Pesquisar este blog

Mostrando postagens com marcador Bataille. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Bataille. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 21 de abril de 2026

Vertigem Útil

O Gasto Sem Finalidade Prática

Outro dia percebi uma coisa meio estranha: a gente passa boa parte da vida tentando não desperdiçar nada. Tempo, dinheiro, energia, comida — tudo precisa ser útil, produtivo, justificado. Até o descanso virou “recuperação para produzir melhor”. E, no meio disso tudo, me ocorreu que talvez exista algo profundamente humano que a gente anda tentando esconder: o impulso de gastar sem finalidade.

É aqui que entra Georges Bataille — um pensador que olhou justamente para aquilo que parece não ter utilidade nenhuma… e disse: “isso é o essencial”.


O problema do excesso

A gente foi educado a pensar em termos de falta:

  • falta dinheiro
  • falta tempo
  • falta recurso

Mas Bataille inverte isso.

Para ele, o problema fundamental não é a escassez — é o excesso.

A vida, a natureza, o sol… tudo produz mais energia do que o necessário para simplesmente sobreviver. Em algum momento, esse excesso precisa ser gasto.

E aí surge a pergunta desconfortável:

o que fazemos com aquilo que não precisamos?


O gasto improdutivo

Bataille chama isso de “dispêndio” — o gasto sem finalidade prática.

Exemplos estão por toda parte:

  • festas
  • guerras
  • monumentos grandiosos
  • arte
  • luxo
  • sacrifícios religiosos

Nada disso é “útil” no sentido econômico.

E, ainda assim, essas coisas moldam civilizações.

Pense numa festa. Do ponto de vista produtivo, ela é um desastre:

  • consome energia
  • tempo
  • dinheiro

Mas, ao mesmo tempo, é ali que algo acontece — uma intensificação da vida.


O medo de perder

No cotidiano, a gente tenta domesticar esse impulso.

Transformamos tudo em investimento:

  • lazer que “agrega valor”
  • hobbies que podem virar renda
  • relações que “precisam fazer sentido”

Mas isso gera um efeito colateral silencioso:

a vida começa a ficar estreita demais.

Porque aquilo que não serve para nada… começa a desaparecer.


Um exemplo banal (e revelador)

Imagine alguém que guarda uma roupa “especial” para uma ocasião perfeita.

Essa ocasião nunca chega.

A roupa fica intacta — mas nunca é vivida.

Bataille diria que isso é uma recusa do dispêndio.

Uma tentativa de preservar tudo… ao custo de não viver nada plenamente.


O excesso sempre encontra um caminho

E aqui vem a parte mais provocadora.

Se o excesso não é gasto de forma consciente, ele explode de outras maneiras:

  • comportamentos autodestrutivos
  • consumo compulsivo
  • violência
  • crises pessoais

Como se a vida exigisse um tipo de “queima”.

Ignorar isso não elimina o problema — só o desloca.


Entre o cálculo e a vertigem

Dá para imaginar uma tensão interessante aqui.

De um lado, o mundo moderno, todo organizado, eficiente, calculado.

De outro, esse impulso de perder, de gastar, de ir além da utilidade.

Se Sigmund Freud falava de pulsões que nos atravessam, Bataille parece apontar para algo parecido — mas menos “controlável”, mais solar, mais explosivo.

Não é só desejo. É excesso.


Uma filosofia que incomoda

O mais desconcertante na ideia de Bataille é que ela não oferece conforto.

Ela sugere que:

  • nem tudo deve ser útil
  • nem tudo precisa ser preservado
  • e que perder pode ser uma forma de realização

Isso vai contra quase tudo que aprendemos.


Fechando a conversa

Talvez o ponto não seja abandonar a organização, nem sair desperdiçando tudo.

Mas reconhecer algo simples — e difícil de aceitar:

uma vida totalmente controlada pode ser uma vida empobrecida.

Porque o que dá intensidade à experiência, muitas vezes, é justamente aquilo que não serve para nada.

