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sexta-feira, 12 de dezembro de 2025

Essencialmente Otimistas

A arte de esperar o melhor sem negar o pior.

 

Quando a vida nos dá uma piscadinha

Às vezes, o dia começa torto: dia destes derrubei o café, perdi o ônibus, o celular decidiu atualizar bem na hora da reunião. Mas, curiosamente, há quem olhe para tudo isso e pense: “ok, mas o que de bom pode nascer daqui?”

Essas pessoas (inclusive eu) não são ingênuas, nem vivem num universo paralelo. São o que eu chamaria de essencialmente otimistas — indivíduos que parecem carregar uma espécie de bússola interna apontada não para um final feliz garantido, mas para uma possibilidade. Um pequeno brilho que a realidade oferece em algum canto, mesmo quando ela está mal-humorada.

O interessante é que esse tipo de otimismo não é aquele sorriso amarelo que tenta esconder a dor, mas sim uma atitude filosófica com raízes profundas.

 

O otimismo como disposição ontológica

Ser essencialmente otimista não é acreditar que “tudo vai dar certo”. Isso seria quase uma superstição. O essencialmente otimista acredita em outra coisa: que existe sempre uma resposta possível — e que ele pode participar da construção dela.

O filósofo Ernst Bloch, em O Princípio Esperança, dizia que o ser humano é o único animal que vive projetado no “ainda-não”. Somos seres que antecipam, imaginam, constroem imagens do que pode vir. O essencialmente otimista habita esse “ainda-não” com naturalidade. Ele não nega que o presente é difícil, mas tampouco permite que ele seja definitivo.

William James, ao falar sobre as atitudes morais diante da vida, distinguia entre o “temperamento saudável” e a “alma doente”. O primeiro não é o que ignora o sofrimento, mas o que o atravessa sem permitir que ele apague a chama do significado. O essencialmente otimista está nesse campo — ele toma a realidade inteira, mas encontra dentro dela uma brecha para agir, para reinterpretar, para caminhar.

Em termos mais simples: trata-se menos de previsão e mais de postura.

 

Vamos pensar sobre momentos do cotidiano

Onde o otimismo essencial se esconde

 

A fila do banco que vira aula de paciência

A pessoa essencialmente otimista não se irrita com a demora por ingenuidade. Ela pensa: “estou aqui mesmo; posso responder mensagens, observar as pessoas, talvez até aprender algo sobre como lidam com o tempo.”

Ela transforma uma perda de tempo em um uso diferente do tempo.

 

O fracasso profissional como trampolim e não miragem

Alguém é demitido. A primeira reação é emocional, forte. Mas o essencialmente otimista, depois do impacto, se pergunta:

“O que essa mudança me força a ver que eu não enxergava?”

Não há mágica. Há um redesenhar do mapa da própria vida.

 

O relacionamento que não deu certo

A pessoa essencialmente otimista não diz: “foi tudo inútil”. Ela pensa:
“Isso me ensinou algo sobre mim. Sobre cuidado, limites, ritmos. Agora sei melhor o que ofereço e o que busco.”

Ela não apaga a história — aprende com ela.

 

Pequenas frustrações que não se tornam catástrofes

O ônibus atrasou?

O essencialmente otimista aproveita para ouvir música, observar o céu, ou simplesmente respirar. Ele não transforma a contrariedade em identidade.

 

Um ponto-chave: otimismo essencial não é fuga

Pelo contrário: quem é essencialmente otimista olha a realidade no olho. Ele não diz “não dói”; ele diz “dói, mas não me define”. E aqui entra uma sutileza filosófica: essa forma de otimismo nasce da percepção de que somos processo, não produto final.

O essencialmente otimista é aquele que lembra, sempre, que está se tornando.

Ele vê o mundo como matéria-prima, não como sentença.

 

O brilho que insiste

Ser essencialmente otimista é uma forma de resistência silenciosa. É afirmar que, apesar das provas contrárias, ainda existe um fio de sentido no real. Esse otimismo não ignora o sofrimento, apenas se recusa a conceder a ele a última palavra.

