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quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Morada Temporária


Há momentos em que tenho a sensação não é de “estar vivo”, mas de estar vivendo dentro de algo — como se o corpo fosse mais um instrumento do que uma identidade. É a partir dessa inquietação silenciosa que nasceu a ideia: e se eu não for o corpo, mas apenas o hóspede dele?

O Corpo Como Morada Temporária

Eu caminho pela rua, sinto o peso dos passos, o ritmo da respiração, o leve desconforto de existir em matéria — e, ainda assim, há algo em mim que observa tudo isso de fora. Não completamente fora, mas também não totalmente dentro. Como se eu estivesse ocupando este corpo do mesmo modo que se ocupa uma casa: conhecendo seus cômodos, suas limitações, seus ruídos… mas sem me confundir com suas paredes.

Essa experiência não é nova. Desde Platão, existe a suspeita de que o corpo é apenas uma espécie de prisão ou veículo da alma. Para ele, o verdadeiro conhecimento não vem dos sentidos — que pertencem ao corpo —, mas de algo mais profundo, mais essencial. Algo que lembra, em vez de aprender. Algo que já sabe.

E talvez seja isso que causa esse estranhamento cotidiano: quando me vejo reagindo automaticamente, quando meu humor muda por causas físicas — fome, cansaço, dor —, sinto que há uma distância entre “aquilo que sente” e “aquilo que percebe o sentir”. Quem observa o corpo cansado não parece estar cansado da mesma forma. Quem percebe a dor não é exatamente a dor.

No café da manhã, por exemplo, enquanto seguro a xícara, posso notar duas camadas acontecendo ao mesmo tempo: uma que vive o gesto — o calor da bebida, o gosto, o hábito — e outra que simplesmente assiste. Essa segunda camada é silenciosa, constante, quase indiferente. Não julga, não reage, apenas testemunha.

René Descartes diria que essa divisão é a prova de que há duas substâncias: a res cogitans (mente) e a res extensa (corpo). Mas, vivendo isso na prática, a coisa parece menos organizada do que na teoria. Não são duas coisas separadas — são duas experiências sobrepostas.

O mais curioso é que o corpo muda o tempo todo, enquanto essa “presença que observa” parece manter uma continuidade estranha. O corpo de dez anos atrás já não é o mesmo, as células se renovaram, os hábitos mudaram, as ideias também — mas há algo que insiste em dizer: “eu sou o mesmo”.

Mas quem é esse “eu”?

Se o corpo é passageiro, e até os pensamentos mudam constantemente, talvez essa identidade não esteja em nenhuma dessas camadas. Talvez ela esteja justamente nesse ponto invisível de observação — esse lugar onde tudo passa, mas algo permanece assistindo.

Arthur Schopenhauer enxergaria nisso uma manifestação da vontade — uma força cega que se expressa através do corpo. Já Luiz Felipe Pondé talvez provocasse: e se essa sensação de “ser um espírito” não passar de mais uma narrativa confortável para lidar com o absurdo de existir?

E essa provocação incomoda — porque ela desmonta a ideia de algo transcendental e devolve tudo ao acaso da matéria.

Mas, ainda assim, a sensação persiste.

Há momentos — no silêncio, na solidão, ou mesmo no meio do caos — em que parece evidente: eu não sou apenas este corpo. Estou nele. Uso ele. Experimento o mundo através dele. Mas não me esgoto nele.

Talvez a vida seja exatamente isso: uma espécie de imersão temporária. Como se o espírito — seja lá o que isso signifique — vestisse um corpo para experimentar limites, tempo, dor, prazer… e, por algum motivo, esquecesse que está vestindo.

E então passa a acreditar que é a roupa.

No fundo, talvez o maior exercício filosófico não seja provar se somos corpo ou espírito, mas sustentar essa dúvida sem resolvê-la. Viver como quem habita — e não como quem possui.

Porque, se for verdade que somos algo além do corpo, então cada experiência aqui ganha outro peso: não como algo definitivo, mas como algo vivido.

