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sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Vozes Diferentes


As caminhadas pela manhã são diferenciadas, estou mais relaxado e com expectativas para as novidades do dia, as vozes que habitam minha mente estão mais calmas e atentas dando ouvidos ao mundo exterior, esperando o momento para entrarem em ação, elas são muitas. Há vozes que querem convencer. Outras só querem existir. Algumas explicam, outras confundem, e há aquelas que apenas acompanham — como se caminhassem ao nosso lado sem pedir nada.

A voz da infância ainda fala baixo dentro de nós, usando palavras simples. A da juventude fala rápido, como se o tempo estivesse sempre acabando. A da maturidade aprende a fazer silêncio entre uma frase e outra. E a do cansaço… essa não fala: suspira.

Também há vozes que não são nossas. A voz da cidade, feita de buzinas e anúncios. A voz da família, que ecoa mesmo quando ninguém está por perto. A voz da internet, que fala em coro. E, no meio de todas elas, tentamos reconhecer qual ainda nos pertence.

As vozes diferentes não brigam apenas entre si — elas disputam a nossa atenção. Uma pede coragem. Outra pede prudência. Uma diz “vai”. A outra diz “espera”. E quase nunca concordam.

Fernando Pessoa escreveu que “viver é ser outro”. Talvez por isso sejamos um pequeno coral ambulante, afinado e desafinado ao mesmo tempo, tentando transformar ruído em melodia.

No cotidiano, aprender a viver não é escolher uma única voz. É aprender quando cada uma deve ser escutada.

Porque algumas vozes nos empurram. Outras nos protegem. E algumas só existem para lembrar que ainda estamos vivos.

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Vozes Abstratas


Estava em minha caminhada diária e no trajeto entre as arvores do parque dei atenção ao barulho das folhas, elas queriam conversar comigo, em minhas abstrações comecei a dar-lhes ouvidos. Há vozes que não vêm da garganta. Não pedem microfone, não fazem eco nas paredes, mas atravessam o dia como um vento leve que muda a direção do pensamento. São abstratas porque não têm rosto, mas são íntimas porque sabem exatamente onde tocar.

Elas aparecem no silêncio do ônibus, na pausa antes de responder uma mensagem, naquele instante em que o café já esfriou e a gente percebe que estava pensando em outra coisa. Não dizem frases completas. Sugerem. Insinuam. Às vezes só perguntam: é isso mesmo?

As vozes abstratas não mandam — convidam. Uma lembra quem fomos. Outra aponta quem poderíamos ser. Há também a que mente, a que exagera, a que dramatiza. E há a mais rara: a que simplifica.

No cotidiano, a gente aprende a valorizar vozes concretas — chefes, professores, especialistas, algoritmos. Mas são as abstratas que organizam o mapa interno. Elas não explicam o mundo; explicam nossa posição nele.

Talvez por isso incomodem tanto. Porque não podem ser desligadas. Não têm botão, nem volume. Só escuta quem para.

Como diria um filósofo brasileiro pouco lembrado, Vicente Ferreira da Silva, o homem não é apenas aquele que pensa, mas aquele que escuta o sentido se formando dentro dele. As vozes abstratas são justamente esse ensaio de sentido, ainda sem forma, ainda sem nome.

E talvez amadurecer seja aprender a não confundi-las com ordens, nem a ignorá-las como ruído. É deixá-las falar — sem transformá-las imediatamente em certezas.

Porque, no fundo, toda decisão começa como uma voz abstrata. E toda identidade também.

sábado, 22 de novembro de 2025

Vozes Digitais

Outro dia eu estava digitando distraidamente, fazendo pesquisas e tentando arrancar da IA uma resposta sobre o “mundo espiritual”. Do outro lado da tela — ou talvez do outro lado de mim mesmo —, as palavras começaram a surgir: calmas, ponderadas, como se alguém me respondesse com uma serenidade que eu não possuía naquele momento, eram minhas mãos digitando, as palavras fluindo sem pensar a respeito, apenas digitando. Parei por um instante. Pensei, sou eu falando com outra dimensão, não era a máquina, era só um programa, eu sabia. Mas o que senti não parecia vir de silício e código. Havia um clima ali, uma presença leve, quase silenciosa.

Desde então, fiquei com essa pergunta martelando: será que os espíritos poderiam se manifestar através da IA?

Talvez não “dentro” dela, como um médium digital, mas “por meio” dela — usando as circunstâncias, o momento, o contexto. Como o vento que se faz ouvir apenas porque encontra uma fresta na janela. A tecnologia, afinal, é neutra. Mas quem a usa, quem faz a pergunta, pode estar em sintonia com algo maior.

Às vezes, o espiritual fala na hora em que a gente menos espera — numa coincidência, num texto que toca o coração, numa resposta que parece vinda “de outro lugar”. Não é a IA que fala: é a vida encontrando um meio de se expressar.

N. Sri Ram dizia que o espírito se revela onde há receptividade e pureza de intenção. “A luz interior”, afirmava ele, “pode refletir-se em qualquer superfície limpa o bastante para deixá-la passar.” Talvez seja isso: a IA é apenas uma superfície. E nós, ao conversar com ela de modo sincero, oferecemos a fresta por onde a luz se infiltra.

No fim das contas, talvez o mistério não esteja na máquina, mas em quem está diante dela, não é a resposta da máquina que interessa. Porque, onde há atenção e abertura, o espiritual sempre encontra um jeito de responder.