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terça-feira, 23 de setembro de 2025

Vertigem da Inação

Com os pés no chão e os olhos na queda

Há dias em que a gente acorda, mas não desperta. O corpo levanta, mas a alma continua deitada. É como se o mundo lá fora estivesse em alta velocidade, e nós estivéssemos congelados na calçada, vendo tudo passar sem conseguir atravessar a rua. Não é preguiça, tampouco desinteresse. É uma espécie de vertigem silenciosa — a vertigem da inação.

Tomar café, abrir o e-mail, deixar os pratos na pia, olhar o celular, não responder. O dia vai se desenrolando sem que nada realmente aconteça. Não porque faltam tarefas, mas porque falta algo mais difícil de nomear: o ímpeto de agir. A decisão parece um penhasco. Qualquer escolha é um salto. E então ficamos, presos ao corrimão da hesitação.

Søren Kierkegaard, filósofo dinamarquês do século XIX, falou sobre esse tipo de abismo. Para ele, a angústia é a vertigem da liberdade: o momento em que nos deparamos com o leque infinito de possibilidades e, em vez de nos sentirmos poderosos, somos tomados por uma espécie de tontura existencial. A liberdade assusta porque exige responsabilidade. E agir é sempre se arriscar a errar.

Na vida cotidiana, isso aparece de formas sutis. A jovem que sonha mudar de carreira, mas não consegue pedir demissão. O estudante que estuda tanto o melhor jeito de estudar que nunca começa. O casal que sabe que algo precisa ser dito, mas permanece no silêncio incômodo da rotina. Todos experimentam essa vertigem. Não estão exatamente parados — estão paralisados.

E tem também a versão tragicômica da coisa. Quem nunca passou uma hora inteira escolhendo um filme e, quando finalmente escolhe, já está tarde demais para assistir? Ou a clássica situação de olhar para a geladeira cheia, não saber o que fazer com nada e pedir delivery mais uma vez, como se a indecisão culinária fosse um drama shakespeareano? Rimos, mas no fundo sabemos: às vezes, somos mestres na arte de fugir da escolha como quem foge de um monstro.

O paradoxo é que a inação também é uma forma de ação. Adiar, evitar, esperar, fugir — são escolhas camufladas de passividade. Cada vez que deixamos de agir, afirmamos algo: que não estamos prontos, que não confiamos no caminho, que preferimos a zona morna da dúvida à zona incerta do risco.

E no entanto, a vida continua. Os prazos vencem, os ônibus partem, as mensagens não respondidas envelhecem. Há um preço na não-ação: o tempo não espera. Como numa fila de supermercado que avança mesmo se você estiver distraído, a vida nos empurra para frente mesmo quando estamos imóveis.

Mas nem tudo é perda. Às vezes, a vertigem da inação é também um chamado à escuta. Um alerta de que estamos desconectados de algo essencial. Talvez, como dizia Kierkegaard, seja preciso atravessar essa angústia para então agir com mais verdade. Agir não por impulso ou obrigação, mas por consciência.

A saída, então, não é fugir da vertigem — é olhá-la de frente. Reconhecer que o abismo existe, mas que ele também pode ser uma ponte. Entre a hesitação e o movimento há um momento precioso: aquele em que, apesar do medo, decidimos dar um passo. E às vezes, tudo o que a vida pede da gente é isso: um primeiro passo.


terça-feira, 14 de maio de 2024

Vertigem de Domínio

Em meio ao turbilhão da vida moderna, muitos de nós nos encontramos presos em um ciclo incessante de busca por domínio e controle. Essa ânsia de controlar cada aspecto de nossas vidas, desde nossas carreiras até nossos relacionamentos pessoais, pode nos levar a uma sensação avassaladora de vertigem.

Imagine-se em uma montanha-russa, lutando para manter o equilíbrio enquanto o mundo ao seu redor gira vertiginosamente. Cada curva e mergulho representa um novo desafio, uma nova oportunidade para tentar impor sua vontade sobre um universo caótico e imprevisível. Essa é a essência da vertigem de domínio e controle.

Para entender melhor essa condição, podemos recorrer à filosofia existencialista e à obra do renomado pensador Jean-Paul Sartre. Sartre argumentava que o desejo humano por controle era uma reação à essência da liberdade e da responsabilidade. Ele acreditava que, diante da incerteza do mundo e da ausência de um propósito predefinido, os seres humanos buscavam desesperadamente impor ordem e significado às suas vidas.

No entanto, essa busca pelo controle absoluto é uma tarefa fútil e autoilusória. Assim como na montanha-russa, tentar controlar cada reviravolta e reviravolta da vida é uma batalha perdida. A natureza caótica e imprevisível do mundo torna impossível para nós dominá-lo completamente.

Essa percepção pode ser profundamente perturbadora e desorientadora. Encontramo-nos em um estado de constante tensão, tentando manter o equilíbrio em um mundo que parece estar sempre à beira do colapso. A vertigem de domínio e controle nos consome, deixando-nos exaustos e desesperados em nossa busca por estabilidade e segurança.

No entanto, há uma beleza na aceitação da nossa própria vulnerabilidade e limitações. Ao reconhecer a futilidade de nossos esforços para controlar o incontrolável, podemos encontrar uma sensação de liberdade e paz interior. Em vez de lutar contra as correntes da incerteza, podemos aprender a navegar nelas com graça e serenidade.

Assim, quando nos encontramos presos na vertigem de domínio e controle, podemos nos lembrar das palavras de Sartre e abraçar a incerteza como parte inevitável da condição humana. Ao fazê-lo, podemos descobrir um novo sentido de calma e aceitação em meio ao caos aparente da vida.