Existência
e identidade: o incômodo de ser alguém
Existe
um momento — geralmente banal — em que a existência pesa. Não é uma crise
dramática, não é um colapso. É mais parecido com estar parado no meio de um
corredor e esquecer para onde estava indo. Você continua de pé, continua
respirando, mas algo falha silenciosamente: a certeza de quem você é.
A
identidade costuma nos ser apresentada como algo sólido, quase um documento
interno. “Eu sou assim”, “eu sempre fui desse jeito”. Mas a existência não
confirma isso. A existência contradiz. Ela muda o corpo, desloca os afetos,
trai as promessas que fizemos a nós mesmos. O problema não é mudar. O problema
é perceber que nunca houve um núcleo estável segurando tudo.
Sartre
dizia que a existência precede a essência. Traduzindo sem cerimônia: a gente
aparece no mundo antes de saber o que fazer com isso. Só que o que muitas vezes
se ignora é o efeito colateral dessa ideia — se não há essência, então a
identidade é uma construção frágil, remendada, constantemente ameaçada pelo
tempo, pelo fracasso e pelo acaso.
E
aqui entra o lado mais visceral da coisa: ninguém sustenta a própria
identidade o tempo todo.
A
identidade é um esforço. Um trabalho contínuo de repetição. Acordamos todos os
dias tentando manter uma narrativa minimamente coerente: a forma de falar, as
opiniões, os gostos, as memórias que escolhemos preservar. Mas basta uma
experiência fora do script — uma perda, um amor que desmonta, uma humilhação,
um sucesso inesperado — para que essa coerência rache.
Nietzsche
percebeu isso cedo. Para ele, o “eu” não era um soberano, mas um campo de
forças em disputa. Não somos um centro; somos uma arena. Desejos que se
contradizem, valores que se chocam, impulsos que não pediram permissão para
existir. A identidade, nesse cenário, é quase um tratado de paz provisório
entre partes que não confiam umas nas outras.
Por
isso a existência incomoda. Porque ela expõe o caráter artificial da
identidade.
Quando
alguém diz “eu não me reconheço mais”, não está dizendo que se perdeu —
está dizendo que a máscara antiga não serve mais. O problema é que não existe
um rosto definitivo por baixo. Só outras máscaras possíveis, ainda não
testadas.
Heidegger
acrescenta um elemento ainda mais desconfortável: existimos lançados no mundo.
Não escolhemos a época, o corpo, a língua, a família, a classe social. A
identidade já começa comprometida, porque nasce de condições que não
controlamos. Tentamos chamar isso de “quem somos”, mas na verdade é o
terreno sobre o qual tentamos, desesperadamente, nos tornar alguém.
E
então surge a pergunta que ninguém gosta de responder:
se
a identidade é instável, quem vive?
O
que vive é a experiência. O corpo que sente antes de compreender. A consciência
que reage antes de formular uma opinião. A existência acontece primeiro; a
identidade vem depois, como legenda. Só que confundimos a legenda com o filme
inteiro.
Talvez
por isso tanta gente se agarre a rótulos, ideologias, diagnósticos, personagens
sociais. Eles aliviam a angústia de não saber quem se é. Mas o preço é alto:
quando a identidade endurece demais, a existência começa a sufocar.
Há
algo quase libertador — e ao mesmo tempo aterrador — em admitir que não somos
um “alguém” fixo, mas um processo em andamento. Não um projeto
grandioso, mas um improviso contínuo. Um ajuste fino entre o que fomos, o que
achamos que somos e o que ainda nos surpreende ser.
No
fundo, a identidade não é aquilo que nos define.
É
aquilo que tentamos manter de pé enquanto a existência nos atravessa.
E
talvez a maturidade não seja “se encontrar”, como prometem, mas aprender a
suportar esse desencontro sem fugir dele. Ficar. Respirar. Continuar existindo,
mesmo quando o espelho já não devolve respostas claras.
Porque
existir não é saber quem se é.
É
continuar, mesmo quando essa pergunta permanece aberta — e ardendo.
Você
gosta desta personalidade?