A arte de esperar o melhor sem negar o pior.
Quando
a vida nos dá uma piscadinha
Às
vezes, o dia começa torto: dia destes derrubei o café, perdi o ônibus, o
celular decidiu atualizar bem na hora da reunião. Mas, curiosamente, há quem
olhe para tudo isso e pense: “ok, mas o que de bom pode nascer daqui?”
Essas
pessoas (inclusive eu) não são ingênuas, nem vivem num universo paralelo. São o
que eu chamaria de essencialmente otimistas — indivíduos que parecem
carregar uma espécie de bússola interna apontada não para um final feliz
garantido, mas para uma possibilidade. Um pequeno brilho que a realidade
oferece em algum canto, mesmo quando ela está mal-humorada.
O
interessante é que esse tipo de otimismo não é aquele sorriso amarelo que tenta
esconder a dor, mas sim uma atitude filosófica com raízes profundas.
O
otimismo como disposição ontológica
Ser
essencialmente otimista não é acreditar que “tudo vai dar certo”. Isso seria
quase uma superstição. O essencialmente otimista acredita em outra coisa: que
existe sempre uma resposta possível — e que ele pode participar da
construção dela.
O
filósofo Ernst Bloch, em O Princípio Esperança, dizia que o ser
humano é o único animal que vive projetado no “ainda-não”. Somos seres que
antecipam, imaginam, constroem imagens do que pode vir. O essencialmente
otimista habita esse “ainda-não” com naturalidade. Ele não nega que o presente
é difícil, mas tampouco permite que ele seja definitivo.
Já
William James, ao falar sobre as atitudes morais diante da vida,
distinguia entre o “temperamento saudável” e a “alma doente”. O primeiro não é
o que ignora o sofrimento, mas o que o atravessa sem permitir que ele apague a
chama do significado. O essencialmente otimista está nesse campo — ele toma a
realidade inteira, mas encontra dentro dela uma brecha para agir, para
reinterpretar, para caminhar.
Em
termos mais simples: trata-se menos de previsão e mais de postura.
Vamos
pensar sobre momentos do cotidiano
Onde
o otimismo essencial se esconde
A
fila do banco que vira aula de paciência
A
pessoa essencialmente otimista não se irrita com a demora por ingenuidade. Ela
pensa: “estou aqui mesmo; posso responder mensagens, observar as pessoas,
talvez até aprender algo sobre como lidam com o tempo.”
Ela
transforma uma perda de tempo em um uso diferente do tempo.
O
fracasso profissional como trampolim e não miragem
Alguém
é demitido. A primeira reação é emocional, forte. Mas o essencialmente
otimista, depois do impacto, se pergunta:
“O
que essa mudança me força a ver que eu não enxergava?”
Não
há mágica. Há um redesenhar do mapa da própria vida.
O
relacionamento que não deu certo
A
pessoa essencialmente otimista não diz: “foi tudo inútil”. Ela pensa:
“Isso me ensinou algo sobre mim. Sobre cuidado, limites, ritmos. Agora sei
melhor o que ofereço e o que busco.”
Ela
não apaga a história — aprende com ela.
Pequenas
frustrações que não se tornam catástrofes
O
ônibus atrasou?
O
essencialmente otimista aproveita para ouvir música, observar o céu, ou
simplesmente respirar. Ele não transforma a contrariedade em identidade.
Um
ponto-chave: otimismo essencial não é fuga
Pelo
contrário: quem é essencialmente otimista olha a realidade no olho. Ele
não diz “não dói”; ele diz “dói, mas não me define”. E aqui entra uma sutileza
filosófica: essa forma de otimismo nasce da percepção de que somos processo,
não produto final.
O
essencialmente otimista é aquele que lembra, sempre, que está se tornando.
Ele
vê o mundo como matéria-prima, não como sentença.
O
brilho que insiste
Ser
essencialmente otimista é uma forma de resistência silenciosa. É afirmar que,
apesar das provas contrárias, ainda existe um fio de sentido no real. Esse
otimismo não ignora o sofrimento, apenas se recusa a conceder a ele a última
palavra.
Talvez,
no fundo, seja isso:
o
essencialmente otimista acredita que a vida está sempre, de algum modo, por
vir.
E
que dentro de cada tropeço cotidiano existe um convite sutil para começar de
novo — um convite que só os essencialmente otimistas conseguem ouvir com
nitidez.

