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quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Aperto de Mãos

Quando o corpo diz “estou aqui”



A gente aperta a mão de alguém antes mesmo de saber o que vai dizer. Às vezes, antes mesmo de saber quem aquela pessoa é. O gesto vem primeiro, a palavra depois. É curioso: um movimento tão simples — duas mãos que se encontram por alguns segundos — consegue dizer mais do que discursos inteiros. Confiança, hesitação, pressa, respeito, poder, submissão. Tudo escapa ali, pela palma da mão.

No cotidiano, o aperto de mãos é quase invisível, automático. Mas talvez seja justamente aí que ele se torna filosoficamente interessante: quando algo se repete tanto que a gente esquece de perguntar o que está realmente acontecendo.

Situações comuns, sentidos ocultos

Pense em uma entrevista de emprego. O candidato entra, sorri, estende a mão. Se o aperto é firme demais, vira agressividade. Se é frouxo, vira insegurança. Ninguém explica isso, mas todos sabem. O corpo já aprendeu a linguagem antes da consciência.

Ou no encontro casual com alguém conhecido: um vizinho, um colega distante. O aperto de mãos funciona como uma ponte mínima entre dois mundos que não querem se misturar demais. Não é abraço — que envolve — nem aceno — que distancia. É um meio-termo civilizado: reconheço você, mas continuo inteiro.

Há também o aperto de mãos que sela acordos. Mesmo com contratos assinados, é o gesto final que parece legitimar tudo. Como se disséssemos: “Agora não é mais papel, é corpo”.

A mão como lugar da ética

Aqui, vale chamar Emmanuel Lévinas para a conversa. Para ele, a ética nasce no encontro com o outro — não como ideia abstrata, mas como presença concreta. O rosto do outro nos convoca, nos obriga, nos tira do centro.

O aperto de mãos pode ser lido como uma extensão desse pensamento. Ao estender a mão, eu me exponho. Abro a parte do corpo que toca, que trabalha, que sente. E ao segurar a mão do outro, aceito, ainda que por segundos, a sua alteridade. Não é fusão. É contato.

A mão não engana tão facilmente quanto o discurso. Ela treme, sua, escapa, aperta demais. O corpo entrega o que a palavra tenta esconder. Por isso, o aperto de mãos é ético: ele revela sem pedir licença.

Poder, controle e assimetria

Nietzsche talvez olhasse para o aperto de mãos com certo ceticismo. Onde há gesto social, há também disputa. Quem aperta primeiro? Quem solta por último? Quem puxa o outro levemente para si?

No cotidiano, vemos isso claramente em ambientes corporativos ou políticos. O aperto de mãos vira um microcampo de forças. Um pequeno duelo silencioso. O gesto que deveria simbolizar igualdade, muitas vezes escancara hierarquias.

E isso não é um defeito do gesto — é a sua verdade. O aperto de mãos não cria relações; ele revela as que já existem.

Quando o gesto falha

Curiosamente, sentimos falta do aperto de mãos quando ele desaparece. Em momentos de crise sanitária, por exemplo, o gesto some — e algo do tecido social se rompe junto. Ficam os cotovelos, os acenos constrangidos, os sorrisos à distância. Nada substitui completamente o toque.

Isso nos lembra que não somos apenas seres de linguagem, mas de contato. O mundo não se sustenta só por ideias; precisa de gestos mínimos, repetidos, quase banais.

Um gesto pequeno demais para ser pequeno

O aperto de mãos é um ritual discreto de reconhecimento mútuo. Ele diz: estamos no mesmo espaço, não somos inimigos, podemos começar daqui. Não resolve conflitos, não garante honestidade, não salva o mundo. Mas inaugura algo essencial: a possibilidade de relação.

Talvez a filosofia precise, de vez em quando, descer das grandes abstrações e olhar para esses gestos miúdos. Porque é neles que a vida acontece — não em tratados, mas em mãos que se encontram por alguns segundos e depois seguem seus caminhos, carregando, sem saber, o peso simbólico de um mundo inteiro.

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