E se não for verdade… ainda assim, a experiência de observar a si mesmo vivendo já é, por si só, um mistério grande demais para caber apenas na carne. 

terça-feira, 18 de agosto de 2026

Sujidade

Entre o Corpo, a Cultura e o Sentido do Mundo

Vou começar sem cerimônia: ninguém gosta de sujeira — ou pelo menos é isso que dizemos. Limpamos nossas casas, lavamos as mãos compulsivamente e escondemos tudo aquilo que consideramos “impróprio”. Mas por que a sujeira nos incomoda tanto? Será apenas uma questão de higiene ou existe algo mais profundo, quase metafísico, nessa aversão?

A sujeira não é apenas matéria fora do lugar, como sugeriu a antropóloga Mary Douglas. Ela é também um fenômeno simbólico. Para Douglas, aquilo que chamamos de “sujo” não é inerentemente impuro — é simplesmente algo que transgride uma ordem estabelecida. Um sapato no chão é aceitável; sobre a mesa, torna-se repulsivo. Assim, a sujeira revela menos sobre o objeto em si e mais sobre as estruturas invisíveis que organizam nossa percepção do mundo.

Essa ideia nos leva a um ponto crucial: a sujeira é uma construção cultural. O filósofo Michel Foucault poderia argumentar que as noções de limpeza e impureza são formas de disciplina social. Ao ensinar o que deve ser limpo, também se ensina o que deve ser evitado, controlado e, em última instância, excluído. A sujeira, nesse sentido, não é apenas física — ela pode ser moral, social e até política.

Mas há também uma dimensão existencial. O filósofo Jean-Paul Sartre via o mundo como algo viscoso, pegajoso, quase incômodo em sua materialidade. A sujeira, nesse contexto, é o lembrete de que somos corpos, que habitamos um mundo que escapa ao nosso controle. Ela quebra a ilusão de pureza e transcendência. Somos seres que sujam e são sujos — inevitavelmente.

Curiosamente, a sujeira também pode ser criativa. Pense no artista que trabalha com matéria bruta, no jardineiro que lida com a terra, ou mesmo na criança que brinca na lama. Aqui, a sujeira deixa de ser um problema e passa a ser um meio de transformação. O filósofo Friedrich Nietzsche talvez visse nisso uma afirmação da vida: aceitar o caos, o instintivo, o “baixo”, como parte essencial da existência.

Há ainda um aspecto psicanalítico. Para Sigmund Freud, a civilização exige repressão — inclusive dos nossos impulsos mais “sujos”. A obsessão com limpeza pode, então, refletir uma tentativa de controlar desejos considerados inaceitáveis. A sujeira torna-se símbolo do que reprimimos, do que não queremos reconhecer em nós mesmos.

Diante disso, talvez a pergunta não seja “por que existe sujeira?”, mas “por que precisamos tanto negá-la?”. A sujeira nos confronta com limites: do corpo, da ordem, da razão. Ela é o que escapa, o que insiste, o que retorna.

Pensar a sujeira é pensar a própria condição humana. Entre o puro e o impuro, entre a ordem e o caos, habitamos um espaço instável — e talvez seja justamente aí que reside nossa liberdade. Afinal, só quem aceita sujar as mãos pode realmente transformar o mundo.

 

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Aperto de Mãos

Quando o corpo diz “estou aqui”



A gente aperta a mão de alguém antes mesmo de saber o que vai dizer. Às vezes, antes mesmo de saber quem aquela pessoa é. O gesto vem primeiro, a palavra depois. É curioso: um movimento tão simples — duas mãos que se encontram por alguns segundos — consegue dizer mais do que discursos inteiros. Confiança, hesitação, pressa, respeito, poder, submissão. Tudo escapa ali, pela palma da mão.

No cotidiano, o aperto de mãos é quase invisível, automático. Mas talvez seja justamente aí que ele se torna filosoficamente interessante: quando algo se repete tanto que a gente esquece de perguntar o que está realmente acontecendo.

