Às vezes, no meio da confusão do dia a dia — trânsito parado, notificações sem fim, opiniões que chegam como ondas quebrando uma depois da outra —percebo que a única coisa que de fato sustenta o nosso equilíbrio não é o silêncio do mundo, mas a firmeza da nossa percepção. Não aquela percepção apressada, meio impulsiva, que fazemos quando julgamos alguém pela primeira impressão. Mas a percepção que fica de pé mesmo quando tudo ao redor balança. A inabalável.
Comecei
a pensar nisso outro dia, quando uma senhora no mercado, em plena pressa das
férias de dezembro, derrubou sem querer uma pilha de panetones. A cena foi
caótica: embalagens rolando, gente reclamando, funcionário correndo. Mas a
senhora permaneceu calma, recolhendo um por um com uma serenidade que parecia
deslocada da realidade. Não era indiferença — era percepção. Ela sabia o que
realmente importava naquele instante: resolver o problema com tranquilidade. E
aquilo, curiosamente, estabilizou até quem estava ao redor.
A
percepção inabalável é algo que filósofos, especialmente os estoicos,
valorizavam profundamente. Epicteto dizia que “não são as coisas
que nos perturbam, mas os juízos que fazemos sobre elas”. Em outras palavras: o
mundo não vai parar de jogar panetones pelo chão — mas a forma como percebemos
e interpretamos esses eventos define a qualidade da nossa experiência.
No
cotidiano, percebemos a diferença entre quem reage pela percepção firme e quem
reage pela percepção instável:
- No trabalho,
quando aquele e-mail atravessado chega, há quem responda imediatamente,
inflamado. E há quem pause, perceba o contexto, leia o que não foi dito, e
escolha a resposta mais sensata.
- Na vida familiar,
sempre tem o parente que solta uma opinião que parece deslocada da mesa de
jantar. Alguns explodem, outros percebem que aquilo fala mais sobre o
mundo interno do parente do que sobre a realidade presente.
- Nos relacionamentos,
um comentário inocente pode ser interpretado como crítica — ou como apenas
um modo torto de preocupação. A percepção é o filtro que define o rumo da
conversa.
Mas
não se trata apenas de autocontrole. A percepção inabalável é, antes de tudo, clareza:
a capacidade de distinguir aparência e essência, ruído e sinal. É ver o que
realmente está acontecendo, não o que nosso medo, ansiedade ou ego querem que
esteja.
N.
Sri Ram — um pensador que aprecio — dizia que o ser humano só
encontra lucidez quando olha para o mundo com “a mente quieta e o coração
aberto”, pois é assim que se percebe o que é verdadeiro além das ilusões que
projetamos. Essa mente quieta não é ausência de movimento; é estabilidade interior
para que a percepção não seja distorcida por tempestades internas.
Percepção
inabalável é como uma bússola num bolso: não impede que o vento sopre, nem que
o caminho seja tortuoso, mas garante que nunca percamos completamente o norte.
E, curiosamente, quanto mais firme é a percepção, menos rígida se torna a
pessoa. Porque a firmeza que interessa aqui não é dureza — é discernimento.
E
talvez seja isso que falta na maior parte das nossas pequenas tragédias
cotidianas: perceber melhor antes de agir pior. Ver antes de julgar. Cuidar
antes de reagir.
A
inabalável percepção não é um dom — é um hábito, cultivado aos poucos, entre um
panetone que cai, uma palavra mal interpretada e um instante de lucidez que,
quando aparece, muda tudo. Com o final de ano as famílias se reencontram e com
isto confusões á vista. Então, muita calma nesta hora, é chegado momento de
praticar nossa inabalável percepção.