de decodificar letras, mas a
competência de extrair sentido, absorver e reconfigurar os registros herdados.
Um texto antigo só “fala” de fato quando encontramos nele uma interrogação
viva, e não um monumento morto.
O
filósofo brasileiro Antônio Candido lembrava que a literatura, e por
extensão qualquer texto, não é só ornamento, mas uma necessidade: “assim como
todos sonham, todos necessitam da ficção para se compreender”. Se não dominamos
a leitura, não sonhamos com os mortos — e o diálogo com nossos antepassados se
perde.
Walter
Benjamin advertiu que todo documento de cultura é também um
documento de barbárie. Ou seja, repensar argumentos passados exige não apenas
admiração, mas um olhar crítico. O leitor alfabetizado de hoje tem a tarefa de
ouvir sem ingenuidade: o que foi sabedoria para um século pode ser veneno para
outro.
Exemplos
no cotidiano
- Cartas de família
— Um neto encontra as cartas de seu avô escritas durante a década de 1940.
Um leitor apressado lê nomes, datas e frases sentimentais. Um leitor
crítico percebe ali pistas sobre o contexto histórico, o modo como as
relações familiares eram moldadas pelo trabalho, pela guerra e pelo
preconceito velado da época.
- Atas de associações comunitárias
— Uma professora de história consulta as atas de uma associação de bairro
fundada nos anos 60. Para além das decisões formais, vê o embate de
ideias: a defesa da escola pública, a desconfiança com o governo, a
insistência em festas comunitárias. Ao reler esses registros, percebe que
alguns problemas e sonhos permanecem os mesmos.
- Receitas de cozinha
— Um chef encontra um caderno de receitas da bisavó. Não é só culinária:
cada prato guarda histórias de migração, escassez, adaptação de
ingredientes e até influências culturais que hoje passam despercebidas.
Ler é também decifrar o que está por trás do gesto de escrever.
Outros
pensadores brasileiros
Paulo
Freire insistia que “a leitura do mundo precede a leitura da
palavra”. Antes de entender um texto, é preciso entender o contexto em que ele
foi escrito — e isso é o que separa o alfabetizado funcional do alfabetizado
crítico. Sem essa leitura profunda, reler nossos antepassados se reduz a copiar
fórmulas mortas.
Lúcia
Miguel Pereira, crítica literária, dizia que a obra de
um autor é também sua autobiografia disfarçada. Isso nos lembra que, ao reler
um documento do passado, não lemos apenas ideias, mas vidas inteiras
condensadas.
N.
Sri Ram, pensador teosófico, escreveu que “o verdadeiro
conhecimento não está em acumular, mas em compreender o que está por trás das
palavras”. Assim, alfabetizar-se plenamente é aprender a escutar o não-dito, o
silêncio entre as frases que o tempo deixou.
Repensar
nossos antepassados não é um culto de veneração nem um julgamento sumário. É
uma arqueologia do sentido: cavamos os registros não para viver como eles, mas
para entender como chegamos a viver como vivemos. E nisso, a alfabetização é
mais do que chave — é a única porta de entrada para que o diálogo entre passado
e presente seja vivo, fecundo e transformador.