Situações comuns, sentidos ocultos

Pense em uma entrevista de emprego. O candidato entra, sorri, estende a mão. Se o aperto é firme demais, vira agressividade. Se é frouxo, vira insegurança. Ninguém explica isso, mas todos sabem. O corpo já aprendeu a linguagem antes da consciência.

Ou no encontro casual com alguém conhecido: um vizinho, um colega distante. O aperto de mãos funciona como uma ponte mínima entre dois mundos que não querem se misturar demais. Não é abraço — que envolve — nem aceno — que distancia. É um meio-termo civilizado: reconheço você, mas continuo inteiro.

Há também o aperto de mãos que sela acordos. Mesmo com contratos assinados, é o gesto final que parece legitimar tudo. Como se disséssemos: “Agora não é mais papel, é corpo”.

A mão como lugar da ética

Aqui, vale chamar Emmanuel Lévinas para a conversa. Para ele, a ética nasce no encontro com o outro — não como ideia abstrata, mas como presença concreta. O rosto do outro nos convoca, nos obriga, nos tira do centro.

O aperto de mãos pode ser lido como uma extensão desse pensamento. Ao estender a mão, eu me exponho. Abro a parte do corpo que toca, que trabalha, que sente. E ao segurar a mão do outro, aceito, ainda que por segundos, a sua alteridade. Não é fusão. É contato.

A mão não engana tão facilmente quanto o discurso. Ela treme, sua, escapa, aperta demais. O corpo entrega o que a palavra tenta esconder. Por isso, o aperto de mãos é ético: ele revela sem pedir licença.

Poder, controle e assimetria

Nietzsche talvez olhasse para o aperto de mãos com certo ceticismo. Onde há gesto social, há também disputa. Quem aperta primeiro? Quem solta por último? Quem puxa o outro levemente para si?

No cotidiano, vemos isso claramente em ambientes corporativos ou políticos. O aperto de mãos vira um microcampo de forças. Um pequeno duelo silencioso. O gesto que deveria simbolizar igualdade, muitas vezes escancara hierarquias.

E isso não é um defeito do gesto — é a sua verdade. O aperto de mãos não cria relações; ele revela as que já existem.

Quando o gesto falha

Curiosamente, sentimos falta do aperto de mãos quando ele desaparece. Em momentos de crise sanitária, por exemplo, o gesto some — e algo do tecido social se rompe junto. Ficam os cotovelos, os acenos constrangidos, os sorrisos à distância. Nada substitui completamente o toque.

Isso nos lembra que não somos apenas seres de linguagem, mas de contato. O mundo não se sustenta só por ideias; precisa de gestos mínimos, repetidos, quase banais.

Um gesto pequeno demais para ser pequeno

O aperto de mãos é um ritual discreto de reconhecimento mútuo. Ele diz: estamos no mesmo espaço, não somos inimigos, podemos começar daqui. Não resolve conflitos, não garante honestidade, não salva o mundo. Mas inaugura algo essencial: a possibilidade de relação.

Talvez a filosofia precise, de vez em quando, descer das grandes abstrações e olhar para esses gestos miúdos. Porque é neles que a vida acontece — não em tratados, mas em mãos que se encontram por alguns segundos e depois seguem seus caminhos, carregando, sem saber, o peso simbólico de um mundo inteiro.

sábado, 27 de dezembro de 2025

Pensar Como Polvo


Dia destes estava vendo um post no Instagram que achei interessante, vi a filmagem e li a mensagem, logo comecei a conjecturar.

Pensar como polvo é abandonar a obsessão por uma única ideia central e aceitar que o pensamento pode se espalhar.

O polvo não pensa em linha reta. Ele pensa com o corpo inteiro. Cada tentáculo tateia o mundo por conta própria, sente, reage, aprende. Não há um “centro de comando” tirânico dizendo exatamente o que fazer a cada segundo. Há coordenação, mas também autonomia. Talvez seja isso que nos falte quando insistimos em pensar tudo apenas com a cabeça.

