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domingo, 22 de fevereiro de 2026

Salto do Pensamento


Salto do pensamento é aquele instante curioso em que a mente não caminha — ela salta. Não pede licença, não avisa, simplesmente atravessa do ponto A ao ponto Z enquanto a gente ainda estava no B. E o mais engraçado é que, depois, tentamos explicar o percurso como se tivesse sido linear, lógico, organizado… quando na verdade foi um pequeno pulo no escuro.

Eu percebo isso nas coisas mais banais. Estou olhando pela janela, vejo alguém passando apressado, e de repente já estou pensando no sentido da pressa humana, no tempo, na finitude, na vida que corre sem perceber. O corpo ficou ali, imóvel. Mas o pensamento? Já atravessou continentes. O pensamento é mais rápido que a velocidade da luz, basta pensar e já estamos em Marte.

No cotidiano, esse salto aparece o tempo todo.

Você lê uma frase simples e, sem perceber, ela te leva a uma lembrança antiga.
Escuta uma música e já está refletindo sobre escolhas que fez há anos.
Alguém diz “tudo bem?” e sua mente responde: “o que é estar bem, afinal?”

O curioso é que o pensamento raramente anda em linha reta. Ele funciona mais como um atalho emocional e simbólico. A lógica diz “pense passo a passo”, mas a consciência prefere o caminho invisível das associações. Um cheiro vira memória. Uma palavra vira reflexão. Um silêncio vira filosofia.

Às vezes, esse salto é um mecanismo de proteção. Em conversas difíceis, por exemplo, a mente pula para ideias abstratas para evitar sentir demais. Em momentos de tédio, ela salta para fantasias. Em momentos de angústia, ela projeta cenários futuros. É como se pensar fosse também uma forma de deslocamento interno.

Mas há algo bonito nisso: o salto do pensamento revela que não somos apenas racionais, somos interpretativos. Não pensamos só com lógica — pensamos com história, emoção, memória e imaginação. Cada salto carrega um pouco de quem fomos.

Lembro de uma ideia que conversa muito com isso, algo que ecoa no pensamento de Mário Sérgio Cortella: a mente humana não é um depósito de informações, mas um espaço vivo de interpretações. Ou seja, não reagimos ao mundo apenas como ele é, mas como ele ressoa dentro de nós. E é nesse eco que o pensamento salta.

O problema começa quando esquecemos que houve um salto.

Aí transformamos suposições em certezas.

Intuições em verdades absolutas.

Impressões em julgamentos definitivos.

Alguém demora a responder uma mensagem, e o pensamento salta:

“Está me ignorando.”

Quando, na realidade, talvez só estivesse ocupado.

Percebe? O salto é rápido. A realidade é lenta.

Por isso, observar o próprio salto do pensamento é quase um exercício de lucidez. Não para impedir que ele aconteça — porque ele sempre acontecerá — mas para perguntar:

“Como cheguei até essa conclusão?”

“Qual foi o caminho invisível da minha mente?”

Quando faço isso, noto algo curioso: muitos dos meus pensamentos não nasceram do presente, mas de associações antigas. É como se a mente fosse uma ponte entre tempos diferentes, e cada salto fosse uma travessia silenciosa entre o que vejo agora e o que já vivi.

No fundo, pensar não é caminhar.

É saltar, recuar, girar, conectar.

E talvez a maturidade mental não esteja em evitar os saltos, mas em reconhecê-los — porque, entre um pensamento e outro, existe sempre um abismo invisível que só a consciência atravessa sem fazer barulho.

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