Quando o corpo diz “estou aqui”
A
gente aperta a mão de alguém antes mesmo de saber o que vai dizer. Às vezes,
antes mesmo de saber quem aquela pessoa é. O gesto vem primeiro, a
palavra depois. É curioso: um movimento tão simples — duas mãos que se
encontram por alguns segundos — consegue dizer mais do que discursos inteiros.
Confiança, hesitação, pressa, respeito, poder, submissão. Tudo escapa ali, pela
palma da mão.
No
cotidiano, o aperto de mãos é quase invisível, automático. Mas talvez seja
justamente aí que ele se torna filosoficamente interessante: quando algo se
repete tanto que a gente esquece de perguntar o que está realmente
acontecendo.
Situações
comuns, sentidos ocultos
Pense
em uma entrevista de emprego. O candidato entra, sorri, estende a mão. Se o
aperto é firme demais, vira agressividade. Se é frouxo, vira insegurança.
Ninguém explica isso, mas todos sabem. O corpo já aprendeu a linguagem antes da
consciência.
Ou
no encontro casual com alguém conhecido: um vizinho, um colega distante. O
aperto de mãos funciona como uma ponte mínima entre dois mundos que não querem
se misturar demais. Não é abraço — que envolve — nem aceno — que distancia. É
um meio-termo civilizado: reconheço você, mas continuo inteiro.
Há
também o aperto de mãos que sela acordos. Mesmo com contratos assinados, é o
gesto final que parece legitimar tudo. Como se disséssemos: “Agora não é mais
papel, é corpo”.
A
mão como lugar da ética
Aqui,
vale chamar Emmanuel Lévinas para a conversa. Para ele, a ética nasce no
encontro com o outro — não como ideia abstrata, mas como presença concreta. O
rosto do outro nos convoca, nos obriga, nos tira do centro.
O
aperto de mãos pode ser lido como uma extensão desse pensamento. Ao estender a
mão, eu me exponho. Abro a parte do corpo que toca, que trabalha, que sente. E
ao segurar a mão do outro, aceito, ainda que por segundos, a sua alteridade.
Não é fusão. É contato.
A
mão não engana tão facilmente quanto o discurso. Ela treme, sua, escapa, aperta
demais. O corpo entrega o que a palavra tenta esconder. Por isso, o aperto de
mãos é ético: ele revela sem pedir licença.
Poder,
controle e assimetria
Nietzsche
talvez olhasse para o aperto de mãos com certo ceticismo. Onde há gesto social,
há também disputa. Quem aperta primeiro? Quem solta por último? Quem puxa o
outro levemente para si?
No
cotidiano, vemos isso claramente em ambientes corporativos ou políticos. O
aperto de mãos vira um microcampo de forças. Um pequeno duelo silencioso. O
gesto que deveria simbolizar igualdade, muitas vezes escancara hierarquias.
E
isso não é um defeito do gesto — é a sua verdade. O aperto de mãos não cria
relações; ele revela as que já existem.
Quando
o gesto falha
Curiosamente,
sentimos falta do aperto de mãos quando ele desaparece. Em momentos de crise
sanitária, por exemplo, o gesto some — e algo do tecido social se rompe junto.
Ficam os cotovelos, os acenos constrangidos, os sorrisos à distância. Nada
substitui completamente o toque.
Isso
nos lembra que não somos apenas seres de linguagem, mas de contato. O mundo não
se sustenta só por ideias; precisa de gestos mínimos, repetidos, quase banais.
Um
gesto pequeno demais para ser pequeno
O
aperto de mãos é um ritual discreto de reconhecimento mútuo. Ele diz: estamos
no mesmo espaço, não somos inimigos, podemos começar daqui.
Não resolve conflitos, não garante honestidade, não salva o mundo. Mas inaugura
algo essencial: a possibilidade de relação.
Talvez
a filosofia precise, de vez em quando, descer das grandes abstrações e olhar
para esses gestos miúdos. Porque é neles que a vida acontece — não em tratados,
mas em mãos que se encontram por alguns segundos e depois seguem seus caminhos,
carregando, sem saber, o peso simbólico de um mundo inteiro.

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