Pensar como polvo é aceitar que uma ideia pode nascer no desconforto, outra numa conversa banal, outra ainda num silêncio constrangedor. É permitir que partes de nós explorem caminhos diferentes ao mesmo tempo, sem exigir síntese imediata. Nem tudo precisa virar conclusão; algumas coisas só precisam ser tocadas.

No cotidiano, isso aparece quando tentamos resolver um problema complexo e ele não anda. Forçar lógica sobre lógica só endurece. O polvo faria diferente: mudaria de textura, de cor, de ângulo. Testaria. Recuaria. Avançaria por outro lado. Pensar como polvo é dar tempo ao pensamento distribuído — aquele que amadurece enquanto lavamos a louça, caminhamos sem rumo ou ouvimos alguém falar de algo que “não tem nada a ver”.

Há também uma lição ética aí. O polvo sabe quando se esconder, quando se mostrar, quando soltar a presa. Não insiste em tudo. Nós, ao contrário, nos apegamos a ideias como se fossem identidade. Pensar como polvo é saber soltar um tentáculo sem morrer por isso.

Talvez o pensamento mais vivo não seja o mais brilhante, mas o mais sensível. Menos rígido, menos vaidoso. Um pensamento que aceita explorar o mundo sem a necessidade imediata de dominá-lo.

Pensar como polvo, no fundo, é confiar que a inteligência não mora só na cabeça — ela se espalha por todo o corpo que vive.

Eis o link da postagem:

https://www.instagram.com/reel/DSAG0Tgl4xJ/?utm_source=ig_web_copy_link&igsh=NTc4MTIwNjQ2YQ==

quarta-feira, 16 de julho de 2025

Vaidades Ridículas

O Tempo Leva o Que Nunca Foi Nosso

Tem dias que a gente acorda se olhando no espelho com um estranhamento leve, como quem revê um parente distante. Aquela ruga nova, o cabelo que já não obedece, a pele que grita por descanso. E, mesmo sem querer, lembramos das fotos antigas, dos corpos que tivemos ou desejamos ter, dos elogios recebidos e dos silêncios constrangedores. É nesse jogo entre aparência e memória que as vaidades ridículas se escondem — vaidades que o tempo, com sua elegância implacável, vai retirando de cena.

O corpo como vitrine social

O corpo humano, talvez mais que qualquer outro elemento visível da nossa existência, foi sequestrado pela cultura. O que deveria ser abrigo e expressão da individualidade virou produto, vitrine, símbolo de status. Modelos sociais de beleza mudam com a velocidade de um clique: o que ontem era invejado, hoje é ultrapassado, e o que hoje é tendência, amanhã será ridículo.

Na década de 50, a silhueta curvilínea era o auge do desejo. Nos anos 90, os corpos magérrimos dominaram. Hoje, a beleza se mistura com performance: é preciso estar em forma, mas sem parecer que se esforça demais. É o culto ao “natural trabalhado”, onde tudo é artificial, mas tem que parecer espontâneo. Uma simulação de leveza num sistema pesado.

A vaidade como sintoma de pertencimento

Mais do que vaidade, trata-se de pertencimento. Moldar-se ao ideal vigente é uma forma de não desaparecer. Quando seguimos os padrões, não apenas buscamos reconhecimento — buscamos evitar o abandono simbólico. Quem não é belo segundo os padrões corre o risco de ser ignorado, de se tornar invisível. E invisibilidade social é uma das formas mais cruéis de exclusão.

Há uma radicalidade silenciosa — e por vezes brutal — nas mutilações modernas feitas em nome da beleza. Corpos cortados, costurados, preenchidos, raspados, esvaziados ou inflados, numa busca angustiada por pertencimento estético. O bisturi, que antes era símbolo de reparo, tornou-se ferramenta de reconfiguração da identidade. Mamas retiradas e recolocadas, costelas removidas, narizes moldados como se fossem argila, pele esticada até que perca a expressão. O que deveria ser autocuidado vira autonegação. É a dor disfarçada de estética, a cirurgia plástica como ritual de passagem para um ideal que, paradoxalmente, é cada vez mais inatingível. A mutilação aqui não é só física — é simbólica: apaga-se a história do próprio corpo para caber numa moldura inventada por algoritmos e publicidades.

