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segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Revolta de Sísifo


Entre o absurdo e a criação de sentido

Sabe aquela sensação de fazer a mesma coisa todos os dias e se perguntar “qual é o sentido disso tudo”? Trabalhar, dormir, acordar, repetir. Às vezes parece que a vida inteira é empurrar uma pedra morro acima — e, no final, ela sempre rola de volta. Foi exatamente essa imagem que o pensador Albert Camus utilizou para refletir sobre a condição humana em sua obra O Mito de Sísifo. Mas, ao contrário do que parece, essa história não é sobre desespero — é sobre revolta, lucidez e liberdade.

Na mitologia grega, Sísifo é condenado pelos deuses a empurrar eternamente uma rocha até o topo de uma montanha, apenas para vê-la cair novamente. Essa punição eterna simboliza, para Camus, o absurdo da existência humana: buscamos sentido em um universo que não nos oferece respostas claras. O absurdo nasce justamente desse choque entre o desejo humano por significado e o silêncio do mundo.

Mas o ponto central de Camus não é o sofrimento de Sísifo — é sua consciência. No momento em que ele desce a montanha para recomeçar a tarefa, ele sabe exatamente o que o espera. E é nesse instante de lucidez que surge a revolta. Para Camus, revoltar-se não é negar o absurdo, mas aceitá-lo plenamente sem se render a ele. É dizer: “sim, a vida não tem sentido pré-dado — e ainda assim eu continuo.”

Essa revolta transforma completamente a condição de Sísifo. Ele deixa de ser apenas um condenado e se torna, paradoxalmente, livre. Livre porque não depende mais de uma justificativa externa para sua existência. Livre porque sua consciência impede que a punição seja total. Ao reconhecer o absurdo, ele o supera. Como escreve Camus, “é preciso imaginar Sísifo feliz”.

Essa afirmação parece estranha à primeira vista. Como alguém em uma situação tão repetitiva e aparentemente inútil pode ser feliz? A resposta está na mudança de perspectiva. Se o sentido não está no destino final (que nunca chega), então ele precisa ser criado no próprio processo. O esforço, a persistência e a consciência tornam-se, por si só, fontes de valor.

Essa ideia dialoga com outros pensadores existencialistas, como Friedrich Nietzsche, que também defendeu a afirmação da vida mesmo diante do sofrimento. Seu conceito de amor fati — amar o próprio destino — aproxima-se da atitude de Sísifo. Não se trata apenas de suportar a repetição, mas de abraçá-la como parte constitiva da existência.

No mundo contemporâneo, a metáfora de Sísifo ganha ainda mais força. Rotinas mecanizadas, trabalhos alienantes e a sensação constante de vazio fazem com que muitos experimentem o absurdo em sua forma mais cotidiana. No entanto, a proposta de Camus continua provocadora: não fugir, não se iludir com falsas respostas, mas encarar o absurdo de frente.

A revolta, portanto, não é um ato de destruição, mas de criação. Ao recusar o desespero e a resignação, o indivíduo afirma sua própria capacidade de dar sentido à vida. Mesmo que esse sentido seja provisório, pessoal e fragmentado, ele é suficiente para sustentar a existência.

No fim das contas, talvez todos sejamos um pouco Sísifo. A diferença está em como escolhemos empurrar nossa pedra. Com resignação ou com consciência. Com desespero ou com revolta. E é nessa escolha — silenciosa, cotidiana e profundamente humana — que reside a possibilidade de liberdade.

segunda-feira, 23 de junho de 2025

Significado no Repetitivo

Então chegou à segunda-feira. Tem dia que parece filme repetido: você senta no mesmo lugar, liga o mesmo computador, faz a mesma tarefa de ontem — e de anteontem — e de anteontem do anteontem. Dá aquela sensação de que a vida virou um looping sem fim, um "Déjà vu" corporativo. E aí bate a pergunta: tem como encontrar algum sentido nisso tudo? Já sentiu viver à moda Sísifo? Será que dá pra tirar algo de bom desse trabalho que parece sempre igual? Talvez sim. Talvez o segredo não esteja no que a gente faz, mas como a gente enxerga o que faz.

Muita gente se vê presa nisso: tarefas repetitivas, dias parecidos, sensação de que nada muda — e aí vem a dúvida: como encontrar significado nisso?

Primeiro, é bom lembrar que o trabalho repetitivo não é algo novo. Monges medievais copiavam manuscritos linha por linha. Trabalhadores em fábricas apertam o mesmo parafuso o dia inteiro. Donas de casa lavam a mesma louça todo santo dia. E mesmo assim, alguns encontraram sentido nisso.

Talvez o primeiro passo seja mudar a lente com que se olha. A repetição permite aperfeiçoamento. Quem faz a mesma coisa cem vezes ganha um domínio que ninguém mais tem. É o que o filósofo japonês Kitarō Nishida chamaria de "ação intuitiva" — quando a prática repetida permite ao corpo e à mente se fundirem com o ato. O trabalho vira uma espécie de meditação em movimento.

Outro ponto: o efeito que esse trabalho tem nos outros. Uma atendente que repete "bom dia" para cem pessoas talvez ache tudo automático — mas para o cliente, pode ser o único sorriso do dia. Um balconista que empacota produtos numa prateleira acha que empilha latas — mas alguém mais tarde vai comer aquele alimento porque ele estava lá. Mesmo o menor dos gestos serve a algo maior.

Também há quem transforme o próprio trabalho em jogo: cronometrar quanto tempo leva, bater o próprio recorde, inventar uma micro-arte no modo de organizar papéis, dobrar roupas ou resolver planilhas. Essa brincadeira secreta quebra a rigidez do repetitivo.

Há quem encontre sentido fora do trabalho, mas leve o fruto dele para o trabalho: quem escreve um romance à noite e usa o emprego repetitivo como sustento; quem sonha com um projeto e vê no trabalho atual uma ponte para lá; quem guarda energia mental enquanto repete tarefas para sonhar acordado.

O filósofo Viktor Frankl dizia que sentido não se acha, se dá. O próprio trabalhador injeta sentido no ato — ao vê-lo como arte, serviço, treino de alma, trampolim ou disciplina espiritual.

Mesmo o trabalho mais repetitivo pode ser um terreno secreto de cultivo interior.

Penso que antes de procurar sentido no trabalho, na rotina, no chefe, no salário... talvez a pergunta mais honesta seja: eu tenho dentro de mim um motivo para viver?

Porque quem carrega uma motivação interior — um desejo, uma paixão, uma esperança, um propósito pessoal — dá sentido até ao gesto mais pequeno. Mesmo um trabalho repetitivo vira parte de uma caminhada maior.

Nietzsche dizia: “Quem tem um porquê suporta quase qualquer como.” Ou seja, se o motivo está claro por dentro, o resto — o cansaço, a monotonia, o tédio — vira detalhe do cenário.

O risco é inverter a ordem: querer que o trabalho ou o mundo preencham um vazio que é só nosso resolver. Buscar sentido lá fora quando o que falta é fogo aqui dentro.

Talvez o primeiro movimento, antes de achar graça no trabalho repetitivo, seja esse: descobrir o que faz a própria alma acordar de manhã. O que nos move de verdade — mesmo em silêncio, mesmo em segredo.