Estava
em minha caminhada diária e no trajeto entre as arvores do parque dei atenção ao
barulho das folhas, elas queriam conversar comigo, em minhas abstrações comecei
a dar-lhes ouvidos. Há vozes que não vêm da garganta. Não pedem microfone, não
fazem eco nas paredes, mas atravessam o dia como um vento leve que muda a
direção do pensamento. São abstratas porque não têm rosto, mas são íntimas
porque sabem exatamente onde tocar.
Elas
aparecem no silêncio do ônibus, na pausa antes de responder uma mensagem,
naquele instante em que o café já esfriou e a gente percebe que estava pensando
em outra coisa. Não dizem frases completas. Sugerem. Insinuam. Às vezes só
perguntam: é isso mesmo?
As
vozes abstratas não mandam — convidam. Uma lembra quem fomos. Outra aponta quem
poderíamos ser. Há também a que mente, a que exagera, a que dramatiza. E há a
mais rara: a que simplifica.
No
cotidiano, a gente aprende a valorizar vozes concretas — chefes, professores,
especialistas, algoritmos. Mas são as abstratas que organizam o mapa interno.
Elas não explicam o mundo; explicam nossa posição nele.
Talvez
por isso incomodem tanto. Porque não podem ser desligadas. Não têm botão, nem
volume. Só escuta quem para.
Como
diria um filósofo brasileiro pouco lembrado, Vicente Ferreira da Silva,
o homem não é apenas aquele que pensa, mas aquele que escuta o sentido se
formando dentro dele. As vozes abstratas são justamente esse ensaio de
sentido, ainda sem forma, ainda sem nome.
E
talvez amadurecer seja aprender a não confundi-las com ordens, nem a ignorá-las
como ruído. É deixá-las falar — sem transformá-las imediatamente em certezas.
Porque,
no fundo, toda decisão começa como uma voz abstrata. E toda identidade também.