O tempo como libertador

O tempo é o grande destruidor de ilusões. Não porque ele castiga o corpo — mas porque ele revela o quão frágeis são as nossas referências. A beleza da juventude envelhece. O rosto que ditava moda vira meme. O ícone de ontem se torna caricatura.

É curioso pensar que, com o tempo, algumas pessoas ganham uma beleza que antes não tinham: a beleza de quem não precisa mais provar nada. O sorriso mais solto, a roupa mais confortável, a presença mais inteira. Como escreveu Simone de Beauvoir, “não se nasce mulher, torna-se mulher” — e talvez não se nasce belo, mas se aprende a habitar o próprio corpo com dignidade e calma.

O novo olhar: o corpo que fala

Um ensaio sociológico inovador sobre beleza precisa levar em conta que estamos, hoje, diante de uma multiplicidade de corpos e estéticas que desafiam os modelos antigos. A internet abriu espaço para vozes que antes eram marginalizadas: corpos gordos, pretos, trans, maduros, marcados por cicatrizes ou doenças, todos ganhando voz e visibilidade.

Essa revolução silenciosa não elimina a tirania dos padrões, mas a questiona. Há um deslocamento importante: da beleza imposta para a beleza assumida. Uma estética do eu, e não do dever ser.

A autoestima como construção interna

Entre a negação do corpo imposto e o acolhimento do corpo real, há um espaço de reconstrução: o da autoestima ativa. Fazer algo por si — mudar o corte de cabelo, praticar uma atividade física, cuidar da alimentação, dançar, vestir-se com liberdade, fazer terapia — pode ser profundamente transformador. Quando esses gestos partem de um desejo genuíno de bem-estar e não da vergonha de si, eles se tornam potências de afirmação. A autoestima verdadeira não nasce do espelho, mas do encontro consigo mesmo, da aceitação gradual da própria história. Cuidar-se, então, deixa de ser obediência estética e vira celebração íntima.

A vaidade que resta

Não há problema em gostar do que é belo, em querer parecer melhor. O problema está em se tornar escravo disso. O tempo não destrói a vaidade — ele peneira. Vai retirando as vaidades ridículas e deixando apenas aquelas que nos tornam mais humanos, mais leves, mais honestos com nós mesmos.

Como escreveu o filósofo brasileiro N. Sri Ram, em A Natureza da Beleza:

"A beleza verdadeira é aquela que revela o íntimo, não a que o encobre."

E talvez seja esse o ponto: que o tempo nos leve tudo que encobre. E nos deixe, enfim, com o que somos.

domingo, 8 de junho de 2025

Pensa Porque Fala

Vamos refletir sobre consciência e invenção de si

A gente costuma pensar que primeiro se pensa, depois se fala. Como se as palavras fossem meros mensageiros de um conteúdo pronto, esperando pacientemente para ser dito. Mas, e se for o contrário? E se a fala for, ela mesma, o que nos permite pensar? Aquela conversa no banho, o desabafo com um amigo, até mesmo o murmúrio no trânsito – seriam momentos em que a linguagem constrói a consciência, e não o contrário?

Essa ideia, embora pareça surpreendente, já vinha sendo intuída por alguns pensadores e hoje é retomada por estudos contemporâneos de neurociência e linguística. Neste ensaio, vamos explorar essa inversão provocadora: o sujeito pensa porque fala. A fala não apenas expressa o pensamento – ela o inventa, o organiza, o edita. E mais: ao falar, criamos a nós mesmos.

