O Riso no Abismo
Às
vezes, o mundo parece uma grande peça de teatro mal ensaiada: o palhaço
tropeça, a plateia ri, mas ninguém percebe que ele está sangrando de verdade. O
burlesco e o aterrorizante, quando olhados de perto, são irmãos siameses —
unidos pelo umbigo do absurdo. Enquanto um nos faz rir até perder o fôlego, o
outro nos paralisa com um grito mudo. E, entre um riso nervoso e um calafrio
inesperado, segue a vida, como se fosse normal viver nesse vaivém de máscaras.
Na
arte, no noticiário e até na cozinha da tia do bairro, o ridículo e o macabro
se abraçam sem cerimônia. Uma dança entre o que parece cômico e o que deveria
nos assustar. Tomemos como exemplo uma reunião de condomínio: alguém propõe
cercar o prédio com arame farpado para evitar que pombos “invadam com más
intenções”. Todos riem. Mas aprovam a ideia. A piada se concretiza e, de
repente, o absurdo ganha poder de decisão. É o burlesco se tornando
aterrorizante com ata assinada.
O
filósofo francês Georges Bataille, que tinha certa fascinação pelo
grotesco, dizia que “o riso é a coincidência entre a angústia e a liberdade”.
Isso talvez explique por que rimos diante do horror: é o nosso sistema nervoso
tentando escapar da jaula da realidade. Ao rir de algo absurdo, aliviamos a
tensão de sua verdade oculta. O meme do esqueleto dançando enquanto o mundo
pega fogo é, ao mesmo tempo, cômico e apocalíptico — como uma gargalhada no fim
dos tempos.
No
cotidiano, isso se manifesta de formas banais: um chefe elogia o funcionário
chamando-o de “escravo eficiente”. Todos riem. Ninguém vê o abismo que se
abriu. Ou pior: veem, mas fingem que é só piada. O humor serve como anestesia
social, mas também pode ser um bisturi. Quando bem afiado, ele revela o que há
de mais medonho nos bastidores do riso.
O
burlesco e o aterrorizante são, no fundo, duas formas de lidar com o
insuportável. O palhaço trágico sabe disso: pinta o rosto de alegria para que
ninguém veja o pânico em seus olhos. E talvez sejamos todos assim — maquiados
de memes, ensaiando sorrisos no espelho enquanto o cenário desaba.
No
fim das contas, rir pode ser o mais sério dos gestos. E talvez o mais humano.
Afinal, só quem entende o horror pode rir dele com propriedade. Mas que seja um
riso consciente — não o riso alienado que dança com o fascismo ou assina
contratos com o grotesco institucional.
Então,
da próxima vez que rir de algo que te assusta… pare. Talvez o abismo esteja
rindo de volta.