Então, às vezes, talvez valha a pena gastar um pouco:

  • tempo sem objetivo
  • energia sem retorno
  • atenção sem cálculo

Não como erro.

Mas como um gesto profundamente humano.

Um pequeno acordo com esse excesso silencioso que insiste em existir dentro da gente.

segunda-feira, 20 de abril de 2026

Transgressão e o Sagrado


Tem dias em que a gente percebe que a vida “normal” é estreita demais. Tudo funciona, tudo está no lugar — mas falta alguma coisa. Não é exatamente felicidade, nem sentido. É intensidade. Como se viver fosse mais do que cumprir regras invisíveis.

Foi nesse tipo de desconforto que encontrei Georges Bataille — um pensador que teve a coragem de olhar para aquilo que a maioria prefere manter à margem: o erotismo, a transgressão e o sagrado. E o mais curioso é que, para ele, esses três temas não estão separados. Eles formam um mesmo campo de experiência.


O interdito e a fissura

A vida social é construída sobre proibições.

Não matar, não invadir, não expor demais, não atravessar certos limites. Esses interditos organizam o mundo — tornam possível a convivência, a estabilidade, a continuidade.

Mas há algo curioso: toda proibição carrega, em si, a possibilidade de ser rompida.

E mais — o desejo de rompê-la.

Bataille percebe que a transgressão não é um acidente. Ela é o outro lado da regra. Não existiria sem ela.

É como se a ordem precisasse da sua própria ruptura para continuar existindo.


Erotismo: mais que desejo

Quando Bataille fala de erotismo, ele não está pensando apenas em prazer ou atração. Ele está falando de uma experiência limite.

O erotismo, para ele, é o momento em que o indivíduo deixa de ser completamente fechado em si mesmo.

Há uma espécie de dissolução:

  • do controle
  • da separação
  • da identidade rígida

Não se trata apenas de encontro com o outro, mas de uma suspensão temporária das fronteiras que nos definem.

E é isso que torna o erotismo inquietante.

Porque, no fundo, ele toca numa verdade difícil:

o “eu” não é tão sólido quanto parece.


Transgressão: atravessar sem destruir

Mas a transgressão, em Bataille, não é simplesmente destruir regras.

Se fosse isso, ela perderia o sentido.

A transgressão verdadeira mantém a regra ao mesmo tempo em que a atravessa. Ela não elimina o limite — ela o ilumina.

Pense em certos momentos da vida:

  • uma decisão impulsiva que rompe um padrão
  • uma escolha que desafia expectativas sociais
  • um gesto que parece “errado”, mas revela algo essencial

Esses momentos não anulam a ordem. Eles a colocam em evidência.

Como se dissesse: “isso existe — e eu sei disso — mas mesmo assim vou além”.


O sagrado: aquilo que separa

Aqui o pensamento de Bataille dá uma virada interessante.

O sagrado não é, para ele, apenas o “divino” no sentido religioso tradicional. É tudo aquilo que é separado do uso comum.

Algo sagrado não pode ser tratado como qualquer coisa.

E, curiosamente, o sagrado tem dois polos:

  • o puro, elevado
  • e o impuro, perigoso

Um templo e um sacrifício pertencem ao mesmo campo.

Ambos lidam com aquilo que está fora da normalidade cotidiana.


O ponto de encontro

É aqui que tudo se conecta.

O erotismo, a transgressão e o sagrado se encontram porque todos lidam com a mesma experiência fundamental:

a ruptura da continuidade ordinária da vida.

  • O erotismo rompe a separação entre indivíduos
  • A transgressão rompe a estabilidade das regras
  • O sagrado rompe o uso comum das coisas

Em todos os casos, há uma passagem — um atravessamento.


Um exemplo silencioso

Pense em um momento em que você fez algo que não estava planejado — algo que fugiu completamente da lógica do seu dia.

Não precisa ser algo extremo.

