Com os pés no chão e os olhos na queda
Há
dias em que a gente acorda, mas não desperta. O corpo levanta, mas a alma
continua deitada. É como se o mundo lá fora estivesse em alta velocidade, e nós
estivéssemos congelados na calçada, vendo tudo passar sem conseguir atravessar
a rua. Não é preguiça, tampouco desinteresse. É uma espécie de vertigem
silenciosa — a vertigem da inação.
Tomar
café, abrir o e-mail, deixar os pratos na pia, olhar o celular, não responder.
O dia vai se desenrolando sem que nada realmente aconteça. Não porque faltam
tarefas, mas porque falta algo mais difícil de nomear: o ímpeto de agir. A
decisão parece um penhasco. Qualquer escolha é um salto. E então ficamos,
presos ao corrimão da hesitação.
Søren
Kierkegaard, filósofo dinamarquês do século XIX,
falou sobre esse tipo de abismo. Para ele, a angústia é a vertigem da
liberdade: o momento em que nos deparamos com o leque infinito de
possibilidades e, em vez de nos sentirmos poderosos, somos tomados por uma
espécie de tontura existencial. A liberdade assusta porque exige
responsabilidade. E agir é sempre se arriscar a errar.
Na
vida cotidiana, isso aparece de formas sutis. A jovem que sonha mudar de
carreira, mas não consegue pedir demissão. O estudante que estuda tanto o
melhor jeito de estudar que nunca começa. O casal que sabe que algo precisa ser
dito, mas permanece no silêncio incômodo da rotina. Todos experimentam essa
vertigem. Não estão exatamente parados — estão paralisados.
E
tem também a versão tragicômica da coisa. Quem nunca passou uma hora inteira
escolhendo um filme e, quando finalmente escolhe, já está tarde demais para
assistir? Ou a clássica situação de olhar para a geladeira cheia, não saber o
que fazer com nada e pedir delivery mais uma vez, como se a indecisão culinária
fosse um drama shakespeareano? Rimos, mas no fundo sabemos: às vezes, somos
mestres na arte de fugir da escolha como quem foge de um monstro.
O
paradoxo é que a inação também é uma forma de ação. Adiar, evitar, esperar,
fugir — são escolhas camufladas de passividade. Cada vez que deixamos de agir,
afirmamos algo: que não estamos prontos, que não confiamos no caminho, que
preferimos a zona morna da dúvida à zona incerta do risco.
E
no entanto, a vida continua. Os prazos vencem, os ônibus partem, as mensagens
não respondidas envelhecem. Há um preço na não-ação: o tempo não espera. Como
numa fila de supermercado que avança mesmo se você estiver distraído, a vida
nos empurra para frente mesmo quando estamos imóveis.
Mas
nem tudo é perda. Às vezes, a vertigem da inação é também um chamado à escuta.
Um alerta de que estamos desconectados de algo essencial. Talvez, como dizia
Kierkegaard, seja preciso atravessar essa angústia para então agir com mais
verdade. Agir não por impulso ou obrigação, mas por consciência.
A
saída, então, não é fugir da vertigem — é olhá-la de frente. Reconhecer que o
abismo existe, mas que ele também pode ser uma ponte. Entre a hesitação e o
movimento há um momento precioso: aquele em que, apesar do medo, decidimos dar
um passo. E às vezes, tudo o que a vida pede da gente é isso: um primeiro
passo.
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