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domingo, 7 de setembro de 2025

Ler e Repensar

Argumentos de Nossos Antepassados

Outro dia, lembrei que tempos atrás mexendo numa caixa antiga de meus pais, encontrei um caderno de capa dura, já meio gasto, onde havia registro de pensamentos e pequenas observações sobre o dia. Nada de frases grandiosas ou planos mirabolantes — eram comentários sobre o clima, preços do mercado, um provérbio que alguém lhe contou. Mas, enquanto lia, percebi que ali havia muito mais do que simples anotações: havia um jeito de pensar o mundo, de argumentar sobre a vida, ainda que com palavras simples de alguém que tinha cursado até a 4ª série do primário.

E me bateu uma pergunta: como é que a gente pode repensar as ideias de quem viveu antes de nós se não soubermos ler de verdade? Não falo só de juntar letras, mas de escutar o que o texto quer dizer, de absorver aquele pensamento e confrontá-lo com o nosso. É aí que percebi — o diálogo com nossos antepassados só acontece para quem é alfabetizado no sentido mais profundo: aquele que lê para transformar, e não só para passar o olho.

A leitura é uma ponte invisível entre tempos, um fio de continuidade que conecta vozes de séculos passados à inquietude de nossas mentes presentes. Repensar os argumentos de nossos antepassados não é apenas um ato de erudição, mas um exercício de resgate da experiência humana em sua forma mais concentrada: o pensamento registrado.

Mas há um ponto crucial: só é possível reabrir essa conversa com o passado quando existe alfabetização — não apenas a técnica de decodificar letras, mas a competência de extrair sentido, absorver e reconfigurar os registros herdados. Um texto antigo só “fala” de fato quando encontramos nele uma interrogação viva, e não um monumento morto.

O filósofo brasileiro Antônio Candido lembrava que a literatura, e por extensão qualquer texto, não é só ornamento, mas uma necessidade: “assim como todos sonham, todos necessitam da ficção para se compreender”. Se não dominamos a leitura, não sonhamos com os mortos — e o diálogo com nossos antepassados se perde.

Walter Benjamin advertiu que todo documento de cultura é também um documento de barbárie. Ou seja, repensar argumentos passados exige não apenas admiração, mas um olhar crítico. O leitor alfabetizado de hoje tem a tarefa de ouvir sem ingenuidade: o que foi sabedoria para um século pode ser veneno para outro.

Exemplos no cotidiano

  • Cartas de família — Um neto encontra as cartas de seu avô escritas durante a década de 1940. Um leitor apressado lê nomes, datas e frases sentimentais. Um leitor crítico percebe ali pistas sobre o contexto histórico, o modo como as relações familiares eram moldadas pelo trabalho, pela guerra e pelo preconceito velado da época.
  • Atas de associações comunitárias — Uma professora de história consulta as atas de uma associação de bairro fundada nos anos 60. Para além das decisões formais, vê o embate de ideias: a defesa da escola pública, a desconfiança com o governo, a insistência em festas comunitárias. Ao reler esses registros, percebe que alguns problemas e sonhos permanecem os mesmos.
  • Receitas de cozinha — Um chef encontra um caderno de receitas da bisavó. Não é só culinária: cada prato guarda histórias de migração, escassez, adaptação de ingredientes e até influências culturais que hoje passam despercebidas. Ler é também decifrar o que está por trás do gesto de escrever.

Outros pensadores brasileiros

Paulo Freire insistia que “a leitura do mundo precede a leitura da palavra”. Antes de entender um texto, é preciso entender o contexto em que ele foi escrito — e isso é o que separa o alfabetizado funcional do alfabetizado crítico. Sem essa leitura profunda, reler nossos antepassados se reduz a copiar fórmulas mortas.

Lúcia Miguel Pereira, crítica literária, dizia que a obra de um autor é também sua autobiografia disfarçada. Isso nos lembra que, ao reler um documento do passado, não lemos apenas ideias, mas vidas inteiras condensadas.

N. Sri Ram, pensador teosófico, escreveu que “o verdadeiro conhecimento não está em acumular, mas em compreender o que está por trás das palavras”. Assim, alfabetizar-se plenamente é aprender a escutar o não-dito, o silêncio entre as frases que o tempo deixou.

Repensar nossos antepassados não é um culto de veneração nem um julgamento sumário. É uma arqueologia do sentido: cavamos os registros não para viver como eles, mas para entender como chegamos a viver como vivemos. E nisso, a alfabetização é mais do que chave — é a única porta de entrada para que o diálogo entre passado e presente seja vivo, fecundo e transformador.


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