Pesquisar este blog

Mostrando postagens com marcador Watteau. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Watteau. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 4 de novembro de 2025

Embarque para Citera

“Embarque para Citera” — essa expressão carrega um perfume antigo de sonho, desejo e promessa. Citera (ou Kythira), a ilha grega de Afrodite, deusa do amor, era para os poetas e artistas o lugar simbólico onde se chega para encontrar a beleza, a sedução e o mistério da existência.

"Embarque para Citera", de Antoine Watteau, é uma pintura do século XVIII que retrata um grupo de elegantes casais embarcando (ou talvez desembarcando) rumo à mítica ilha de Citera, berço de Afrodite, deusa do amor. A cena é envolta em uma atmosfera de sonho e delicadeza, típica do estilo rococó, onde a natureza, com árvores graciosas e céu suave, envolve os personagens em um clima de desejo, hesitação e melancolia. Não se sabe ao certo se os amantes estão chegando ao reino do amor ou deixando-o para trás — essa ambiguidade dá à obra um ar poético e reflexivo sobre a transitoriedade dos sentimentos e o instante fugidio da felicidade.

Mas quem embarca para Citera, hoje? Talvez todos nós, sem saber.

Quando alguém atravessa a rua para rever um amor antigo, é um embarque para Citera.
Quando um jovem decide largar o emprego seguro para tentar viver daquilo que ama, ele também parte, hesitante, para essa ilha incerta.

Quando uma mulher já madura compra um vestido novo sem ocasião específica — só porque se sentiu bonita — ela também se deixa levar por esse barco silencioso.

Citera não tem placas, não tem aeroporto. O bilhete não se compra em reais ou euros — custa coragem, desejo e talvez um pouco de loucura. Como no quadro de Watteau, ninguém sabe se o navio está chegando ou partindo de Citera. É esse o jogo: a viagem é interna, é o movimento da alma.

O filósofo Gaston Bachelard diria que embarcar para Citera é acolher a imaginação poética como forma de vida. “A imaginação é o verdadeiro lugar do real”, escreveu ele. Não se chega à ilha sem sonhar. E quem não sonha, perde o barco.

Há quem evite esse embarque. Medo do mar revolto. Medo de não encontrar nada do outro lado — ou, pior, de encontrar exatamente aquilo que desejou. Mas é inevitável: em alguma madrugada, em alguma esquina, a alma se distrai e embarca sem avisar. Às vezes numa música antiga, num perfume esquecido, numa mensagem inesperada.

E assim seguimos todos: passageiros da travessia mais secreta. De vez em quando avistamos Citera no horizonte, com suas brumas douradas. Nem sempre a tocamos. Mas só de ver a linha de sua costa, o coração já desperta.

Talvez seja isso viver: estar sempre, de algum modo, embarcando para Citera.