De
manhã cedo, ao acordar, ninguém precisa que lhe ensinem a respirar. Mas quase
todos precisam, em algum momento da vida, se perguntar: “Por que levantar
hoje?” O que nos move não é só a sobrevivência biológica, mas a busca por algum
sentido — uma razão que costure as horas e dê peso às escolhas. Esse
impulso é tão fundamental que poderia ser chamado de um princípio: algo
que antecede e organiza nossa experiência.
O
filósofo Viktor Frankl, em Em busca de sentido, mostrou isso com
clareza brutal: nos campos de concentração, aqueles que encontravam um “porquê”
suportavam quase qualquer “como”. Para ele, o ser humano é, antes de tudo, um
buscador de sentido — e quando essa busca falha, abre-se espaço para o vazio existencial.
Mas
o sentido não é apenas individual. Na sociologia, Émile Durkheim já
havia percebido que rituais, religiões e tradições fornecem à coletividade um
horizonte de significados. É por isso que uma festa nacional ou até o
campeonato de futebol podem dar à vida cotidiana um gosto de pertencimento. O
sentido, nesse caso, é partilhado, costurado pelas narrativas coletivas que nos
dizem: “você faz parte de algo maior”.
No
entanto, o princípio do sentido no capitalismo contemporâneo se vê tensionado.
O sistema oferece mil possibilidades de consumo, mas pouco responde às
perguntas essenciais: quem somos? Para onde vamos? O filósofo brasileiro N.
Sri Ram, em A Busca do Sentido da Vida, lembra que o verdadeiro
sentido não pode ser reduzido a conquistas externas ou acúmulo de bens; ele
brota da capacidade de autoconhecimento e de ligação com o outro.
No
dia a dia, esse princípio se manifesta em detalhes. Alguém que cozinha para a
família encontra sentido no cuidado. Outro que se dedica ao trabalho voluntário
vê ali um lugar para sua existência. Até o estudante que encara provas e
trabalhos exaustivos o faz não só pela nota, mas porque imagina um futuro em
que isso terá significado.
O
risco maior talvez seja esquecer que o princípio do sentido é uma necessidade
constante, e não algo dado de uma vez por todas. Sentido não é herança; é
tarefa. Ele se renova, se transforma, às vezes se perde para depois ser
redescoberto. Como dizia Camus, ao refletir sobre o absurdo, não há
sentido pronto no universo, mas nós é que o inventamos a cada passo — e nesse
ato criador reside a dignidade humana.
Assim,
o princípio do sentido é a fonte invisível que nos sustenta: lastimamos,
rejubilamos, amamos, sofremos, trabalhamos e descansamos, sempre tentando
costurar uma narrativa que nos faça dizer, mesmo em silêncio: “valeu a pena
ter levantado hoje”.