O pensamento nu não existe

Imagine um bebê que ainda não fala. Seus gestos e emoções são vivos, intensos, mas sua capacidade de pensar sobre o que sente é limitada. É só quando ele começa a adquirir palavras que consegue distinguir o medo da fome, o desejo da dor. O filósofo Vygotsky já dizia que o pensamento e a linguagem se desenvolvem em um entrelaçamento mútuo. O pensamento é uma névoa até que a palavra o condense.

A neurociência contemporânea reforça essa visão: regiões do cérebro relacionadas à linguagem (como a área de Broca e de Wernicke) estão intimamente conectadas com redes de atenção, memória e planejamento. Falar é como esculpir o que estava apenas esboçado em sensação. Pensamos melhor quando escrevemos, quando conversamos, quando argumentamos. O silêncio pode ser fértil, mas é quase sempre a palavra que transforma intuição em ideia.

Falar como forma de se tornar

Cada vez que contamos algo de nós mesmos a alguém, organizamos a narrativa da nossa identidade. Não se trata apenas de informar. Estamos, ali, construindo sentido. “Naquela época eu era muito impulsivo” – ao dizer isso, estamos não só refletindo sobre o passado, mas nos diferenciando dele, assumindo um novo lugar no tempo. A linguagem verbaliza a mudança interior.

A filósofa Hannah Arendt dizia que a ação só se torna política quando é acompanhada da fala. O ser humano se revela ao mundo pelo que diz, mais do que pelo que pensa. Assim, o dizer é um ato de criação subjetiva. Falando, nos tornamos visíveis – e, ao nos ouvirmos falar, também nos vemos.

Linguagem como ferramenta inventiva

A estrutura da linguagem molda a estrutura do pensamento. Idiomas diferentes oferecem visões de mundo distintas. Para os esquimós, existem muitas palavras para “neve”. Para alguns povos indígenas da Amazônia, o tempo não é dividido em passado, presente e futuro. A forma como se fala determina o que se pode pensar.

No cotidiano, isso aparece quando buscamos uma palavra exata para nomear o que sentimos – e, só quando a encontramos, conseguimos agir. O mal-estar vira “ciúme”, ou “angústia”, ou “pressentimento”. Dar nome é mapear o território interno. Wittgenstein já dizia: “os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo.”

Pensar com a boca

Existe uma sabedoria na fala espontânea. Às vezes, a gente só entende o que pensa quando começa a explicar. Isso é comum em sessões de terapia, aulas, ou mesmo numa conversa de bar. O pensamento se desdobra conforme a fala se articula. Como se a mente esperasse a boca para ter coragem de se revelar.

Numa perspectiva neurolinguística, esse processo envolve uma retroalimentação entre as zonas cerebrais responsáveis pela formulação verbal e aquelas que coordenam emoções, memória e juízo. O que dizemos influencia o que sentimos, e o que sentimos influencia o que conseguimos dizer. Um circuito vivo.

A fala é o útero do pensamento

Ao contrário do que se pensa, a fala não é filha do pensamento – é sua mãe. Sem linguagem, o pensamento se esvai em intuições fugidias. Com a linguagem, ele ganha corpo, história, direção. Pensamos porque falamos, e falamos para nos tornar.

Talvez por isso conversar seja tão essencial à saúde mental. Ou por isso, quando estamos confusos, dizemos: “preciso botar pra fora.” Ao falar, damos forma ao informe. Ao ouvir a nós mesmos, nos compreendemos melhor. A linguagem é, no fundo, um espelho falante – e talvez seja nela que finalmente nos encontramos.


quarta-feira, 27 de setembro de 2023

Asas da cura

 


A mãe natureza é sabia, ela procura nos ensinar o tempo todo, com beleza e agilidade o pequenino beija-flor nos chama a atenção, basta nosso olhar para imediatamente nos ligarmos a beleza da lição através da poesia que cura nossa alma.

"Beija-flor bate asas da cura" é uma expressão poética em português que pode ser interpretada de diferentes maneiras, dependendo do contexto e da interpretação de cada pessoa. O "beija-flor" é uma referência ao pássaro conhecido por sua beleza, agilidade e pelo bater rápido de suas asas enquanto voa. O ato de bater asas pode ser associado à ação rápida e enérgica, como uma metáfora para a busca pela cura ou pelo alívio de algo.