Pode ser:

  • uma conversa inesperada que mudou seu humor
  • uma decisão que você não saberia justificar
  • um instante em que tudo pareceu mais intenso do que deveria

Esses momentos têm algo em comum: eles escapam da utilidade.

E, por isso mesmo, marcam.


O risco e a atração

Por que essas experiências nos atraem?

Porque elas nos colocam diante de algo que normalmente evitamos:

a perda de controle.

A sociedade nos treina para manter distância disso. Mas, ao mesmo tempo, algo em nós busca exatamente esse limite.

É uma tensão constante:

  • entre segurança e vertigem
  • entre ordem e excesso
  • entre identidade e dissolução

Uma leitura incômoda

Se a gente leva Bataille a sério, surge uma ideia difícil de engolir:

viver plenamente talvez envolva aceitar certo grau de ruptura.

Não viver apenas dentro das regras… mas também nos momentos em que elas tremem.

Não buscar o caos, mas reconhecer que ele faz parte da experiência humana.


Fechando a conversa

No fim das contas, erotismo, transgressão e sagrado não são temas distantes. Eles aparecem em pequenas fissuras do cotidiano — nos momentos em que a vida deixa de ser apenas funcional.

Talvez não seja confortável admitir isso.

Mas talvez seja honesto.

Porque, no fundo, aquilo que mais nos marca não é o que estava previsto.

É o que atravessou o limite —

e, por um instante, fez a gente sentir que estava realmente vivo.


sexta-feira, 19 de setembro de 2025

Burlesco e Aterrorizante

O Riso no Abismo

Às vezes, o mundo parece uma grande peça de teatro mal ensaiada: o palhaço tropeça, a plateia ri, mas ninguém percebe que ele está sangrando de verdade. O burlesco e o aterrorizante, quando olhados de perto, são irmãos siameses — unidos pelo umbigo do absurdo. Enquanto um nos faz rir até perder o fôlego, o outro nos paralisa com um grito mudo. E, entre um riso nervoso e um calafrio inesperado, segue a vida, como se fosse normal viver nesse vaivém de máscaras.

Na arte, no noticiário e até na cozinha da tia do bairro, o ridículo e o macabro se abraçam sem cerimônia. Uma dança entre o que parece cômico e o que deveria nos assustar. Tomemos como exemplo uma reunião de condomínio: alguém propõe cercar o prédio com arame farpado para evitar que pombos “invadam com más intenções”. Todos riem. Mas aprovam a ideia. A piada se concretiza e, de repente, o absurdo ganha poder de decisão. É o burlesco se tornando aterrorizante com ata assinada.

O filósofo francês Georges Bataille, que tinha certa fascinação pelo grotesco, dizia que “o riso é a coincidência entre a angústia e a liberdade”. Isso talvez explique por que rimos diante do horror: é o nosso sistema nervoso tentando escapar da jaula da realidade. Ao rir de algo absurdo, aliviamos a tensão de sua verdade oculta. O meme do esqueleto dançando enquanto o mundo pega fogo é, ao mesmo tempo, cômico e apocalíptico — como uma gargalhada no fim dos tempos.

No cotidiano, isso se manifesta de formas banais: um chefe elogia o funcionário chamando-o de “escravo eficiente”. Todos riem. Ninguém vê o abismo que se abriu. Ou pior: veem, mas fingem que é só piada. O humor serve como anestesia social, mas também pode ser um bisturi. Quando bem afiado, ele revela o que há de mais medonho nos bastidores do riso.

O burlesco e o aterrorizante são, no fundo, duas formas de lidar com o insuportável. O palhaço trágico sabe disso: pinta o rosto de alegria para que ninguém veja o pânico em seus olhos. E talvez sejamos todos assim — maquiados de memes, ensaiando sorrisos no espelho enquanto o cenário desaba.

No fim das contas, rir pode ser o mais sério dos gestos. E talvez o mais humano. Afinal, só quem entende o horror pode rir dele com propriedade. Mas que seja um riso consciente — não o riso alienado que dança com o fascismo ou assina contratos com o grotesco institucional.