Talvez, no fundo, seja isso:

o essencialmente otimista acredita que a vida está sempre, de algum modo, por vir.

E que dentro de cada tropeço cotidiano existe um convite sutil para começar de novo — um convite que só os essencialmente otimistas conseguem ouvir com nitidez.

sábado, 15 de fevereiro de 2025

Essencialmente Inescrutável

Sobre o Mistério da Existência

Já reparou como algumas coisas na vida parecem resistir a qualquer tentativa de explicação? É como quando encaramos uma pintura abstrata: você pode até tentar identificar formas ou significados, mas há algo ali que escapa, um resquício de mistério que insiste em permanecer. Essa sensação de que certas coisas são essencialmente inescrutáveis acompanha a humanidade desde os primeiros suspiros da filosofia. Afinal, por que o universo existe em vez de não existir? Ou, ainda mais simples, por que somos incapazes de compreender totalmente aquilo que parece estar bem diante dos nossos olhos?

O Enigma Como Essência

O conceito de "essencialmente inescrutável" carrega em si a ideia de que há uma opacidade intrínseca em tudo que existe. Não se trata de um obstáculo técnico, algo que pode ser superado com mais estudo, mas de um véu fundamental que nunca será levantado. Pense na consciência humana: sabemos que sentimos, pensamos, desejamos, mas explicar plenamente o que é sentir ou ser consciente é um desafio que escapa até mesmo às melhores mentes científicas e filosóficas.

Martin Heidegger, um dos grandes nomes da filosofia existencial, abordou esse mistério em sua famosa questão: "Por que há algo em vez de nada?" Para ele, o "ser" é a maior questão de todas, justamente porque nunca conseguimos escapar do mistério que o envolve. Mesmo quando tentamos defini-lo, ele se retrai, deixando-nos apenas com fragmentos de compreensão.

Situações Cotidianas do Inefável

No dia a dia, o inescrutável se manifesta de formas sutis. Imagine uma conversa entre amigos em que um deles, sem dizer muito, revela uma expressão no olhar que todos entendem, mas ninguém consegue explicar. Ou o momento em que você ouve uma música que mexe profundamente com você, mas quando tenta colocar em palavras o que sentiu, tudo soa vazio, como se o essencial tivesse escapado.

Até mesmo nas pequenas tragédias e alegrias da vida encontramos esse caráter inescrutável. Por que aquele amor não deu certo, mesmo com tudo "funcionando"? Por que aquele momento simples — o cheiro de pão assando, a brisa ao final da tarde — ficou marcado como algo especial? São situações em que a tentativa de racionalizar parece não só inútil, mas quase um desserviço ao próprio mistério.

Filosofia Como Tentativa e Respeito

A filosofia, apesar de muitas vezes ser vista como uma busca por respostas, talvez seja mais sobre a convivência com o mistério. Como bem disse o filósofo brasileiro Vilém Flusser, “pensar é navegar em meio a possibilidades, sem nunca ancorar”. Essa metáfora descreve bem o caráter inescrutável da existência: navegamos, exploramos, mas nunca alcançamos um porto definitivo.

Mas talvez aí esteja a beleza. Se tudo pudesse ser compreendido, explicado e reduzido a fórmulas, o que restaria de fascinante no mundo? A poesia, a arte e até mesmo o amor provavelmente perderiam seu encanto. O mistério nos desafia, mas também nos move, convidando-nos a olhar para além do que é visível e a questionar o que nunca poderá ser plenamente respondido.

Abraçando o Inescrutável

Se há algo a aprender com o essencialmente inescrutável, é que não precisamos compreendê-lo para vivê-lo. Talvez o segredo esteja em aceitar que a vida é, em si mesma, um grande enigma que não precisa ser resolvido, apenas experimentado. Como diria Fernando Pessoa, "Sentir é estar distraído". E talvez, distraídos pelas belezas, angústias e mistérios da existência, estejamos mais próximos de compreender aquilo que, por natureza, nunca será compreensível.