Assim, "beija-flor bate asas da cura" pode evocar a ideia de que, assim como o beija-flor bate suas asas de forma rápida e incansável, podemos buscar ativamente a cura ou o alívio de desafios, doenças, problemas ou dificuldades que enfrentamos em nossas vidas. Pode sugerir uma atitude proativa e persistente em relação à busca pela cura ou pelo bem-estar, simbolizando a determinação em superar obstáculos e encontrar soluções para nossos problemas.

Em nosso caminho pela vida, somos como o beija-flor que bate asas incansavelmente, assim como esse pássaro gracioso, nós também enfrentamos desafios, dores e momentos de incerteza, a sabedoria da natureza nos ensina que, mesmo diante das adversidades, podemos encontrar força dentro de nós mesmos para superar qualquer obstáculo.

O beija-flor, com sua natureza ágil e perseverante, nos lembra da necessidade de persistência e resiliência em nossa busca pela cura espiritual, suas asas que batem rapidamente nos lembram que a cura não é um destino, mas sim uma jornada constante e ativa. Cada batida de suas asas representa nossa vontade de avançar, de superar nossos medos e limitações, de buscar a paz interior e a cura do corpo, mente e alma.

Às vezes, a cura pode parecer distante, mas se nos empenharmos com a mesma determinação que o beija-flor ao bater suas asas, alcançaremos um estado de equilíbrio e bem-estar. Assim como o beija-flor encontra néctar nas flores, nós podemos encontrar nossa cura nos ensinamentos espirituais, na conexão com o divino e na compreensão do nosso propósito na vida. Que possamos seguir o exemplo do beija-flor, batendo asas com fé e confiança no processo de cura. Que possamos lembrar que cada desafio é uma oportunidade para crescermos, para aprendermos a amar mais profundamente e para nos aproximarmos da nossa verdadeira essência espiritual.

Que as batidas das nossas asas tragam não apenas cura para nós mesmos, mas também para aqueles ao nosso redor, espalhando a luz da compaixão e o calor do amor a todos os seres.

Musica: Eu chamo a força 


 https://youtu.be/uDNYkIR3tEA?list=RDuDNYkIR3tEA

O beija-flor, em sua singeleza, nos oferece uma profunda lição filosófica sobre a natureza da existência e a busca pela cura espiritual. Suas asas que batem freneticamente para manter-se no ar nos recordam da impermanência e dinâmica incessante da vida. Assim como o beija-flor, somos seres em constante movimento, em um eterno fluxo de experiências, lutas e superações. A cura, meu amigo, é um processo contínuo e ativo. Assim como o beija-flor não pode descansar por muito tempo, devemos persistir em nossa jornada em busca de equilíbrio e paz interior. Nossas asas são nossas ações, nossos esforços e nossos pensamentos, que devem estar em harmonia para alcançarmos a verdadeira cura.

A busca pela cura espiritual é como a busca pelo néctar das flores. Exige agilidade, determinação e discernimento para identificar as fontes que nutrem nossa alma e nos aproximam da realização. Assim como o beija-flor escolhe com sabedoria as flores das quais se alimenta, devemos discernir com clareza o que nutre nossa essência espiritual e o que nos afasta da cura, além disso, assim como o beija-flor contribui para a polinização das flores enquanto busca seu sustento, devemos lembrar que, ao buscar nossa própria cura, também contribuímos para o bem-estar e a harmonia do universo. Cada passo em direção à nossa cura pessoal é uma contribuição para a cura do todo.

Que possamos, como o beija-flor, manter nossas asas em movimento constante na busca pela cura interior. Que possamos compreender a beleza da impermanência e abraçar a jornada em direção à verdade e à harmonia.

Assim, seguimos em busca da sabedoria que nos eleva.