Então, da próxima vez que rir de algo que te assusta… pare. Talvez o abismo esteja rindo de volta.


domingo, 18 de maio de 2025

Domínio das coisas

Outro dia, percebi que passo boa parte do meu tempo tentando “dar conta” das coisas. Responder mensagens, pagar contas, cuidar da casa, resolver pendências. Como se cada tarefa fosse um bicho solto que preciso laçar e prender. Curioso é que, quanto mais dou conta, mais coisas surgem para serem domadas. Parece que as coisas se multiplicam quando sentem que estamos tentando dominá-las. E isso me fez pensar: será que as coisas são feitas para serem dominadas?

No nosso cotidiano, falamos com naturalidade sobre “ter domínio” de algo: domínio de uma língua, de um instrumento musical, de uma situação. Isso dá uma sensação de controle, de segurança, até de poder. Mas o filósofo francês Georges Bataille diria que aquilo que realmente importa na vida — como o sagrado, o amor ou a liberdade — não se deixa dominar. O que se deixa dominar, ele diria, é coisa. E talvez o mais trágico seja quando tentamos dominar o indominável, como se tudo fosse coisa.

Quando algo escapa ao nosso vocabulário, chamamos de “coisa”. Quando não sabemos o nome de alguém, dizemos “aquela pessoa... aquela coisa ali...”. O nome é o primeiro gesto de tentativa de domínio. Dar nome é cercar, é tentar conter o que antes era fluxo. E quando não conseguimos nomear, a linguagem se refugia na palavra mais vaga que temos: coisa. Mas essa palavra, ao invés de definir, dissolve. Ela marca o ponto em que nossa razão falha e a realidade começa a se expandir além das bordas do compreensível. Chamar de coisa é, paradoxalmente, admitir que perdemos o controle. É o eco de um mistério que se recusa a caber num dicionário.

As coisas, no entanto, não são neutras. São extensões do nosso desejo. Quando tento dominar o tempo, por exemplo, organizando agendas e cronogramas, na verdade estou tentando não morrer esmagado pela velocidade dos dias. Quando tento dominar um ambiente — arrumando, controlando o que entra e o que sai — talvez esteja buscando um refúgio simbólico contra o caos interior. O domínio das coisas não é apenas uma tarefa externa: é um modo de lidar com os próprios fantasmas.

Mas e se estivermos sendo dominados pelas coisas que acreditamos dominar? Um exemplo banal: um celular. Dizemos que ele é uma ferramenta, mas é ele quem dita nossos horários, atenção e até o modo como nos relacionamos. O que parecia ser instrumento vira senhor. E o senhor vira escravo.

O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han comenta que vivemos uma época de excesso de positividade, onde tudo precisa ser produtivo, mensurável, controlável. Isso transforma até a alma em coisa — um objeto a ser aperfeiçoado. Nesse processo, perdemos a capacidade de simplesmente estar, de conviver com o que não se domina: o silêncio, a espera, o outro.

Dominar as coisas pode ser necessário, claro. Não dá para viver como um faquir em transe enquanto o boleto vence. Mas talvez o ponto esteja em reconhecer que há uma diferença entre ter domínio e viver sob o regime do domínio. Há beleza na entrega, valor no que escapa, verdade no que não pode ser aprisionado.

O filósofo mineiro Vladimir Safatle afirma:

“Dominar é o gesto de quem teme. O sujeito que precisa dominar é aquele que não suporta a alteridade, que não suporta aquilo que não pode assimilar.”

Essa frase nos convida a pensar que o impulso de dominar não vem da força, mas do medo — o medo de não saber o que fazer diante do que é livre, fluido, imprevisto. O domínio das coisas, então, se revela menos como conquista e mais como defesa. Quando abrimos mão da obsessão por controlar tudo, talvez comecemos a nos relacionar com o mundo de maneira mais verdadeira.

Quem sabe, no fim das contas, a liberdade esteja menos em dominar as coisas e mais em saber quando deixá-las ir.