A
gente costuma ouvir falar muito sobre ser autêntico, ser diferente, ser “nós
mesmos”, mas, na correria do dia a dia, nem sempre percebe como isso realmente
aparece na prática. A expressão da individualidade não está só nas grandes
decisões da vida; ela se revela nos detalhes — no jeito que pensamos, nas
escolhas que fazemos e até na forma como reagimos às situações mais simples.
Falar sobre esse tema é, no fundo, refletir sobre como cada pessoa vai
desenhando sua própria maneira de existir no mundo, entre influências, pressões
e descobertas pessoais.
A
individualidade costuma ser confundida com algo chamativo, como se expressar
quem somos dependesse de gestos grandiosos, roupas excêntricas ou opiniões
sempre contrárias ao senso comum. Mas, na maior parte das vezes, a expressão da
individualidade acontece de forma muito mais silenciosa — quase como um sotaque
da alma que aparece nas pequenas escolhas do cotidiano.
Expressamos
nossa individualidade quando escolhemos o caminho que faz sentido para nós,
mesmo que ele não seja o mais popular. Ela surge na maneira como reagimos a um
problema no trabalho, no tipo de amizade que cultivamos, no jeito como
organizamos o tempo livre ou até na forma como lidamos com o silêncio. A
individualidade raramente é um grito; muitas vezes é apenas uma coerência
tranquila entre aquilo que sentimos e aquilo que fazemos.
No
cotidiano, porém, existe uma força poderosa que tenta suavizar ou até apagar
essa expressão: o desejo de pertencimento. Desde cedo aprendemos que ser aceito
pelo grupo traz segurança. Assim, repetimos opiniões, gostos e comportamentos
que garantem essa aceitação. Não há nada de errado nisso — afinal, somos seres
sociais. O problema começa quando a necessidade de pertencer substitui
completamente a necessidade de ser.
O
filósofo brasileiro Mário Sérgio Cortella costuma lembrar que ninguém é
uma ilha, mas também não precisa ser apenas um reflexo do arquipélago ao redor.
A individualidade, nesse sentido, não significa isolamento, e sim
autenticidade. É participar do coletivo sem abandonar aquilo que nos torna únicos.
Curiosamente,
a individualidade não nasce pronta. Ela vai sendo construída conforme
enfrentamos experiências, dúvidas, erros e mudanças. Às vezes acreditamos que
estamos nos afastando de quem somos, quando na verdade estamos lapidando essa
identidade. Há momentos em que imitamos os outros para aprender, assim como uma
criança aprende a falar repetindo sons. Com o tempo, porém, a voz própria
aparece.
Também
existe um equívoco comum: pensar que expressar a individualidade é sempre fazer
o contrário dos outros. Na verdade, isso ainda é uma forma de dependência, pois
a referência continua sendo o grupo. A verdadeira expressão individual acontece
quando as escolhas partem de uma reflexão interna, não de uma oposição
automática.
No
dia a dia, isso aparece em situações simples:
- quando alguém escolhe uma profissão
mais alinhada ao sentido pessoal do que ao prestígio social;
- quando decide manter certos valores
mesmo sob pressão;
- quando aceita mudar de opinião ao
perceber que cresceu ou aprendeu algo novo.
O
pensador indiano N. Sri Ram, muito apreciado por suas reflexões sobre o
desenvolvimento humano, sugeria que a individualidade verdadeira surge quando a
pessoa começa a agir com consciência, e não apenas por hábito ou
condicionamento. Para ele, ser indivíduo não é reforçar o ego, mas permitir que
a consciência se manifeste de forma mais livre e lúcida.
Talvez
a expressão da individualidade seja justamente isso: um processo de tornar
visível aquilo que é essencial em nós. Não para provar superioridade ou
diferença, mas para viver com mais inteireza. Quando isso acontece,
curiosamente, deixamos de competir com os outros e passamos a colaborar melhor
com eles — porque aquilo que é genuíno geralmente também é mais humano.
No
fim, expressar a individualidade não é tentar ser alguém extraordinário. É
apenas ter coragem de ser, com honestidade, aquilo que estamos nos tornando ao
longo da vida.
Nenhum comentário:
Postar um comentário