 

ORAÇÃO PARA CURA BEZERRA DE MENEZES

Oração para Cura do Corpo e Alma

*

Abençoado seja este dia meu Deus,
Depositando toda fé de Cura no senhor,
Enchendo-me de esperança,
Para prosseguir na estrada da vida,
E realizar com resignação teus propósitos,

*

Agradeço Pai amado,
Por mais este dia de viagem existencial,
Percorrendo minha caminhada,
Um passo de cada vez,
As vezes com dores, sofrimentos e tristezas,
Mas também feliz pelos momentos de alegria,

*

Deposito em tuas mãos, senhor Deus,
Meu destino e todas as minhas aspirações,
Certo de que teus propósitos para mim,
São justos e bem vindos,
Os quais agradeço do fundo da minha alma,
Buscando sempre aprender as lições da jornada,

*

Rogo-te Pai Celestial,
A cura para minhas enfermidades,
Cujas doenças existentes em meu corpo,
E marcadas na minha alma,
São frutos de minhas próprias dívidas divinas,
E ações presentes e passadas,
Conscientes ou inconscientes na minha mente,

*

Auxilia-me generoso Deus,
Diretamente pelas tuas mãos abençoadas,
Ou através de teus anjos e missionários de luz,
Ao processo de cura e alívio de dores,
Iniciando-se pela limpeza energética,
E pela harmonização de meu corpo espiritual,

*

Sabendo-se amado Pai,
Que toda cura inicia-se pela sanidade da alma,
Peço que seja retirado de minha mente e de meu coração,
Todas as energias maléficas e larvas espirituais,
Pensamentos e sentimentos perniciosos,
Como as magoas, a inveja, a irritação e o egoísmo,

*

Saneada e fortalecida minha alma, senhor Deus,
Rogo-te o amparo curativo para meu corpo físico,
Fortalecendo meus sistema imunológico,
Cicatrizando feridas e restaurando tecidos,
Expulsando do meus corpo as células malignas,
E revitalizando os órgãos enfermos,
Até a completa restauração de minha saúde,

*

Auxilia-me Pai Celestial,
A recuperar a auto estima e o amor próprio,
A reconquistar minha alegria de viver,
A expulsar de minha mente os pensamentos perniciosos,
A me libertar das influencias espirituais deprimentes,
Para que através da motivação pela vida,
Eu possa fortalecer minha saúde física e mental,

*

Peço-te humildemente amado Deus,
Tua misericórdia divina para com minha saúde,
E em troca de tuas bênçãos generosas,
Onde nada é impossível de ser alcançado,
Comprometo-me neste momento sublime,
Diante de ti e de todos os teus missionários de luz,
A um profundo processo de reforma intima,

*

Prometo amado Pai Celestial,
A envidar todos os esforços íntimos,
Para minha evolução espiritual,
Praticando o perdão e a superação das magoas,
Vencendo o egoísmo e a intolerância com o próximo,
E aproveitando todas as oportunidade que me forem oferecidas,
Para praticar a caridade e a ajuda ao próximo,
Como se estivesse auxiliando diretamente ao senhor meu Deus,

*

Por este processo de melhoramento, amado Senhor,
Desejo ser digno de tuas bênçãos luminosas,
E aproveito para arrepender-me sinceramente,
Pelos erros do passado,
E pedir-te o perdão dos pecados,
Assim como me comprometo a perdoar todas as ofensas sofridas,
Deixando ti, oh! Senhor, o julgamento de todos nós teus filhos,

*

Assim, meu Divino Pai,
Aguardarei com paciência e resignação,
O tempo certo para receber minha cura,
Para sentir o alivio de minhas dores do corpo e da alma,
Depositando toda fé e esperança no senhor,
Confiante que receberei a cura de tuas mãos,
Para o prosseguimento de minha jornada terrena,

*

Assim seja,

Dr. Adolfo Bezerra de Menezes

 

Fonte:

https://www.verdadeluz.com.br/oracao-para-cura-bezerra-de-menezes/