“Embarque para Citera” — essa expressão carrega um perfume antigo de sonho, desejo e promessa. Citera (ou Kythira), a ilha grega de Afrodite, deusa do amor, era para os poetas e artistas o lugar simbólico onde se chega para encontrar a beleza, a sedução e o mistério da existência.
"Embarque
para Citera", de Antoine Watteau, é uma pintura do
século XVIII que retrata um grupo de elegantes casais embarcando (ou talvez
desembarcando) rumo à mítica ilha de Citera, berço de Afrodite, deusa do amor.
A cena é envolta em uma atmosfera de sonho e delicadeza, típica do estilo
rococó, onde a natureza, com árvores graciosas e céu suave, envolve os
personagens em um clima de desejo, hesitação e melancolia. Não se sabe ao certo
se os amantes estão chegando ao reino do amor ou deixando-o para trás — essa
ambiguidade dá à obra um ar poético e reflexivo sobre a transitoriedade dos
sentimentos e o instante fugidio da felicidade.
Mas
quem embarca para Citera, hoje? Talvez todos nós, sem saber.
Quando
alguém atravessa a rua para rever um amor antigo, é um embarque para Citera.
Quando um jovem decide largar o emprego seguro para tentar viver daquilo que
ama, ele também parte, hesitante, para essa ilha incerta.
Quando
uma mulher já madura compra um vestido novo sem ocasião específica — só porque
se sentiu bonita — ela também se deixa levar por esse barco silencioso.
Citera
não tem placas, não tem aeroporto. O bilhete não se compra em reais ou euros —
custa coragem, desejo e talvez um pouco de loucura. Como no quadro de Watteau,
ninguém sabe se o navio está chegando ou partindo de Citera. É esse o jogo: a
viagem é interna, é o movimento da alma.
O
filósofo Gaston Bachelard diria que embarcar para Citera é acolher a imaginação
poética como forma de vida. “A imaginação é o verdadeiro lugar do real”,
escreveu ele. Não se chega à ilha sem sonhar. E quem não sonha, perde o barco.
Há
quem evite esse embarque. Medo do mar revolto. Medo de não encontrar nada do
outro lado — ou, pior, de encontrar exatamente aquilo que desejou. Mas é
inevitável: em alguma madrugada, em alguma esquina, a alma se distrai e embarca
sem avisar. Às vezes numa música antiga, num perfume esquecido, numa mensagem
inesperada.
E
assim seguimos todos: passageiros da travessia mais secreta. De vez em quando
avistamos Citera no horizonte, com suas brumas douradas. Nem sempre a tocamos.
Mas só de ver a linha de sua costa, o coração já desperta.
Talvez
seja isso viver: estar sempre, de algum modo, embarcando para Citera.
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