O Compasso Oculto na Formação da Consciência
A
consciência não se forma num instante único, nem cresce como uma linha reta
rumo à clareza. Ela pulsa. Alterna. Expande-se e recolhe-se, como marés. Cada
pessoa que tenta lembrar “quando começou a perceber o mundo” descobre que não
houve um ponto inaugural, mas uma sequência de despertares — cada um diferente,
mas misteriosamente familiar. A isso podemos chamar regularidades nas mudanças:
um fio invisível que une o que muda e o que permanece.
Na
formação da consciência, essas regularidades funcionam como marcos de
navegação. A criança que aprende a falar experimenta uma revolução, mas repete
algo que todas as crianças já viveram: o momento em que o som se transforma em
palavra. O adolescente que questiona regras sente-se único, mas percorre uma
curva já traçada por incontáveis outros. Há uma cadência nesses rompimentos:
cada avanço vem acompanhado de desconforto, cada desconforto gera
reorganização, cada reorganização redefine o “eu”.
O
curioso é que essas regularidades não são externas como o calendário ou o
relógio — elas habitam o próprio ritmo do pensamento. Mesmo quando acreditamos
agir ao acaso, a consciência parece ter um padrão de maturação, como se
houvesse um arquiteto silencioso que projeta fases de crise, momentos de
revelação e períodos de assimilação.
O
filósofo N. Sri Ram sugeria que o despertar da consciência é como a
abertura gradual de uma flor: não por pressa, mas por uma necessidade interna
de seguir um ciclo de expansão. Para ele, a mudança não é uma ruptura com o
passado, mas um aprofundamento daquilo que já estava latente. É nesse sentido
que a consciência se constrói — mudando para se tornar mais fiel a si mesma.
Essa
espiral de mudanças regulares se manifesta ao longo de toda a vida. Na infância,
cada nova habilidade — andar, falar, nomear o mundo — é uma revolução que,
paradoxalmente, cumpre um roteiro biológico e psíquico já inscrito. Na juventude,
a consciência experimenta um ciclo de expansões e frustrações: o impulso de
romper padrões convive com a necessidade de encontrar um lugar no mundo, e cada
ruptura é seguida por uma busca de novo equilíbrio. Na maturidade, a
espiral não cessa; apenas muda de cadência. O que antes era aprendizado por
experimentação torna-se aprendizado por síntese, e as crises já não são apenas
choques externos, mas diálogos internos que pedem redefinição de sentido.
Talvez
seja essa a regularidade mais profunda: mudamos para permanecer. E permanecemos
para poder mudar. A formação da consciência, vista assim, não é uma linha reta
nem um caos, mas uma espiral — ela passa pelos mesmos pontos, mas sempre em um
nível mais alto. É a dança de reconhecer, na novidade, o eco de algo que já
sabíamos sem saber.